«Jesus Cristo, amigo da vida, tocou as vidas feridas com delicadeza e ternura, e transformou-as»

Disse Jesus aos seus discípulos: «Vão contar a João o que veem e ouvem: os cegos veem, os coxos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e a Boa Nova é anunciada aos pobres. E bem-aventurado aquele que não encontrar em Mim motivo de escândalo» (Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo S. Mateus 11, 4).
 
Olhar e escutar como Jesus, olhar e escutar a partir dos olhos daqueles que sofrem... essa é a dinâmica própria do tempo do Advento.
 
O Advento é um tempo forte que nos convida a conectar-nos com o melhor que há em nós, no nosso coração: o sonho de ser uma pessoa melhor, mais madura, mais comprometida, mais aberta à realidade.
 
O Evangelho de hoje deixa muito claro que o que liga os seres humanos e Deus é a vida, não a religião. A religião é uma expressão fundamental da vida e deve estar sempre ao seu serviço.
 
Como consequência, a religião é aceitável só na medida em que serve para potenciar e dignificar a vida, inclusive o prazer e a alegria de viver. Quando a religião é vivida de maneira a agredir a vida e a dignidade das pessoas, acaba por ser uma ofensa a Deus revelado por Jesus e às pessoas.
 
O decisivo e determinante, na Igreja e na vida cristã, não é a doutrina, nem as práticas religiosas que alimentam a culpa doentia, nem o legalismo estéril, nem o ritualismo que afasta da vida...
 
O decisivo e determinante, na Igreja e na vida cristã é mais simples, mais claro e está ao alcance de todos: o compromisso contra todo o tipo de sofrimento e contra tudo aquilo que exclui e gera desumanização.
 
Dito de outra maneira: seguir Jesus é contagiar vida plena e felicidade aos outros.
 
Jesus foi enviado por Deus Pai e deixou-se conduzir pelo Espírito para aliviar o sofrimento humano: «Os cegos recuperam a vista, os paralíticos andam, os leprosos são curados, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam e os pobres são evangelizados.»
 
Jesus, amigo da vida, tocou as “vidas feridas” com delicadeza e ternura, e transformou-as. Os seus gestos terapêuticos foram o prolongamento da ação criativa de Deus; com palavras e ações Ele inaugurou no meio de nós o Reino de Vida do Pai. Não só optou pela vida e se comprometeu com a vida, mas fez da sua Vida uma entrega radical a favor da vida.
 
Isto significa que a espiritualidade do Advento, apresentada pelo Evangelho de hoje, funde a causa de Jesus com a causa da vida: doía-lhe a fome dos outros; doía-lhe a exclusão e a violência sofrida pelos mais pobres; doía-lhe a vida massacrada daqueles que não tinham direito a viver com liberdade...
 
Os cristãos só o são na medida em que defendem, respeitam e dignificam a vida, como Jesus o fez. Só seremos seguidores d’Ele se os sofrimentos dos outros “doerem” em nós. Este é o sentido da compaixão: fazer própria a dor dos outros e comprometer-se com a vida.
 
A espiritualidade que o Advento apresenta não é um projeto que centra o sujeito em si mesmo, na sua própria perfeição, ou na aquisição de determinadas virtudes, mas é um projeto centrado nos outros, orientado para os outros, com a intenção de aliviar o sofrimento alheio. É um projeto centrado na defesa e no respeito à vida, na luta por sua dignidade.
 
Os cegos, surdos, coxos, leprosos, pobres e muitos outros coletivos no mundo de hoje, continuam sendo símbolos da marginalização mais radical que afeta muitíssimos seres humanos. O texto de hoje quer ressaltar que a chegada do Reino terá consequências para todos, mas sobretudo para os mais excluídos, que tinham perdido toda esperança e o sentido do viver.
 
Um pormenor muito importante
Como podemos perceber, entre os sinais da presença do Messias não há um só sinal “religioso”: nem culto, nem rezas, nem sacrifícios... Isto deveria fazer-nos pensar.
 
Nós cristãos, com frequência, esquecemos que, para Jesus, primeiramente vem a vida, depois o culto; em primeiro lugar, o compromisso em aliviar a dor humana, depois a religião. Nem João, nem os rabinos, nem os sacerdotes, nem os apóstolos estavam capacitados para entender Jesus. A sua presença e atuação não se ajustavam ao que eles esperavam do Messias. Jesus rompe com todas as conceções e esquemas mentais, desmonta todas as expectativas, frustra uma visão...
 
São as ações em benefícios dos outros que fazem presente Deus.
 
Entrar na dinâmica do Advento, significa estar dispostos a aproveitar qualquer ocasião para fazer presente o Reino, deixando de frustrar aqueles que esperam de nós atitudes comprometidas com a vida.
 
Uma comunidade de Jesus, que segue o Amigo da Vida, não é só um lugar de iniciação à fé, nem só um espaço de celebração. Deve ser, de muitas maneiras, fonte de vida mais sadia, lugar de acolhimento, casa para quem necessita de um lar, deve constituir-se como “comunidade curadora”: mais próxima daqueles que sofrem, mais atenta aos doentes desassistidos, mais acolhedora daqueles que precisam ser escutados e consolados, mais presente nas situações dolorosas das pessoas.

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