«A Maria que conhecemos a partir da catequese, da pregação,
das devoções populares e espirituais, dos livros de exaltação, da arte... tem
pouco que ver com a bíblica. Maria faz parte da Bíblia, mas a tradição separou-a
dela, descontextualizando-a», reflete a teóloga e psicóloga espanhola Mercedes
Navarro Puerto, professora da Universidade Pontifícia de Salamanca e
cofundadora da Associação das Teólogas Espanholas, em artigo publicado no
caderno Donne Chiesa Mondo do jornal L’Osservatore Romano, de dezembro
de 2022. A tradução é de Moisés Sbardelotto.
Não há nem nunca houve um único rosto de Maria. Desde as
primeiras tradições que conhecemos, a sua figura é poliédrica, múltipla e rica.
Uma pluralidade já presente nos quatro relatos evangélicos e que depois, muito rapidamente,
sofreu novas diversificações a partir de outros pontos de vista. Apenas alguns
traços dela permanecem definidos até hoje. Quanto ao resto, a sua figura sofreu
um processo de amplificação e de diversificação. É grande a distância entre o
início da história de Maria de Nazaré e toda a história posterior.
Limito-me aqui a considerar apenas a dimensão bíblica da
diversidade e da pluralidade de rostos dessa figura, porque é o que confere uma
intensidade interessante e muitas vezes desconhecida a uma personagem evangélica
que, à primeira vista, parece sóbria e de poucas palavras em comparação com os
demais. É um daqueles casos em que não é a quantidade de citações que faz a
profundidade da personagem narrativa, pois a sua caracterização depende de
outros parâmetros, como o lugar que ocupa no relato, as relações com outras
personagens, a sua função e a especificidade de cada evangelista e do seu
contexto.
Assim, concentro a minha atenção nos evangelhos, fazendo
apenas uma rápida referência a outros textos do Novo Testamento. Recuperar a
Maria de Nazaré bíblica a partir das narrativas evangélicas significa para mim
removê-la do patriarcado, ou seja, de 2000 anos de interpretações que se
distanciaram das fontes bíblicas, obstruindo-as, assim, também às pessoas e, de
maneira totalmente particular, às mulheres.
Evangelho de Marcos
Marcos conecta a importância de Maria com a crise da família
patriarcal judaica provocada por Jesus. Lemos em Mc 3, 21.31-35: «Quando os
seus familiares ouviram isto, saíram a ter mão nele, pois diziam: “Está fora de
si!” Nisto chegam sua mãe e seus irmãos que, ficando do lado de fora, o mandam
chamar. A multidão estava sentada em volta dele, quando lhe disseram: “Estão lá
fora a tua mãe e os teus irmãos que te procuram.” Ele respondeu: “Quem são
minha mãe e meus irmãos?” E, percorrendo com o olhar os que estavam sentados à
volta dele, disse: “Aí estão minha mãe e meus irmãos. Aquele que fizer a
vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe.”»
Em apenas cinco versículos, o narrador condensa o processo
evolutivo da personagem que parte de uma posição óbvia, patriarcal e
obrigatória em relação ao filho considerado louco e chega a uma posição que é
fruto de uma escolha livre, revolucionária em relação a um grande pilar da
sociedade e da religião israelitas.
A partir dessa crise, Maria progride até passar a fazer
parte, não sabemos se constantemente ou apenas esporadicamente, do grupo das
mulheres que seguem Jesus e aderem ao seu projeto. Partindo de uma forma de
entender a tradição religiosa judaica, a implementação do projeto divino coloca-se
como alternativa à família israelita e às suas implicações.
O breve relato de Mc 6, 1-6_ «Não é Ele o carpinteiro, o
filho de Maria e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E as suas irmãs
não estão aqui entre nós?», e os dois momentos pascais da presença das
mulheres na crucificação (15, 40-41) e no sepulcro vazio (16, 1-8) confirmam a
hipótese dessa evolução.
Evangelho de Mateus
Mateus apresenta Maria de um modo diferente. Ele utiliza géneros
literários, símbolos e elementos míticos nos relatos da infância de Jesus: o
infanticídio e a perseguição do rei Herodes obrigam a mãe a fugir com o menino
e o pai. Destaca-se a imagem da díade mítica divina da mãe com o menino (seu
filho). Porém, o que dá maior intensidade à personagem é o seu histórico
bíblico, que começa na genealogia, em que Maria é a última da significativa
lista de quatro mulheres “irregulares” – que criam uma diversidade na própria
continuidade – e continua no midrash [método de exegese bíblica seguido pela
tradição judaica dos relatos da infância].
Se não for levada em conta a Bíblia hebraica, tal
intensidade não é percebida. Além disso, é preciso ver a Maria de Mateus em
estreita relação com o José de Mateus, pois o modo como José é apresentado
modifica e ilumina Maria naquele contexto social e histórico. Sem essa relação,
não se compreende o facto de que, no Evangelho de Mateus, Maria é menos
patriarcal do que parece, e isso também vale para José.
Evangelho de Lucas
Lucas usa o género literário da anunciação do nascimento do
herói à futura mãe (2, 26-38), que se baseia nos mitos greco-latinos e remete a
vários textos da Bíblia hebraica.
Lucas propõe Maria como uma mulher jovem, consciente,
inteligente e independente, e liberta-a do suposto destino inapelável da
maternidade das mulheres. Para muitos, passa despercebido o momento em que
Maria, que não entende o que o anjo lhe diz, lhe faz perguntas para obter
esclarecimentos, e também aquele em que ela aceita sem consultar o noivo
prometido, facto que rompe com a tradição da relação homem-mulher.
Lucas é o narrador mais patriarcal e, apesar do perfil
narrativo luminoso com que apresenta Maria na anunciação, na visitação a Isabel
e no texto sobre o primado da escuta da Palavra sobre a dignidade materna (11, 27-28),
é também aquele que busca recolocar as mulheres no lugar pré-determinado a elas
pelo patriarcado.
O quarto Evangelho (João)
O autor do quarto Evangelho confere à figura de Maria um
lugar estrutural na sua obra com base em sólidos fundamentos bíblicos. Ele apresenta-a
ao inaugurar a vida pública de Jesus (Jo 2, 1-8), sob o símbolo da nova
humanidade, sobre a base evocativa de uma Eva fundamental no nascimento do
humano, porta da vida, livre porque pode escolher e portadora de novidade.
Maria é mulher para Jesus e mãe de Jesus. A relação entre
essas duas formas de mencioná-la (nunca com o seu nome) condensa símbolos,
mitos e significados teológicos inovadores no Evangelho. A Maria de João não
pode ser compreendida sem uma leitura libertadora do que ocorre nas bodas de
Caná: «Enquanto isso, faltou vinho, e a mãe de Jesus lhe disse: ‘Eles não têm
mais vinho!» (Jo 2, 3).
O evangelista volta a mostrá-la no fim da vida de Jesus (19,
25-27), abrindo e fechando o seu ciclo vital e histórico. É novamente porta de
nova humanidade e de uma história comunitária inovadora.
Outros textos
Há outros escritos do Novo Testamento que evocam Maria. O
mais próximo dos relatos evangélicos é o dos Atos dos Apóstolos (At 1, 14) que
a nomeia no contexto do Pentecostes, à frente da família de Jesus num quadro de
luto e de conflito pela liderança da sua herança.
Lucas não lhe dá a palavra, mas um lugar muito significativo.
Infelizmente, a sua menção foi entendida como uma exceção: ela sozinha entre
homens. Em vez disso, o texto inclui homens e mulheres, seguidores,
familiares...
Maria e a Bíblia
A Maria que conhecemos a partir da catequese, da pregação,
das devoções populares e espirituais, dos livros de exaltação, da arte... tem
pouco que ver com a bíblica. Maria faz parte da Bíblia, mas a tradição separou-a
dela, descontextualizando-a.
O Concílio Vaticano II tentou desmistificá-la e devolvê-la
às fontes, para reinterpretá-la, mas a sua figura sofreu um processo simplista.
Tiraram-lhe as joias e a coroa, fizeram-na descer das nuvens, transformando-a numa
camponesa judia, quase sem significado evangélico e teológico, com pouca
capacidade de animar e conferir poder às mulheres e a toda a humanidade com o
projeto de Jesus.
A sua força libertadora foi reduzida ao Magnificat, e hoje
Maria continua a ser uma figura escassamente bíblica. Ela recuperou de longe o seu
lugar no patriarcado.
Para aprofundar o tema O Concílio Vaticano II e Maria,
ler, por exemplo:

Comentários
Enviar um comentário