«Na Igreja, tem mais força e é mais determinante o machismo do que o Evangelho»

Como se sabe, “diferença” não é o mesmo que “desigualdade”. A diferença é um “facto”. A igualdade é um “direito” (cf. Luigi Ferrajoli, Direitos e garantias, Madrid, Trotta, 2001, pág. 77-80). Por isso, se realmente queremos que a maior igualdade possível seja imposta neste mundo, para alcançar tal ideal, não há outro caminho - nenhum outro remédio - senão fomentar e potenciar "a lei do mais fraco", que se torna realidade nos “direitos fundamentais”, proclamados na Declaração de direitos de 1789 (L. Ferrajoli, oc, pág. 76-78).

Sabemos muito bem que "a lei do mais fraco" não foi imposta no nosso mundo. Sabemos, portanto, que, na sociedade moderna e pós-moderna, a igualdade não foi imposta. As desigualdades são assombrosas e cruéis. E os responsáveis ​​somos os que não levámos a sério nem lutámos, com coração e verdade, para tornar realidade os direitos dos mais fracos.

Nessas condições e sem medo de exagerar, pode-se afirmar que as Religiões – inclusive o Cristianismo – foram (e continuam a ser) responsáveis ​​pelas mil desigualdades que continuam a causar tanto e tão enorme sofrimento. Não é possível – nem pretendo – descrever e analisar as tantas desigualdades que a Igreja mantém e justifica. Desigualdades na sociedade. E desigualdades na mesma Igreja. Com o agravamento dos inúmeros silêncios da Igreja perante as leis do mais forte, na política, na economia, no Direito, em tantas coisas, que seriam bem diferentes se os bispos (e o clero em geral) levantassem a voz, como a levantam quando se sentem ameaçados nos interesses e liberdades que favorecem ou ameaçam a Igreja e o que realmente interessa ao mundo clerical.

Deste pressuposto, compreende-se perfeitamente como e porque passam os anos e os séculos, enquanto a Igreja se mantém firme na sua decisão de manter a desigualdade das mulheres em relação aos homens. Uma decisão intocável, que se mantém à custa de milhares e milhares de paróquias que não podem celebrar a Eucaristia, nem cuidar dos fiéis que precisam de conselhos, ajuda e, sobretudo, não têm quem lhes explique o Evangelho e lhes dê luz nos seus problemas de consciência.

O Concílio Vaticano II, na sua constituição sobre a Igreja (LG, nº 37), disse que "os fiéis têm o direito de receber abundantemente... o auxílio da palavra de Deus e dos sacramentos...". Mas vê-se que, para uma notável maioria de bispos, teólogos e governantes da Igreja, é mais importante ter mulheres marginalizadas do que cumprir os direitos dos fiéis cristãos.

Além disso, isso é feito sabendo que, conforme registado nos Evangelhos, o grupo humano, com o qual Jesus não teve o menor atrito ou problema, foi precisamente o das mulheres. Jesus sempre as defendeu, embora nem sempre fossem mulheres exemplares. Na sua missão de anunciar o Evangelho, foi acompanhado não só pelos "Doze", mas também por "muitas mulheres", nem todas precisamente exemplares (Lc 8, 1-3). Além disso, sabemos que, de acordo com os Evangelhos de Marcos (10, 1-12) e Mateus (19, 1-12), Jesus colocou os direitos das mulheres à frente do que foi estabelecido em favor dos homens, conforme indicado em Dt 24, 1 (cf. Joel Marcus, (O Evangelho segundo Marcos, pág. 809; Cf. Ulrich Luz, O Evangelho segundo Mateus, vol. III, pág. 140-142).

Sem dúvida, uma notável maioria dos clérigos não está disposta a admitir a igualdade dos direitos das mulheres com os direitos dos homens. Embora isso não possa ser demonstrado com o Evangelho em mãos. E – o que é pior – apesar dessa mentalidade machista estar a privar dos seus direitos milhões de fiéis cristãos. Até em grave detrimento da própria Igreja, que vai perdendo o seu clero e com um futuro cada vez mais preocupante.

Sem dúvida, na Igreja, tem mais força e é mais determinante o machismo do que o Evangelho. Que futuro espera aqueles de nós que continuamos a querer o melhor para a Igreja e para a sociedade?

José Maria Castillo, Religión Digital

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