Evangelho
de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João (Jo 1, 29-34): «Naquele tempo, João Baptista viu Jesus, que vinha ao seu
encontro, e exclamou: "Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo."»
O que significa «Tirar o pecado do mundo»?
João Batista não só
aponta para quem é Jesus, mas também indica sua missão: «Tirar o pecado do mundo.» Tanto no texto grego como latino, “pecado” está no singular. Não se
refere aos “pecados” individuais, tais como os entendemos hoje. No evangelho de
João, “pecado do mundo” tem um significado muito preciso: é o mundo fechado que
rejeita Deus, é o mundo que quer dominar pela força e sacrificar os outros para
se impor, é a injustiça e a violência que se expressam nas diferentes formas de
intolerâncias e preconceitos, é a humilhação que desumaniza a todos...
Trata-se do “pecado de
raiz”, a opressão que, enraizada nas estruturas
sociais-política-econômicas-religiosas, atrofia o ser humano, impedindo-o
desenvolver-se como pessoa e como ser de relações. Todos os demais pecados se
reduzem a este.
O dinamismo do mal
está entranhado no nosso mundo exterior e interior, nos nossos projetos,
desejos e ações. A experiência do pecado é de desvio de rota, de frustração da
nossa vocação, experiência que nos desumaniza e nos faz viver uma existência
vazia.
Jesus,
o novo, o verdadeiro Cordeiro de Deus
O modo de “tirar”
este pecado não é através de uma morte expiatória. O “pecado do mundo” não tem de
ser expiado, mas arrancado, eliminado, destruído. Jesus “tira” o pecado do
mundo inteiro, reconstruindo a humanidade, recompondo as relações quebradas,
mostrando, com o seu exemplo, o verdadeiro estilo e sentido da vida.
Para o evangelista
João, portanto, há um só pecado (a opressão, a injustiça) e um só mandamento (o
serviço, o amor). Jesus tirou o pecado do mundo escolhendo o caminho do
serviço, da humildade, da pobreza, amando a todos indistintamente até à entrega
radical. Esta atitude destrói toda forma de domínio, de injustiça e violência,
revelando que a salvação de Deus é para todos. Ao abrir o caminho da verdadeira
vida, Jesus rompe todas as cadeias que mantinham oprimidas as pessoas.
Na perspetiva
bíblica, o pecado aparece em primeiro lugar como a rutura de uma aliança com o
Criador, com os outros e com as criaturas. Não se trata de uma mera infração,
uma quebra de lei, nem mesmo de uma falta contra nós mesmos, mas sim de quebra
de uma relação de amor e de amizade. Numa palavra, trata-se de uma recusa a
viver e a amar.
Os horrores do
sofrimento que o ódio, a violência, o terrorismo, a injustiça, a exclusão...
apresentam aos nossos olhos, descrevem, em imagens bem vivas, a “experiência
infernal” que a humanidade vive. Elas estão aí, omnipresentes, como pesadelo
assustador diante da nossa vista, veiculadas diariamente pelos meios de
comunicação. São a consequência da resistência do nosso mundo a deixar-se
transformar pelo amor redentor do Senhor; são expressões do fechamento da
humanidade à proposta de vida do Criador, alimentando o dinamismo de morte.
O nosso drama é
perder a memória de que somos parte do todo: ao distanciar-nos de Deus Criador,
rompemos a relação cordial com todos e caímos num devastador vazio existencial.
Sem levar em conta a rede de vida que nos envolve, provocamos a quebra da
“re-ligação” com tudo e com todos.
O pecado – enquanto rutura
de relações – faz-nos cegos e surdos diante do mundo da exclusão e da
violência. E se há fome e sofrimento ao nosso redor, isso já não nos impacta. A
maldade, a mentira, o preconceito, a intolerância..., não nos afetam. Já não
choramos as dores do mundo que construímos e ao qual pertencemos; anestesiamos a
nossa sensibilidade e entramos num estado de apatia e indiferença para com o
mundo, as coisas e as pessoas.
Aqui está a chave da
incapacidade de nossa sociedade para responder aos desafios atuais.
Mas a nossa vocação,
como seguidores(as) do Cordeiro, é a de construir pontes e ser presença
reconciliadora em situações de fronteira, colocando as nossas forças, a nossa
formação, a nossa vida ao serviço, para criar, alimentar e sustentar os laços
humanos, as relações sociais, as estruturas políticas e económicas que tornam
possível a solidariedade entre todos os seres e aponte para um mundo fraterno e
justo.
É aqui, neste mundo,
que Deus nos chama a estender o seu Reinado, trabalhando cada dia como amigos
de Jesus que se aproximam, se compadecem, curam, ajudam, transformam,
multiplicam os esforços.
A conversão
significa, portanto, reorientar a cabeça e o coração para as “margens”, ativar
o dinamismo da compaixão, desenvolver uma sensibilidade solidária e assumir
lutas em defesa da vida e da dignidade das pessoas: “Um outro mundo é possível.”

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