«Rezar pela pessoa com quem estamos irritados é um belo passo rumo ao amor, e é um ato de evangelização»
Evangelho de Jesus Cristo segundo São Mateus (Mt 5, 17-37): «Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos: "Se a vossa justiça não superar a dos escribas e fariseus, não entrareis no reino dos Céus. Ouvistes que foi dito aos antigos: ‘Não matarás; quem matar será submetido a julgamento’. Eu, porém, digo-vos: Todo aquele que se irar contra o seu irmão será submetido a julgamento.".»
Eu, porém, digo-vos...
Para Jesus Cristo, não basta cumprir a Lei, que ordena «não
matarás». É necessário também remover da nossa vida a agressividade, o desprezo
pelo outro, os insultos ou as vinganças. Aquele que não mata cumpre a Lei, mas,
se não se libertar da violência, no seu coração ainda não reina esse Deus que
procura construir connosco uma vida mais humana.
Segundo alguns observadores, está-se a espalhar na sociedade
uma linguagem que reflete o crescimento da agressividade. Cada vez são mais
frequentes os insultos ofensivos, proferidos apenas para humilhar, desprezar e
ferir. Palavras nascidas da rejeição, do ressentimento, do ódio ou da vingança.
Por outro lado, as conversas são muitas vezes tecidas com
palavras injustas que distribuem condenações e semeiam suspeitas. Palavras
ditas sem amor e sem respeito que envenenam a convivência e causam dano.
Palavras nascidas quase sempre da irritação, da mesquinhez ou da baixeza.
Este é um facto que não ocorre apenas na convivência social.
É também um grave problema no interior da Igreja. O Papa Francisco sofre ao ver
divisões, conflitos e confrontos de «cristãos em guerra com outros cristãos». É
um estado de coisas tão contrário ao Evangelho que sentiu a necessidade de nos
dirigir um apelo urgente: «Não à guerra entre nós» (Evangelii Gaudium, números
98-101)
José Antonio Pagola, Grupos de Jesus
Papa Francisco, Exortação apostólica Evangelii Gaudium
Não à guerra entre nós
98. Dentro do povo de Deus e nas diferentes comunidades,
quantas guerras! No bairro, no local de trabalho, quantas guerras por invejas e
ciúmes, mesmo entre cristãos! O mundanismo espiritual leva alguns cristãos a
estar em guerra com outros cristãos que se interpõem na sua busca pelo poder,
prestígio, prazer ou segurança económica. Além disso, alguns deixam de viver
uma adesão cordial à Igreja por alimentar um espírito de contenda. Mais do que
pertencer à Igreja inteira, com a sua rica diversidade, pertencem a este ou
àquele grupo que se sente diferente ou especial.
99. O mundo está dilacerado pelas guerras e a violência, ou
ferido por um generalizado individualismo que divide os seres humanos e põe-nos
uns contra os outros visando o próprio bem-estar. Em vários países, ressurgem
conflitos e antigas divisões que se pensavam em parte superados. Aos cristãos
de todas as comunidades do mundo, quero pedir-lhes de modo especial um
testemunho de comunhão fraterna, que se torne fascinante e resplandecente. Que
todos possam admirar como vos preocupais uns pelos outros, como mutuamente vos
encorajais, animais e ajudais: «Por isto é que todos conhecerão que sois meus
discípulos: se vos amardes uns aos outros» (Jo 13, 35). Foi o que Jesus, com
uma intensa oração, pediu ao Pai: «Que todos sejam um só (…) em nós [para que]
o mundo creia» (Jo 17, 21). Cuidado com a tentação da inveja! Estamos no mesmo
barco e vamos para o mesmo porto! Peçamos a graça de nos alegrarmos com os
frutos alheios, que são de todos.
100. Para quantos estão feridos por antigas divisões,
resulta difícil aceitar que os exortemos ao perdão e à reconciliação, porque
pensam que ignoramos a sua dor ou pretendemos fazer-lhes perder a memória e os
ideais. Mas, se virem o testemunho de comunidades autenticamente fraternas e
reconciliadas, isso é sempre uma luz que atrai. Por isso me dói muito comprovar
como nalgumas comunidades cristãs, e mesmo entre pessoas consagradas, se dá
espaço a várias formas de ódio, divisão, calúnia, difamação, vingança, ciúme, a
desejos de impor as próprias ideias a todo o custo, e até perseguições que
parecem uma implacável caça às bruxas. Quem queremos evangelizar com estes
comportamentos?
101. Peçamos ao Senhor que nos faça compreender a lei do
amor. Que bom é termos esta lei! Como nos faz bem, apesar de tudo amar-nos uns
aos outros! Sim, apesar de tudo! A cada um de nós é dirigida a exortação de
Paulo: «Não te deixes vencer pelo mal, mas vence o mal com o bem» (Romanos 12, 21).
E ainda: «Não nos cansemos de fazer o bem» (Gálatas 6, 9). Todos nós provamos
simpatias e antipatias, e talvez neste momento estejamos chateados com alguém.
Pelo menos digamos ao Senhor: «Senhor, estou chateado com este, com aquela.
Peço-Vos por ele e por ela». Rezar pela pessoa com quem estamos irritados é um
belo passo rumo ao amor, e é um ato de evangelização. Façamo-lo hoje mesmo.
Não deixemos que nos roubem o ideal do amor fraterno!

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