E se Nossa Senhora, em vez de um filho, tivesse tido uma filha? E se a Bíblia, no lugar de um «Filho de Deus», estivesse a «Filha de Deus»? Já tinham pensado nisto?
A conclusão deste texto de opinião publicado no Jornal da Madeira, de 2 de março de 2023, de Luísa Santos, Se Jesus tivesse sido mulher, Maria não era virgem, lançou-me numa profunda meditação quaresmal. Agradeço a provocação.
Pensei que o conteúdo do artigo me elucidasse mais e que me trouxesse uma novidade teológica e bíblica surpreendente, que me enchesse as medidas. Mas não, o enfoque foi para o habitual, direitos iguais ou não entre mulheres/homens e domínio patriarcal/matriarcal.
Sou pelos direitos e deveres em igualdade circunstâncias para homens e mulheres.
Não sou pelo patriarcalismo como também não serei pelo matriarcalismo. Como também não pode ser aceitável que os homens atuem comos mulheres e vice-versa.
Sou pela humanidade inteira que se enforma com mulheres e com homens inteiros, com direitos e deveres iguais.
Nunca serei pelo domínio do masculino na sua prática patriarcal como tem atravessado os séculos em todos os domínios da sociedade, da religião e da política. Porém, não serei pelo domínio matriarcal, mesmo que me convençam que este será um poder light.
Nesta luta ou tomada de consciência entre deveres e direitos não podemos sair do bom senso e da razoabilidade necessária para que tenhamos homens e mulheres livres numa convivência social saudável onde uns e outras se completam para o bem comum e a felicidade mútuas.
Nada é mais irrelevante do que o género de Jesus, filho ou filha de Maria e de Deus, se o seu principal trabalho neste mundo foi e é apresentar-nos um Deus Pai e Mãe. A pintura do «Retorno do Filho Pródigo» de Rembrandt (Museu do Hermitage em São Petersburgo) celebrizou a pedagogia das mãos do Pai eterno sobre as costas do filho, a mão direita é feminina e a esquerda é masculina. Deus é Pai e é Mãe.
Tudo isto são aspetos que a humanidade ainda não percebeu, daí andarmos ainda a discutir quem domina mais ou quem tem mais ou menos direitos. O debate centrado apenas aqui fica redutor.
O que há muito tempo me intriga neste mundo é que existam homens que odeiam as suas mães, a esposa e as suas filhas. Ao contrário não deixa de ser terrível, que um feminismo fanático pretenda reclamar direitos, movido pelo ódio.
Livre-nos Deus de uma humanidade toda e unicamente masculinizada ou toda unicamente feminizada. Grande pobreza sempre será por uma via ou por outra.
A mulher representa o que ela tem de mais belo e imprescindível à beleza da existência: a feminilidade do parto; do aleitamento; da recusa do envelhecimento e da fealdade, mesmo que ela saiba que a sua natureza levará de vencida algum dia; a sua capacidade de escarnecer dos momentos em que acreditou ter sido amada e o seu feliz convencimento de que é um ser único impossível de ser imitado. Apenas estas particularidades femininas entre as abundantes qualidades da mulher.
Deste modo, diante de Jesus, o Filho de Deus e de Maria, só nos falta aceitar de uma vez por todas que o Cristianismo começou com homens e com mulheres, que, felizmente, muitos hoje querem crer e fazer valer o movimento que elas foram grandes Apostolas e Discípulas de Jesus. Por isso, é insustentável que à mulher seja recusado o seu papel essencial e o seu contributo na organização das diversas instâncias das igrejas cristãs.
José Luís Rodrigues, pároco de São José e São Roque, Funchal

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