Recordar palavras sábias de D. Eurico Dias Nogueira (1923-2014), que foi bispo de Braga

D. Eurico Dias Nogueira 
nasceu em Dornelas do Zêzere, Pampilhosa da Serra, 6 de março de 1923. Se fosse vivo, teria completado um século de vida…

Foi arcebispo de Braga de 5 de novembro de 1977 até 18 de julho de 1999.

Há doze anos (2011), deu esta entrevista à Agência ECCLESIA (AE), que mantém atualidade, com dados para a história e com diretivas para o futuro, que ajudam a iluminar a sociedade e a igreja:

(AE) – Do alto dos seus 88 anos como observa a sociedade atual?
D. Eurico Dias Nogueira (EDN) – Com 88 anos, tenho um longo percurso. Acompanhei a vida social e as evoluções e as expectativas que se foram verificando. Agora, olho para a sociedade com alguma preocupação. Não sei de quem é a culpa, mas a verdade é que se criou uma situação económica muito delicada. Estamos cheios de dívidas e não se sabe como serão pagas. As preocupações são grandes e todos nós participamos dessas preocupações.

AE – O tecido familiar é que irá sofrer com esta crise?
EDN – Com toda a certeza porque a crise atinge toda a gente: indivíduos, grupos e famílias. Esta será a entidade que se ressente mais da situação crítica que vivemos e que não vemos como sair. No entanto, acredito que há solução para tudo.

AE – Não é pessimista?
EDN  Não. Há motivos de preocupações  vejo que os responsáveis não sabem muito bem como fazer e andam um pouco desorientados , mas isso não é motivo para desanimar e deixarmos de acreditar.

AE – É um homem epistolar. Se tivesse de escrever uma carta aos responsáveis da nação o que lhes pedia?
EDN – Se tivesse de escrever ao Primeiro-Ministro dir-lhe-ia para olhar para a situação com coragem, não escondam nada, não andem a enganar… Isso só prejudica. Falem com clareza, digam a situação onde estamos e o que é necessário para sair dela e libertarmo-nos desta situação preocupante e desagradável. Se as pessoas se apercebem que os responsáveis escondem alguma coisa, deixam de acreditar.

AE – Quando se realizam eleições em Portugal, a taxa de abstenção é altíssima. As pessoas já deixaram de acreditar…
EDN – É verdade. Isso incomoda porque metade da população alheia-se. Devia haver mais coragem. As pessoas deviam manifestar-se melhor. É verdade que cada um tem a sua ideia - ou porque está enquadrado num partido político ou porque pensa por si mesmo -, mas todos estamos preocupados com a situação. Intervir é manifestar-se na altura própria e quando somos chamados a pronunciar-nos sobre qualquer problema grave ou, simplesmente, dar o nosso voto para os representantes que estão em nosso nome à frente das instituições.

AE – Faltam políticos cristãos na democracia portuguesa?
EDN – Gostava de ver esses cristãos sinceros e conscientes, felizmente há muitos, mais empenhados no aspecto político. Não digo a Igreja em si mesma ou aqueles que são a cara da Igreja (padres, bispos, religiosos) porque esses não se devem manifestar muito – até para não influenciar -, mas os cristãos em geral deveriam interessar-se e empenhar-se mais nas «coisas» públicas.

AE – É conveniente não esquecer que a sociedade atual é muito mais hedonista do que outrora. Esqueceu os valores cristãos. O que fazer para alterar este panorama?
EDN – O cristianismo envolve a sociedade e projecta-se nela. A sociedade não pode evoluir se esquecer os valores cristãos. Os cristãos quando actuam, não devem esconder e ignorar estes valores.

AE – Será que neste momento, com o desemprego a atingir taxas enormes e a pobreza a aumentar a olhos vistos, as pessoas não esquecem o evangelho porque lhes falta o pão?
EDN – Tudo isso é verdade, mas não é a religião que vai resolver esses problemas. Os políticos e, nomeadamente os políticos cristãos, deviam estudar estas situações e aconselhar o caminho e as soluções a seguir. Só assim se evitam tragédias que possam colocar em risco a sociedade. Todas as pessoas conscientes deviam sentir-se políticas: quer porque têm cargos de responsabilidade na vida social quer porque são chamados, de vez em quando, a pronunciar-se e a contribuir na escolha dos representantes.

AE – Pronunciar-se mesmo através das greves?
EDN – A greve também é um meio legítimo das pessoas se manifestarem e tomarem posições perante situações difíceis ou críticas.

AE – Conhece Portugal com e sem democracia. Alguma vez imaginou que, em pleno século XXI, chegássemos a uma situação tão calamitosa? Está surpreendido?
EDN – Não muito. Quando se deu a revolução do 25 de Abril de 1974, recebia-a com gosto. Na altura estava em Angola e estávamos numa guerra que não tinha fim e não tinha razão de ser – ao princípio aceitei a guerra porque Portugal era uno, desde a Europa a Timor -, mas depois verifiquei porque contactei de mais perto com a realidade que era uma ilusão de sermos um país único.

Com o 25 de Abril, acreditei que iríamos mudar e que os governantes iriam encarar o futuro com outra tranquilidade, mas infelizmente isso não se verificou. Cada um começou a puxar para o seu lado.

Luís Filipe Santos, jornalista na Agência Ecclesia

Comentários