Leitura dos Atos dos Apóstolos (At 2, 42-47): «Os irmãos eram assíduos ao ensino dos Apóstolos, à comunhão fraterna, à fração do pão e às orações. Perante os inumeráveis prodígios e milagres realizados pelos Apóstolos, toda a gente se enchia de temor.
Todos os que haviam abraçado a fé viviam unidos e tinham tudo em comum. Vendiam propriedades e bens e distribuíam o dinheiro por todos, conforme as necessidades de cada um. Todos os dias frequentavam o templo, como se tivessem uma só alma, e partiam o pão em suas casas; tomavam o alimento com alegria e simplicidade de coração, louvando a Deus e gozando da simpatia de todo o povo. E o Senhor aumentava todos os dias o número dos que deviam salvar-se.» (Palavra do Senhor)
Sofrimento e compaixão
Será
que perante a abundância de imagens de sofrimentos, que já não parecem chocar
ou indignar como antes, estaremos a perder a nossa indignação e compaixão?
Todos
os dias, somos bombardeados com imagens de sofrimento e nunca estivemos tão bem
informados sobre os horrores que acontecem em todo o mundo. Exemplo disso são
as recentes imagens do sofrimento provocado pela guerra da Ucrânia, pelo sismo
na Turquia e na Síria ou pelo afogamento de refugiados no mar Mediterrâneo,
entre outros.
Cansados
de compaixão
Se
começas a pensar que não há nada que possas fazer para aliviar o sofrimento dos
outros, estarás a ficar insensível e indiferente. Mas essa indiferença pode ser
uma resposta à exposição abundante e demorada ao sofrimento. Há quem chame a
isto a fadiga da compaixão. No início, és capaz de mostrar muito interesse e és
sensível aos sofrimentos, mas conforme o tempo passa, podes começar a
habituar-te a eles e a achar que não tens poder para os eliminar ou minimizar.
Pouco a pouco, começas a desviar o olhar (ou a não querer ver) notícias ou
imagens desses sofrimentos, e a fadiga por compaixão vai tirando-te a capacidade
de (re)agires e auxiliares quem precisa de ajuda para aliviar o sofrimento.
Compaixão
é sofrer com
Se tens
fadiga da compaixão, é preciso que reajas. A compaixão é uma emoção que necessita
de ser posta em prática, para não se desvanecer ou desaparecer. A compaixão
leva automaticamente à solidariedade, ao altruísmo, a ações essenciais para a
existência e sobrevivência da humanidade.
A compaixão
baseia-se no respeito pelo outro e na compreensão de que ele, tal como tu, tem
o direito de ser feliz e viver sem sofrimento. Ela não deve ser confundida com
pena (lamento) ou empatia (conhecimento da dor). Pena e empatia são sentimentos
passivos que não te levam ao envolvimento com o sofrimento dos outros, e também
fazem com que olhes os outros de cima para baixo. A
compaixão faz-te ser especialmente próximo e gentil com quem sofre.
Compaixão,
precisa-se…
Na sala de
aula, um aluno perguntou-me porque devemos ter compaixão. Confesso que fiquei
triste e contente. Triste, porque pensei que ele me queria dizer que não
devemos ser compassivos, mas depressa compreendi que o que ele queria era que
eu lhe explicasse e falasse da compaixão, e isso deixou-me contente.
Seres
em relação
Disse-lhe
– e à turma –, em primeiro lugar, que nós somos seres de, e em, relação, e isso
define-nos e caracteriza-nos. Não somos seres solitários e individualistas. É
por meio do vínculo com os outros que nos tornamos humanos, que desenvolvemos
as nossas características e que aprendemos. É mediante os vínculos que
desenvolvemos uma visão de nós mesmos, dos outros e do mundo à nossa volta.
Os
vínculos são expressão de amor. Quem tem vínculos com os outros nunca será impositivo,
indiferente, manipulador ou gerador de conflitos e guerra. As pessoas que criam
vínculos são compreensivas, inclusivas, solidárias, acolhedoras, cuidadoras,
pessoas que geram e promovem a comunhão e a paz. Estas pessoas conseguem ser
compassivas, têm a capacidade de sofrer com os outros e de se envolverem (de tudo
fazerem) para aliviar o seu sofrimento.
O
bom samaritano
Depois
falei-lhes de uma das mais belas páginas do
Evangelho:
a parábola do bom samaritano (está em Lucas 10, 25-37).
É uma
parábola que nos desafia a sermos compassivos, isto é, a
sermos pobres que amam e cuidam de outros pobres, feridos que se fazem presentes junto de
outros feridos.
A parábola começa com uma situação dramática: um homem
é ferido e abandonado meio morto na berma de um caminho.
Quantas
pessoas nos dias de hoje se encontram nessa situação?
E,
tal como na parábola, também hoje, quantos de nós passamos por elas incapazes
de atendê-las e ajudá-las?
Fugir do sofrimento é, certamente, quase um instinto
em todos nós, mas o samaritano, pelo contrário, deteve-se, talvez porque sabia o que era sofrer. A experiência da
própria dor despertou nele uma grande sensibilidade, ativou um “radar” especial
que deteta a dor alheia e que o convidou a inclinar-se para o mais necessitado.
A parábola reforça insistentemente os verbos “viu”,
“sentiu compaixão” e “cuidou dele”. Foi suficiente
para o samaritano ver o ferido para (re)ativar nele a compaixão e despertar o
desejo de atuar. E nós, será que é suficiente ver aquelas imagens de guerra
para (re)ativar em nós o desejo de atuar e sermos compassivos ou, pelo
contrário, aquelas imagens estão a fazer com que passemos ao lado ou dêmos
meia-volta e fingir que não vemos?
A comunhão fraterna
E concluímos com o exemplo da primeira comunidade cristã, que se caracterizava pela comunhão fraterna (em grego, “koinonia”). A palavra indica o pôr de lado interesses particulares e egoístas, visando a união com outras pessoas e somar forças. O toque de fé cristã enriqueceu o termo com o exemplo do próprio Deus, rico em misericórdia. E a soma dos termos comunhão e compaixão significam «sentir com o outro e agir como consequência, buscando uma solução para a situação de extrema necessidade».
Abel Dias, professor de EMRC, em revista Audácia

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