quero deixar-te, fraternalmente, um decálogo. Limito-me a partilhar, dentro deste clima de amizade e proximidade
que une as nossas vidas. São pontos para meditar e rever a vida. A Páscoa passará
pela concretização de cada um deles.
1. Cientes de sermos pecadores perdoados, paralíticos
curados e, sobretudo, filhos muito amados, deixemo-nos guiar pelo Espírito
Santo, crescendo sempre na total disponibilidade e na alegria evangelizadora.
Somos simples ministros. Alguém nos escolheu e constituiu seus sacerdotes para
bem da Humanidade. Que alegria e responsabilidade!
2. Como Moisés, aproximemo-nos do fogo, permitindo que as
chamas queimem as nossas tentações de individualismo, de intimismo religioso e
de orgulho espiritual. Ofereçamos, sem reservas, a nossa vida, gratuita e
humildemente, mesmo quando poucos parecem compreendê-la, ou ninguém vem
agradecer. Tomé quis tocar no Senhor ressuscitado. Queiramos celebrar um
encontro de amizade com o eternamente Vivo e presente entre nós. Sem vida
espiritual o sacerdócio não tem sentido.
3. Num mundo em que cada um se considera a medida de tudo e
frequentemente se olha o outro como coisa, meio ou rival, multiplicando-se
tantas feridas relacionais; estejamos, mais do que nunca, atentos, agora e no
futuro, a quem vive na tribulação, no luto e na ansiedade por causa da grave
crise que estamos a enfrentar. Não há Páscoa sem cruz e esta continua
disseminada em tantas situações dramáticas. Toca-nos acolhê-las e ajudar a
ultrapassá-las.
4. Porque aceitámos não dispor de nós mesmos, não temos uma
agenda para defender, e entregamos todas as manhãs ao Senhor o nosso tempo para
nos deixarmos, mesmo se virtualmente, encontrar pelas pessoas, conhecê-las e
tomar consciência das suas dificuldades, pessoais e familiares. Tomemos
consciência que a vida sacerdotal é para os outros. Não somos burocratas ou
anónimos funcionários, mas procuramos, por todos os meios, derramar o óleo da
esperança e da consolação, fazendo-nos samaritanamente próximo de todos. Não
passemos ao lado da vida das pessoas. Demo-lhes tudo o que somos e temos.
5. Sabemos que o Amor é tudo, por isso não procuramos
garantias terrenas que nos colocam à procura de seguranças meramente humanas. O
nosso estilo de vida, sóbrio e sempre disponível, faz com que nos aproximemos
dos humildes, movidos pela caridade pastoral que nos torna livres e solidários.
Servos da vida, caminhamos com o coração e o passo dos mais frágeis, e com eles
experimentamos a alegria de um sacerdócio marcado pela gratuidade.
6. Procuremos ser homens de paz e de reconciliação, sinais e
instrumentos da ternura de Deus, atentos a difundir o bem com paixão. Mesmo no
que se refere aos bens materiais, retenhamos somente aquilo que pode servir
para ter uma vida digna, para a experiência da fé e da caridade. Ser pobre,
como Cristo, mostrará a autenticidade do Evangelho e dará credibilidade ao
nosso agir pastoral.
7. O relacionamento profundo com Jesus protege-nos do
mundanismo espiritual que corrompe, levando-nos a abraçar a realidade
quotidiana com a confiança de quem crê que nada é impossível a Deus. Também nós
temos necessidade de uma adesão pessoal a Cristo para uma autêntica experiência
de fé. O testemunho arrasta como mais nada.
8. O sentido de pertença à Igreja é o sal da nossa vida de
sacerdotes, fazendo com que o nosso princípio distintivo seja a comunhão vivida
com os fiéis leigos em relações que sabem valorizar a participação de cada um.
A nossa principal tarefa é a de construir comunidade e só com uma verdadeira
paixão pela Igreja o conseguiremos. Confiemos nos leigos e descubramos o que é
específico dos sacerdotes.
9. Aproximemo-nos sempre uns dos outros, discreta e
cordialmente, e perguntemo-nos sobre as verdadeiras motivações espirituais e
pastorais do nosso agir. Deixemos, também, que os bispos caminhem connosco numa
verdadeira corresponsabilidade eclesial. Esta experiência liberta-nos de
narcisismos e de ciúmes clericais e faz-nos crescer a estima, o apoio e a
benevolência recíproca. O caminhar em comum dos presbíteros, diferentes na
idade e na sensibilidade, difunde um perfume de profecia que surpreende e
fascina. A unidade faz com que o mundo acredite em Cristo.
10. Amamos a terra, que reconhecemos visitada todas as
manhãs pela presença amorosa de Deus e reconhecemos a importância de uma
ecologia integral que devemos promover como a verdadeira casa comum onde
crescemos juntos em harmonia e felicidade.
Caríssimo sacerdote, queremos ser homens de Páscoa, de olhar
voltado para Reino e para onde sentimos que a história humana caminha, apesar
das pandemias, dos atrasos, das obscuridades e contradições. A história não
para, mas será diferente. Chegou a hora de retirarmos lições a partir do que
nos é dado viver nestes momentos. Convido cada um a reflectir sobre a Igreja do
futuro.
Teremos novos desafios e terão de ser encarados
sinodalmente. Aproveitemos os tempos vazios. Oportunamente seremos convocados
para uma reflexão coral. Não nos fixemos só na dimensão económica. Esta será
consequência de uma imagem de Igreja. Não poderemos fugir ao problema. Só que
nunca poderemos ficar no mero exigir às pessoas. Teremos de encontrar soluções
que, de um modo novo e totalmente diferente, garantam a sustentabilidade de
todas as instâncias da Arquidiocese. Deus nunca abandonará o Seu povo.
Para que esta Páscoa seja uma Páscoa de páscoas, pedi-vos
sinais e gestos. Santa e feliz Páscoa unidos a Jesus Ressuscitado e ao serviço
dos irmãos. No meio de tantos enigmas conservemos a nossa alegria e, hoje e
sempre, demos graças a Deus pelo dom do nosso sacerdócio. Acredite, caro
sacerdote, tem aqui sempre um amigo que lhe agradece o sacerdócio.
† Jorge Ortiga, arcebispo primaz, em Diocese de Braga

Muito bem.
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