Um decálogo pascal para os padres portugueses, de D. Jorge Ortiga

Caríssimo sacerdote,

quero deixar-te, fraternalmente, um decálogo. Limito-me a partilhar, dentro deste clima de amizade e proximidade que une as nossas vidas. São pontos para meditar e rever a vida. A Páscoa passará pela concretização de cada um deles.

1. Cientes de sermos pecadores perdoados, paralíticos curados e, sobretudo, filhos muito amados, deixemo-nos guiar pelo Espírito Santo, crescendo sempre na total disponibilidade e na alegria evangelizadora. Somos simples ministros. Alguém nos escolheu e constituiu seus sacerdotes para bem da Humanidade. Que alegria e responsabilidade!

2. Como Moisés, aproximemo-nos do fogo, permitindo que as chamas queimem as nossas tentações de individualismo, de intimismo religioso e de orgulho espiritual. Ofereçamos, sem reservas, a nossa vida, gratuita e humildemente, mesmo quando poucos parecem compreendê-la, ou ninguém vem agradecer. Tomé quis tocar no Senhor ressuscitado. Queiramos celebrar um encontro de amizade com o eternamente Vivo e presente entre nós. Sem vida espiritual o sacerdócio não tem sentido.

3. Num mundo em que cada um se considera a medida de tudo e frequentemente se olha o outro como coisa, meio ou rival, multiplicando-se tantas feridas relacionais; estejamos, mais do que nunca, atentos, agora e no futuro, a quem vive na tribulação, no luto e na ansiedade por causa da grave crise que estamos a enfrentar. Não há Páscoa sem cruz e esta continua disseminada em tantas situações dramáticas. Toca-nos acolhê-las e ajudar a ultrapassá-las.

4. Porque aceitámos não dispor de nós mesmos, não temos uma agenda para defender, e entregamos todas as manhãs ao Senhor o nosso tempo para nos deixarmos, mesmo se virtualmente, encontrar pelas pessoas, conhecê-las e tomar consciência das suas dificuldades, pessoais e familiares. Tomemos consciência que a vida sacerdotal é para os outros. Não somos burocratas ou anónimos funcionários, mas procuramos, por todos os meios, derramar o óleo da esperança e da consolação, fazendo-nos samaritanamente próximo de todos. Não passemos ao lado da vida das pessoas. Demo-lhes tudo o que somos e temos.

5. Sabemos que o Amor é tudo, por isso não procuramos garantias terrenas que nos colocam à procura de seguranças meramente humanas. O nosso estilo de vida, sóbrio e sempre disponível, faz com que nos aproximemos dos humildes, movidos pela caridade pastoral que nos torna livres e solidários. Servos da vida, caminhamos com o coração e o passo dos mais frágeis, e com eles experimentamos a alegria de um sacerdócio marcado pela gratuidade.

6. Procuremos ser homens de paz e de reconciliação, sinais e instrumentos da ternura de Deus, atentos a difundir o bem com paixão. Mesmo no que se refere aos bens materiais, retenhamos somente aquilo que pode servir para ter uma vida digna, para a experiência da fé e da caridade. Ser pobre, como Cristo, mostrará a autenticidade do Evangelho e dará credibilidade ao nosso agir pastoral.

7. O relacionamento profundo com Jesus protege-nos do mundanismo espiritual que corrompe, levando-nos a abraçar a realidade quotidiana com a confiança de quem crê que nada é impossível a Deus. Também nós temos necessidade de uma adesão pessoal a Cristo para uma autêntica experiência de fé. O testemunho arrasta como mais nada.

8. O sentido de pertença à Igreja é o sal da nossa vida de sacerdotes, fazendo com que o nosso princípio distintivo seja a comunhão vivida com os fiéis leigos em relações que sabem valorizar a participação de cada um. A nossa principal tarefa é a de construir comunidade e só com uma verdadeira paixão pela Igreja o conseguiremos. Confiemos nos leigos e descubramos o que é específico dos sacerdotes.

9. Aproximemo-nos sempre uns dos outros, discreta e cordialmente, e perguntemo-nos sobre as verdadeiras motivações espirituais e pastorais do nosso agir. Deixemos, também, que os bispos caminhem connosco numa verdadeira corresponsabilidade eclesial. Esta experiência liberta-nos de narcisismos e de ciúmes clericais e faz-nos crescer a estima, o apoio e a benevolência recíproca. O caminhar em comum dos presbíteros, diferentes na idade e na sensibilidade, difunde um perfume de profecia que surpreende e fascina. A unidade faz com que o mundo acredite em Cristo.

10. Amamos a terra, que reconhecemos visitada todas as manhãs pela presença amorosa de Deus e reconhecemos a importância de uma ecologia integral que devemos promover como a verdadeira casa comum onde crescemos juntos em harmonia e felicidade.
 
Caríssimo sacerdote, queremos ser homens de Páscoa, de olhar voltado para Reino e para onde sentimos que a história humana caminha, apesar das pandemias, dos atrasos, das obscuridades e contradições. A história não para, mas será diferente. Chegou a hora de retirarmos lições a partir do que nos é dado viver nestes momentos. Convido cada um a reflectir sobre a Igreja do futuro.

Teremos novos desafios e terão de ser encarados sinodalmente. Aproveitemos os tempos vazios. Oportunamente seremos convocados para uma reflexão coral. Não nos fixemos só na dimensão económica. Esta será consequência de uma imagem de Igreja. Não poderemos fugir ao problema. Só que nunca poderemos ficar no mero exigir às pessoas. Teremos de encontrar soluções que, de um modo novo e totalmente diferente, garantam a sustentabilidade de todas as instâncias da Arquidiocese. Deus nunca abandonará o Seu povo.

Para que esta Páscoa seja uma Páscoa de páscoas, pedi-vos sinais e gestos. Santa e feliz Páscoa unidos a Jesus Ressuscitado e ao serviço dos irmãos. No meio de tantos enigmas conservemos a nossa alegria e, hoje e sempre, demos graças a Deus pelo dom do nosso sacerdócio. Acredite, caro sacerdote, tem aqui sempre um amigo que lhe agradece o sacerdócio.
 
† Jorge Ortiga, arcebispo primaz, em Diocese de Braga

Comentários

Enviar um comentário