Católicos de Lisboa escrevem ao Vaticano para traçar perfil do próximo patriarca

Um bispo que seja “uma voz profética”, que “promova uma Igreja sinodal”, que “saiba escutar e dialogar”, que seja “um homem de comunhão”, que tenha “capacidade de governar, usando de criatividade pastoral” e que “seja um homem prudente e de coragem”. Estes são alguns dos pontos que um grupo de católicos da área do patriarcado de Lisboa apontam como necessários ao futuro patriarca de Lisboa, e que sugerem num documento que foi enviado ao Dicastério para os Bispos (DB), no Vaticano, e ao núncio apostólico (representante da Santa Sé), em Lisboa.

O documento está disponível na íntegra nesta ligação eletrónicaServidor do Evangelho para a Esperança da Igreja

O texto, a que o jornal online 7MARGENS teve acesso em primeira mão, surgiu do facto de desde há meses se falar da sucessão do patriarca, assumida pelo próprio na última Páscoa, quando disse aos padres da sua diocese que esta seria a última vez que com eles celebraria aquele tempo litúrgico, naquela qualidade. Mas também foi provocado pela “necessidade, reforçada pelos últimos acontecimentos na Igreja em Portugal”, de adequar o perfil traçado, qualidades e experiência dos candidatos a bispo, “nomeadamente no que diz respeito a lidar com casos de abuso”, com a “transparência e confiança” e com um “processo de consulta” que envolva membros do clero e leigos, “escolhidos de forma a abrangerem a diversidade da diocese”.

É a primeira vez que, em Portugal, há uma iniciativa deste género, protagonizada por católicos e com esta dimensão. A carta com o documento foi já recebida pelo núncio, o bispo Ivo Scapolo e entretanto apoiada por mais cerca de meia centena de pessoas – o grupo convidou quem assim o entenda a manifestar o seu acordo com o texto, enviando cartas para a nunciatura (nuntius@nunciatura.pt; secretaria@nunciatura.pt), e dando-o a conhecer ao mesmo tempo para o endereço electrónico cristaosacaminho@gmail.com.

“Sentimos urgência em redigir este texto, sobretudo neste contexto dos abusos e da resposta titubeante dada pela Conferência Episcopal”, diz a historiadora Ângela Barreto Xavier, da Comunidade da Capela do Rato, e uma das subscritoras do documento. “Há um mal-estar generalizado entre um grande número de crentes, houve pessoas que se afastaram e achámos fundamental que os novos bispos tivessem um perfil mais próximo do que o Papa Francisco tem apontado e que também está consagrado” no Directório para o ministério pastoral dos bispos, Apostolorum Successores, do DB.

Cecília Vaz Pinto, médica, outra das subscritoras, que integra a mesma comunidade lisboeta, acrescenta que o texto surge também do “caminho sinodal em que a Igreja Católica está envolvida e que tem motivado um maior interesse dos leigos em todos os processos da Igreja”. Os apelos do Papa à participação e escuta dos católicos foram outro empurrão importante, admite.

No texto, os autores dizem que o cargo episcopal deve concretizar formas de liderança “mais consentâneas com os princípios de integridade, transparência, responsabilidade e coresponsabilidade, participação e inclusão, missão e comunhão, em linha com uma Igreja Sinodal”.

António Marujo, jornalista, diretor do Sete Margens

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