A décima
mensagem do Papa Francisco para o Dia Mundial das Comunicações Sociais «Falar com o coração. “Testemunhando a verdade no amor” (Ef
4, 15)» tem uma função bussolar na medida em que, lida em
conjunto com as anteriores, norteia a comunicação que devemos fazer.
Assim, no seu método, é preciso escutar com o coração
(mensagem de 2022), ir e ver (mensagem de 2021), falar com o coração, recuperar
a capacidade das narrativas (mensagem de 2020), reconhecermo-nos como
comunidades (mensagem de 2019), combatendo as mentiras (mensagem de 2018). Esta
comunicação promotora do encontro (mensagem de 2014) deve ser esperançosa
(mensagem de 2017) e misericordiosa (mensagem de 2016), começando a partir das
famílias (mensagem de 2015).
Francisco consegue propor respostas práticas aos grandes
desafios contemporâneos e as suas contribuições vão além dos muros da Igreja
Católica, dialogando com toda a sociedade, com líderes políticos e com as
demais religiões.
Poder-se-ia, assim, chamar a este resumo Decálogo da Comunicação
Cordial
1. Comunicar compassivamente e sem julgamentos: O agente da
comunicação é desafiado a romper com o ciclo vicioso do pré-julgamento e
abrir-se à capacidade de comunicar compassivamente, purificando o coração, a
partir da experiência que faz da pessoa de Jesus Cristo que se manifesta no
outro. “Então pode ter lugar o milagre do encontro, que nos faz olhar uns para
os outros com compaixão, acolhendo as fragilidades recíprocas com respeito, em
vez de julgar a partir dos boatos semeando discórdia e divisões.”
2. Indignar-se com os sofrimentos e comprometer-se com a
transformação social. Corremos o risco de fazer uma comunicação desencarnada,
sem cheiro de gente, sem histórias, logo, distante da realidade. Para falar com
o coração, é preciso uma comunicação envolvente e envolvida com todas as
causas, “interpelando radicalmente este nosso tempo, tão propenso à indiferença
e à indignação, baseada por vezes até na desinformação que falsifica e
instrumentaliza a verdade.”
3. Amar e respeitar o outro integralmente. Em um mundo
polarizado e com tantas violências – estruturais, físicas e simbólicas -, a
necessidade de reconhecer o outro em sua dignidade, de forma integral, deve ser
abraçada como tarefa, responsabilidade e missão da comunicação. “Quem assim
fala, ama o outro, pois preocupa-se com ele e salvaguarda a sua liberdade, sem
a violar.”
4. Exercitar a paciência como caminho de amabilidade. Numa
época de velocidade e esgotamentos (A sociedade do cansaço, refletida por
Byung-Chul Han), a paciência é uma virtude em extinção. Contudo, ela é
indispensável para o desenvolvimento de um falar amável, “para que a
comunicação não fomente uma aversão que exaspere, gere ódio e conduza ao
confronto, mas ajude as pessoas a refletir calmamente, a decifrar com espírito crítico
e sempre respeitoso a realidade onde vivem.”
5. Comunicar de forma responsável e comprometida com a
verdade. Dizer a verdade, para o cristão, não é apenas uma escolha moral, mas é
a sua configuração a Jesus Cristo, que é “caminho, verdade e vida” (cf. Jo
14,6). Assim, esta é uma “responsabilidade de cada um. Todos somos chamados a
procurar a verdade e a dizê-la, fazendo-o com amor.”
6. Cultivar mansidão, humanidade e abertura ao diálogo com
todos. De forma delongada, na mensagem, o Papa Francisco apresenta o exemplo de
São Francisco de Sales, padroeiro dos jornalistas, como uma inspiração para os
comunicadores que desejam falar com o coração. “A sua mansidão, humanidade e
predisposição a dialogar pacientemente com todos, e de modo especial com quem
se lhe opunha, fizeram dele uma extraordinária testemunha do amor
misericordioso de Deus.”
7. Colocar o amor como único e inegociável critério da ação
pastoral. Teresa de Calcutá, Dulce dos Pobres, Francisco de Assis, mulheres e
homens de nosso tempo – tantos! – colocaram o amor como critério de vida. São Francisco de Sales afirma que “somos
aquilo que comunicamos” e, por conseguinte, somos aquilo que amamos também.
“Uma lição contracorrente hoje, num tempo em que, como experimentamos particularmente
nas redes sociais, a comunicação é muitas vezes instrumentalizada para que o
mundo nos veja, não por aquilo que somos, mas como desejaríamos ser.”
8. Nutrir intimidade com Deus e comunicar segundo Seu
estilo. Não se pode confundir intimidade com Deus com uma relação intimista,
egoísta, vazia e interesseira muitas vezes se dissemina em discursos
religiosas. A intimidade com Deus é um dom que Ele mesmo nos concede, uma
dádiva de sua paternidade. Quem fala com Deus, fala de Deus de forma diferente.
É do encontro com Ele que “nasce um falar segundo o estilo de Deus, que se
sustenta de proximidade, compaixão e ternura. Na Igreja, temos urgente
necessidade duma comunicação que inflame os corações, seja bálsamo nas feridas
e ilumine o caminho dos irmãos e irmãs.”
9. Garantir o protagonismo do Espírito. Eis um caminho feliz
para cumprir a vontade de Deus. Inclusive, a Igreja latino-americana e
caribenha esta como a sua primeira contribuição para o caminho sinodal. Somos
habitados pelo Espírito, ele nos confirma no seguimento autêntico de Jesus e
nos lança ao novo. Sem o seu dinamismo, nos fechamos em nossas próprias
convicções, perdemos o brilho de sua luz e, com isso, vamos ficando mofados,
amargurados e perdemos a razão da missão. O conselho do Papa Francisco aos
comunicadores é: “saiba deixar-se guiar pelo Espírito Santo, gentil e ao mesmo
tempo profética, capaz de encontrar novas formas e modalidades para o anúncio
maravilhoso que é chamada a proclamar no terceiro milênio.”
10. Promover uma comunicação desarmada e pacificadora. A
instauração da cultura da paz passa, obrigatoriamente, pela comunicação. Na
gramática do Evangelho, os verbos amar e armar não se conjugam juntos. O
destino da paz passa por uma sociedade e por uma igreja desarmadas, com
condições para se converter cotidianamente. “Precisamos de comunicadores
prontos a dialogar, ocupados na promoção dum desarmamento integral e empenhados
em desmantelar a psicose bélica que se aninha nos nossos corações.”
Marcus Tullius, em Vatican News
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