Espírito Santo, a nossa arca do Tesouro

No 
excerto dos Atos dos Apóstolos (Atos 2, 1-11) em que São Lucas narra a vinda solene do Espírito Santo, cinquenta dias (Pentecostes) após a Páscoa, o número 50 - tal como acontece em toda a Bíblia - é o número da plenitude: aparece cerca de trezentas vezes e representa o dom de Deus e a graça da salvação.

Na mesma narrativa, São Lucas descreve a manifestação do Espírito em forma de vento impetuoso e de línguas de fogo, imagens bíblicas que revelam a força dinâmica da Palavra de Deus capaz de aquecer e transformar a vida e a realidade, com os seus dons. 

Os discípulos abriram então as portas e saíram pelo mundo a anunciar a nova criação e a nova humanidade inauguradas pela ressurreição do Senhor Jesus.

Hoje, o Espírito desce igualmente sobre nós, se procurarmos acolher e preparar a sua vinda, à maneira dos apóstolos. Após a subida de Jesus ao Céu, eles sentiram-se desamparados. Mas, confiantes na promessa de Jesus, esperaram e preparam, unidos em oração perseverante, a vinda do Espírito Santo para os guiar na sabedoria da verdade e lhes infundir força e coragem para a missão. 

Também nós, tentados pelas dúvidas, pelo medo, pelo vazio, pelo individualismo e por outros obstáculos, necessitamos da luz interior e do ânimo do Espírito para encontrar a paz, o sentido da vida e o entusiasmo pela evangelização que pode renovar-nos, a nós e à humanidade. 

Coloquemos, pois, a nossa confiança na promessa do Espírito e invoquemo-lo todos os dias: “Vinde Espírito Santo, enchei os corações dos vossos fiéis e acendei neles o fogo do vosso amor” (oração litúrgica). Ele nos dará a paz, a alegria e outros dons sagrados.

«Vivemos na Igreja um momento privilegiado do Espírito» (EVANGELII NUNTIANDI, 76). Esta afirmação de São Paulo VI foi feita dez anos após o Concílio Vaticano II (1965) que provocou uma nova primavera na vida cristã. Vemos alguns sinais da renovação em curso, tais como: preocupação pela transparência do Evangelho; diálogo com o mundo e as religiões; sentido de Igreja no coração de muitos fiéis; florescimento de variados movimentos eclesiais que promovem uma vida cristã mais empenhada; prática da sinodalidade em crescimento; escuta da voz do Espírito nos sinais dos tempos e na Sagrada Escritura; aspiração a uma espiritualidade mais profunda e outros. 

Todavia, não chegou a todos este dinamismo. Mas renovou os que nele se integram e se tornam esperança de uma vida cristã mais sólida e de uma Igreja mais viva e missionária. Como proclama a sequência da missa de hoje, o “Santo Espírito é virtude na vida, amparo na morte e no céu alegria”.

D. Manuel Pelino, bispo-emérito de Santarém

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