O relato da Ascensão de Jesus no
Evangelho segundo Mateus (Mt 28, 16-20) testemunha uma única e mesma aparição do Ressuscitado
na Galileia, numa montanha, como última e definitiva saudação testamentária aos
discípulos. Mateus tinha aberto o seu Evangelho com as palavras «livro da génese
de Jesus Cristo... o Emanuel, o Deus-connosco” (Mt 1, 1.23), agora ele encerra-o
com uma alusão ao último versículo das Escrituras hebraicas que ele conhecia,
lá onde se lê: «O SENHOR, Deus do céu, deu-me todos os reinos da terra» (2.º Livro das Crónicas 36, 23). Agora, é o Ressuscitado,
aquele que é o Deus-connosco para sempre, que diz: «Todo o poder Me foi dado no
Céu e na terra. Ide e ensinai todas as nações, batizando-as em nome do Pai e do
Filho e do Espírito Santo, ensinando-as a cumprir tudo o que vos mandei. Eu
estou sempre convosco até ao fim dos tempos.»
Antes destes
factos, Mateus conta que, ao amanhecer do dia depois do sábado, Maria Madalena
e a outra Maria encontraram o túmulo vazio e escutaram de um mensageiro o
anúncio da ressurreição de Jesus. E, enquanto iam levar essa Boa Notícia aos
discípulos, encontraram o Ressuscitado, que lhes renovou o convite, a ser
dirigido aos próprios discípulos, de irem à Galileia, onde ele os precedia e
onde o veriam (cf. Mt 28,1-10).
E eis que os discípulos, onze e já não
doze, devido à traição de Judas, «partiram para a Galileia, em direção ao monte
que Jesus lhes tinha indicado» (Mateus 28, 16). Eles já não são chamados apóstolos,
isto é, enviados, mas sim discípulos, porque ainda devem ser iniciados pelo seu
mestre Jesus e estão novamente na Galileia, a terra em que foram chamados.
Para Mateus, a Galileia não é tanto
a terra da infância de Jesus, a partir da qual ele recebeu o apelido de
“galileu”, mas sim a terra desejada por Deus como lugar da evangelização, a
“Galileia dos gentios, dos pagãos” (cf. Mt 4, 12-16; Is 8, 23-9,1), terra
considerada impura, da qual “não podia sair nada de bom” (cf. Jo 1, 46), terra
de mistura de povos, longe do centro da fé e do culto, a cidade santa de
Jerusalém. A Galileia, portanto, como terra por excelência de evangelização e
de missão: aqui os discípulos são novamente chamados, quase para recomeçarem
aquele seguimento que se concluiu com o abandono de Jesus.
O lugar do encontro é a montanha,
local teológico para Mateus, lá onde Deus várias vezes se revelou e quis ser
encontrado, lá onde Jesus tinha proferido o longo discurso que continha também
as bem-aventuranças (cf. Mt 5, 1-7, 29), lá onde Pedro, Tiago e João tinham
completado a sua transfiguração (cf. Mt 17, 1-8).
Ao verem Jesus, os onze discípulos adoram-no,
sem dizer nada. Alguns deles chegam à fé na
ressurreição, mas outros ainda alimentam dúvidas, porque hesitam em
reconhecê-lo: a fé nunca é visão que dá certezas, mas é uma contínua vitória
sobre as dúvidas, vitória que só se obtém adorando e, acima de tudo, amando.
Nos Evangelhos, não há nenhum traço de exaltação irracional diante de Jesus
ressuscitado, mas há um fatigante reconhecimento que só se realiza em uma
relação amorosa, repleta de confiança e de abandono ao Senhor.
Jesus encontra-se com os onze. Não
os repreende pela fuga (cf. Mt 26, 56). Não os faz corar pela sua pouca fé (cf.
Mt 14, 31), mas revela-lhes – e a nós todos - onde buscar e encontrar o
Ressuscitado: em Deus, igual a Deus, «no seio do Pai», dirá o Evangelho de João
(Jo 1,18).
E como Deus revestiu Jesus de autoridade,
ele pode dizer: “Indo, fazei discípulos meus todos os povos». Sim, convém
aclarar que no Evangelho não está escrito “Ide”, como se fosse uma missão de ataque,
conquista, ocupação de terras e espaços. Diz «indo». O enfoque é a abertura a todos os
povos, a todas as culturas, a todos os homens e mulheres que fazem parte da
humanidade. O Evangelho deve chegar a todos os povos da terra,
oferecido como testemunho, e não
propagandeado em palavras,
proposto, e não imposto,
vivido.
E Jesus “despede-se” com uma nova
aliança: «Eu estou sempre convosco até ao fim dos tempos.» Essa é a última
palavra do Evangelho de Mateus, essa é a nossa fé: o Senhor Jesus Cristo está
connosco sempre.
Deus dissera a Moisés: «Eu estarei
contigo» (Êxodo 3, 12). Jesus Cristo diz isso a cada um de nós, batizados em
seu nome, cristãos que levam o seu nome e tentam viver e observar o seu
Evangelho.
Enzo Bianchi, monge italiano
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