Gostaria de partilhar este episódio gracioso que nos chega de uma paróquia com um pároco muito idoso

«Um domingo destes, durante a missa, o pároco consagrou o pão, depois parou... Vazio total! Imediatamente, sem qualquer concertação, toda a assembleia entoou em coro as palavras da consagração do vinho! O padre sorriu e a celebração retomou seu curso.»

Uma boa história, não é? A senhora que mo contou concluiu dizendo: «Porque devemos sempre lembrar que somos todos sacerdotes, profetas e reis.»

O que me comove nessa pequena história é o sorriso do idoso pároco. Ele poderia ter achado preocupante e humilhante aquela campainha de alarme do destino: uma frase que repete talvez há quarenta ou cinquenta anos, a frase que está no cerne do seu ministério de padre, e ele esquece-a!

Poderia rebelar-se, culpar Deus por privá-lo do coração de seu ministério, acreditar que Deus o está a perseguir, que ele é um Senhor cruel, como afirma o servo da parábola dos talentos que não fez o capital do seu mestre render frutos. Mas não, aquele homem não amaldiçoa a Deus, provavelmente nem pensa nisso. Pelo contrário, ele vê que Deus o leva a outro lugar. «Ah sim, a minha cabeça está a falhar!», parece dizer o nosso pároco.

Há momentos em que a evidência se impõe. E submeter-se a ela não é decair, mas unir-se ao Senhor onde Ele está: na aceitação da realidade, às vezes dura e exigente.

Os judeus da época de Jesus viram na afasia de Zacarias, no evangelho de Lucas (1, 5-80), o sinal de uma visão.

O que é que a nossa assembleia e o nosso pastor viram? O padre sorriu. Sim, aquele sorriso é realmente o que eu prefiro nesta pequena história. O pároco sorri às pessoas presentes que, ao depararem-se com um silêncio inesperado, rompem o silêncio para entoar as palavras da consagração do vinho.

Ele sorri porque Deus lhe deu paroquianos que podem fazer o trabalho em seu lugar. «Ainda bem, não sou indispensável, eles estão aqui!»

A Boa Nova está no sopro dos paroquianos que passa pelas gargantas e ousa dizer palavras. Pessoas corajosas... Em todo caso, diretas, simples, autónomas, conscientes do seu papel. Em suma, prontas, para ser profetas, sacerdotes e reis. Ah, se muito mais párocos e paroquianos se parecessem com eles, não seria mais evidente a “transição” da Igreja para o seu futuro?

Obrigado, senhor pároco; obrigado paroquianos que intervêm. Vocês nos recordam, muito simplesmente, o que é a esperança cristã: por um lado, entregar-se com confiança ao futuro, por outro, estar sempre "em trajes de serviço".

Essa história nos indica a nossa responsabilidade.

Anne Soupa, em Garringues et sentiers

Comentários

Enviar um comentário