«Insistir no amor incondicional de um Deus Amigo nunca deve significar fabricarmos um Deus ao serviço dos nossos fantasmas de prazer e bem-estar»

Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São Mateus
Disse Jesus aos seus apóstolos: «Quem ama o pai ou a mãe mais do que a Mim, não é digno de Mim; e quem ama o filho ou a filha mais do que a Mim, não é digno de Mim. Quem não toma a sua cruz para Me seguir, não é digno de Mim. Quem encontrar a sua vida há de perdê-la; e quem perder a sua vida por minha causa, há de encontrá-la. Quem vos recebe, a Mim recebe; e quem Me recebe, recebe Aquele que Me enviou. Quem recebe um profeta por ele ser profeta, receberá a recompensa de profeta; e quem recebe um justo por ele ser justo, receberá a recompensa de justo. E se alguém der de beber, nem que seja um copo de água fresca, a um destes pequeninos, por ele ser meu discípulo, em verdade vos digo: Não perderá a sua recompensa».

Um dos maiores riscos do cristianismo de hoje é passar pouco a pouco da «religião da cruz» para uma «religião do bem-estar».

Há alguns anos, tomei nota de umas palavras de Reinhold Niebuhr, que me fizeram pensar muito. Falava o teólogo americano do perigo de uma «religião sem ferrão» que acabaria por pregar «um Deus sem cólera, que conduz uns homens sem pecado a um reino sem julgamento por meio de um Cristo sem cruz». O perigo é real e devemos evitá-lo.

Insistir no amor incondicional de um Deus Amigo nunca deve significar fabricarmos um Deus à nossa conveniência, o Deus permissivo que legitime uma «religião burguesa» (Johann Baptist Metz).

Ser cristão não é procurar o Deus que me convém e diz «sim» a tudo, mas encontrar-me com o Deus que, precisamente por ser Amigo, desperta a minha responsabilidade e, por isso mesmo, mais do que uma vez me faz sofrer, gritar e calar.

Descobrir o evangelho como fonte de vida e estímulo de crescimento são não significa viver «imunizado» diante do sofrimento. O evangelho não é um tranquilizante para uma vida organizada ao serviço dos nossos fantasmas de prazer e bem-estar. Cristo faz-nos regozijar e faz-nos sofrer, consola e inquieta, apoia e contradiz. Só assim é caminho, verdade e vida.

Crer num Deus Salvador que, já a partir de agora e sem esperar pelo além, procura libertar-nos do que nos prejudica não deve levar-nos a entender a fé cristã como uma religião de uso privado ao serviço exclusivo dos nossos problemas e sofrimentos. O Deus de Jesus Cristo põe-nos sempre a olhar para o que sofre. O evangelho não centra a pessoa no seu próprio sofrimento, mas no dos outros. Só assim se vive a fé como experiência de salvação.

Na fé como no amor tudo tende a andar muito misturado: a entrega confiada e o desejo de posse, a generosidade e o egoísmo. É por isso que não devemos apagar do Evangelho aquelas palavras de Jesus que, por mais duras que pareçam, nos colocam diante da verdade da nossa fé: «O que não toma a sua cruz e me segue, não é digno de mim. O que encontra a sua vida perdê-la-á, e quem perder a sua vida por mim encontrá-la-á».

José Antonio Pagola, Grupos de Jesus

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