As parábolas do tesouro escondido, da pérola e da rede de pesca respondem à pergunta se vale a pena ser cristão

Quando a comunidade cristã começou a fazer a pergunta: «Vale a pena comprometer-se com o Evangelho?», lembrou-se das parábolas do tesouro e da pedra preciosa contadas por Jesus. E, para a pergunta «O que acontecerá àqueles que aceitam a mensagem, mas não estão à altura dos ideais do Reino?», surgiu-lhes como resposta a parábola da pesca. Parábolas registadas apenas por São Mateus (Mt 13, 44-52).

A pérola e o comerciante
Há uma diferença curiosa, mas não por acaso, entre a primeira e a segunda parábola. A primeira compara o Reino dos Céus a um tesouro, mas a segunda parábola compara-o, não à pérola preciosa, mas ao negociante que busca boas pérolas. Este pormenor oferece uma pista para a interpretação das duas parábolas.

Não esqueçamos que estas parábolas são dirigidas a uma comunidade que está a sofrer uma crise profunda e que se interroga se vale a pena ser cristão. Em termos modernos: venderam-me obrigações de alto risco e estamos a ponto de ganhar ou de perder tudo?

A resposta pretende reavivar a experiência dos primeiros tempos, quando toda a gente se decidia a seguir Jesus. Alguns entraram em contacto com a comunidade por mero acaso, e descobriram nela um tesouro pelo qual valia a pena abandonar tudo.

Outros descobriram a comunidade depois de anos de inquietação religiosa e de buscas intensas, como aconteceu a muitos pagãos em contacto anterior com o judaísmo; também eles tiveram de renunciar e vender para adquirir.

As parábolas, para além de incutirem esperança, incitam também a um exame de consciência: a minha fé em Jesus e na comunidade cristã continua a ser para mim um tesouro de grande valor, ou tornou-se um objeto inútil e poeirento que guardo apenas por rotina?

Ao mesmo tempo, ensinam-nos algo muito importante: é o cristão, pela sua atitude, que revela aos outros o valor supremo do Reino. Se não se encher de alegria ao descobri-lo, se não renunciar a tudo para o alcançar, não tornará percetível o seu valor. Estas parábolas parecem dizer: «Quando te perguntarem se vale a pena ser cristão, não faças um discurso, mas mostra com a tua atitude que vale a pena».

O que acontecerá àqueles que aceitam o reino, mas não vivem de acordo com os seus ideais? Esta última pergunta é respondida pela parábola da rede lançada ao mar.

O reino dos céus é também como a rede lançada ao mar e que apanha toda a espécie de peixes: quando está cheia, arrastam-na para a praia, sentam-se e juntam os bons em cestos e deitam fora os maus. A mesma coisa acontecerá no fim dos tempos: os anjos sairão, separarão os maus dos bons e lançá-los-ão no forno ardente. Haverá choro e ranger de dentes.

Há pessoas no seio da comunidade que não vivem de acordo com os valores evangélicos, que não fazem a experiência de ter descoberto um tesouro ou uma pérola. O que lhes acontecerá? A resposta é muito dura ("os maus serão lançados na fornalha ardente"), mas vale a pena completá-la com a última parábola do Evangelho de Mateus, a do Juízo Final (Mt 25,31-46), onde fica claro quais são os peixes bons e quais são os maus. Os peixes bons são aqueles que, quer saibam quer não, dão de comer a quem tem fome, dão de beber a quem tem sede, vestem os nus, abrigam os sem-abrigo... Aqueles que ajudam os necessitados, mesmo que nem sequer se apercebam de que o próprio Jesus está entre eles.

José Luís Sicre, em El Evangelio del Domingo

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