Carta para vós, presbíteros

Quem escreve esta carta é António Ribeiro, cristão católico, colaborador no Sete Margens – jornal digital de religiões, espiritualidades e culturas.
Imagem: Infância. Abusos. Série “Childhood Fracture” (V), de Allen Vandever.

1. Contexto
Não há volta a dar, é inevitável que se fale do assunto, porque ele foi trazido para a agenda mediática, pelas mais diversas razões, motivações e interesses.

Por estes tempos, foram já muitos e serão ainda bastantes, os que opinaram e opinarão acerca do Relatório da Comissão Independente sobre os abusos sexuais praticados no seio da Igreja Católica.

Resisti ao máximo pronunciar-me sobre tão delicado assunto. Hoje deixo cair essa reserva.

Como é evidente já fui interpelado por algumas pessoas acerca do assunto. Tenho a sensação de que para uns fui sério e honesto, para outros fui ingénuo e para uma parte, dos que me interpelaram, fui hipócrita. A todos deixei a consideração que entendessem por bem fazer e o juízo que lhes aprouvesse. Segui em frente com as minhas convicções, incómodos, reservas e estupefação.

2. Interpelação
Do mesmo modo que os tempos que nos precederam tiveram os seus desafios, o tempo que agora nos cabe viver tem os seus. Os reptos de hoje não são melhores nem piores que os anteriores, simplesmente são diferentes, com novas interpelações e possibilidades.

De modo algum nos podemos orgulhar das conclusões do referido relatório, antes pelo contrário, somos através dele feridos em profundidade nas entranhas da nossa vida. A nossa forma de viver o Evangelho foi adulterada por um punhado de pessoas que se identificam connosco e com os quais nós nos identificamos. Achemos simpático ou não, são dos nossos e fazem parte de nós. Também eles pegaram nos remos da barca e remaram connosco. O estranho foi o modo como remaram e para onde direcionaram a barca. O seu barquito de papel, revestido de leviandade, transportou consigo a animalidade primária, da qual nunca se libertaram ou não permitiram que fosse polida. Também destes é constituída a barca de Pedro. Os que conseguiram ultrapassar a bestialidade e se transformaram em humanos, não se vangloriem com as suas conquistas, antes agradeçam ter galgado de um estádio para outro.

Podemos ser tentados a pensar que neste momento a comunidade crente católica é uma barca esfrangalhada. Em meu entender não é. É uma barca dilacerada, triste e chagada. Pode estar fragmentada, mas não está moribunda, porque tem vitalidade, pujança e determinação para responder com compaixão e solicitude aos molestados e vilipendiados na sua dignidade, sem deixar de querer reabilitar e humanizar os prevaricadores que denegriram a barca.

Houve perversão e monstruosidade, gente que arrastou pessoas para a perturbação e indignação, porque esses prevaricadores deixaram-se mergulhar no lamaçal da imundície, sem ter respeito algum pela dignidade das vítimas, presas fáceis desses abutres sem escrúpulos.
E agora? Vamos ou não ser discípulos de Jesus? Vamos ou não procurar ser fieis ao Evangelho?

Até nos momentos de maior ira, de condenação e indignação de Jesus, nunca Ele pediu a cabeça de quem fosse. Irritado apelidou alguns de raça de víboras, fez um chicote, usando-o apenas para as bancas e nunca para as pessoas. A pessoa tem sempre um valor absoluto para Jesus. Até estes indignos do ministério presbiteral continuam a ser pessoas! Ter cuidado com eles não significa que não se cuide deles, antes pelo contrário, depois das vítimas são eles que necessitam também de ser cuidados. Têm de ser irrepreensivelmente admoestados, privados de algumas coisas, mas não têm de ser martirizados com o abandono e a rejeição. Creio que lhes basta a tortura da sua consciência (não tenho conhecimentos de psicologia para saber até que ponto estas pessoas são capazes de interiorizar a sua culpa e a sua capacidade para a assumir) e o peso que carregam consigo.

É sensato desbravar toda a floresta, porque uma árvore apodreceu? É legítimo extinguir uma família, porque no seu seio vive um pervertido? É justo condenar um grupo, porque entre eles encontra-se um corrupto?

Não me parece razoável extrapolar do individual para o universal. Não é de gente inteligente arrastar a responsabilidade pessoal para a imputação coletiva. Não é sério universalizar um comportamento particular, fazendo-o confundir com o grupo.

Como olhamos agora uns para os outros? E como olhamos para aqueles cristãos católicos que receberam pela imposição das mãos a missão de congregar todos os outros cristãos católicos e partilhar com eles o Pão da Ação de Graças?

Não é justo arrastar todos para o mesmo precipício, tal como é gritante misturar no mesmo alforje a fruta sã com a podre. Nestas circunstâncias é necessária lucidez e delicadeza, para que ao querer arrancar o joio não se arranque também o trigo. O Evangelho exige de nós compromisso, responsabilidade e também caridade. Não é evangélico pôr a cabeça de ninguém no cepo, mas é evangélico clamar por justiça e punir os prevaricadores.
        
3. O Modelo
O Senhor Jesus, de quem nós somos discípulos, foi severamente julgado e condenado, num processo revestido de iniquidade e interesses.

Como sabemos, o julgamento processou-se em dois campos que, aparentemente, podem ser considerados antagónicos: processo civil e processo religioso. Diante de um e de outro manteve, segundo nos é relatado, a mesma postura de verticalidade, apostado que estava em defender o bem supremo que é a Verdade. Num e noutro processo foi vilipendiado com vileza e sem escrúpulos. Abocanhado na sua dignidade, manteve-se firme no que acreditava e em Quem acreditava.

Os religiosos do seu tempo, no processo religioso, não queriam abrir mão dos direitos adquiridos nem da sua mundividência. Tudo era capítulo encerrado. Não havia espaço para a novidade nem para o diferente. A única opção era adaptar-se ao que estava prescrito, acolher isso e cingir-se às normativas impostas sem equacionar nada. Neste tipo de universo a verdade é estanque e a opinião é ferozmente rejeitada, cingindo-se a pessoa à inevitável sujeição do que é estabelecido por quem detém o poder. Quem pusesse em questão os seus princípios ou normas, passaria a ser um alvo a abater e anular, porque a verdade, segundo eles, é propriedade de uns poucos.

Quanto ao poder civil, cioso que é das suas regalias, não tem pejo em humilhar. Por isso mesmo, exerce o seu poder sem escrúpulos, sempre disposto a usar os outros como meio e fim para atingir os seus objetivos. É aqui que nasce a tirania e a gritante injustiça. Diante deste processo, Jesus mantém o silêncio.

4. Seguidores
Se somos discípulos, porque batizados, mergulhamos como Jesus no drama da iniquidade (embora alguns vezes sejamos nós os promotores dessa mesma iniquidade), vestindo, também nós, a roupagem da Cruz, que dilacera e esmaga. Nunca haverá manhã de Páscoa sem primeiro bebermos o fel amargo da Sexta-feira Santa! 

Na sua essência é isto o batismo, mergulhados e sepultados com Jesus na sua injusta e dramática paixão, ser pregados na iníqua cruz da rejeição, para que na esperança e na confiança possamos contemplar a aurora radiosa da vida na sua plenitude. É, sem dúvida, esta a mais bela consagração ao Senhor, o batismo. É ali que somos ungidos com o bom odor do óleo, que nos remete para a tríplice consagração de povo convocado e reunido pelo Senhor, que nos torna seus membros de corpo inteiro e participantes na realeza do serviço e da entrega, na profecia do anúncio jubiloso e da denúncia audaz e livre e no sacerdócio de intercessão, apresentação e louvor.

5. Testemunho
Um dia, como vós, atravessei a ponte para o outro lado. Aí estive e permaneci grande parte da minha vida. Fi-lo com a insegurança dos incrédulos, com as reticências dos que têm medo e com as dúvidas dos que procuram e se sentem inquietos.

Enquanto estive, procurei no meio das minhas debilidades e fraquezas, ser ouvinte presente na vida daqueles e daquelas com quem a partilhava. Percebi como isso era vital na vida das pessoas. Somos todos, sem exceção, necessitados de ouvidos que nos ouçam, lábios que nos falem, ombros que nos amparem e mãos que nos aconcheguem.

Quando a fé é vivida na heroicidade da fragilidade torna-se robusta, porque aí se mistura a humanidade débil com a transcendência impotente e silenciosa. Periclitante, atravessado pela escuridão da dúvida, tentava permanecer de pé, embora o cansaço e a fraqueza me tentassem subtrair dos meus intentos. Já sem animo nem determinação, assumi de vez o meu fracasso e indignidade. Voltei a pôr-me a caminho, desta vez em sentido oposto, atravessando novamente a ponte, para o regresso às origens. Foi necessária desconstrução, despojamento e verdade para conseguir iniciar esse caminho. Uma verdadeira, longa e penosa Sexta-feira Santa, que viria a transformar-se, com alguma tibieza, numa manhã pascal, onde a luz deslumbrante da aurora me foi devolvendo a esperança e revestindo de brilho as minhas entranhas.

6. Desafios
A vós que permaneceis desse lado da ponte, pedimo-vos encarecidamente, que permaneçais atentos aos homens e mulheres famintos de ouvidos que ouçam e não punam, mas que reabilitam e renovam a esperança.

Não vos aparteis dos que vivem deste lado da ponte, porque é aqui que está a vossa origem e todos vós partistes daqui, não para serdes senhores, mas para ser servidores do fracasso de Deus e do seu perturbante e incómodo silêncio.

Sede essas pessoas que se aproximam da cana fendida, precisada de amparo e cura ou da torcida que ainda fumega e necessita ser protegida, para que volte, com vigor, a iluminar caminhos e atalhos, lares e palácios, homens e mulheres. Sede presença discreta e sorridente, sem reivindicar nada mais que não seja afeto compreensivo.

Sede dóceis e amáveis, delicados e carinhosos, especialmente com os velhos e as crianças, os martirizados e rejeitados.

Sede homens livres, que não se vendem por um prato de lentilhas nem se deixam corromper pela vida fácil e acomodada.

Não tenhais medo das perseguições e das provocações, mas acima de tudo, não tenhais medo de assumir as vossas fragilidades, os vossos desencantos, as vossas lágrimas e os vossos insucessos.

Não tenhais medo de ser pessoas normais, que vivem com insegurança, mas confiantes; que vacilam, mas não deixam de procurar; que choram, mas são confortados.

Não tenhais medo de tremer diante do desvalido e do doente, mas mantende-vos hirtos diante dos arrogantes e soberbos.

Não tenhais medo da desconstrução nem de perder, de ser pó e soleira.

Que através de vós entrem os famintos e angustiados, os felizes e alegres, os remediados e os abastados, os tristes e os sós e que todos façam festa fraterna e jubilosa.

Não tenhais medo de conversar com todos. Conversai com os que convosco partilham os mesmos anseios, conversai com os que têm outras mundividências, conversai com os que observam a partir de outros ângulos, conversai com os foragidos das doutrinas, os apóstatas refratários, conversai com os desiludidos e os revoltados, com os indignados e os desgastados.

Ide até junto de todos e escutai as suas razões e motivações, sentai-vos olhando nos olhos os que se dispõem a conversar sem pré-conceitos nem rótulos.

Ide desarmados, sem certezas nem evidências, dispostos a procurar razões de esperança e motivações em conjunto.

Não leveis o alforje das ideias estereotipadas nem o cajado da segurança escondida nas evidências retóricas e desencarnadas.

Não leveis a bolsa da autorreferencialidade nem da presunção, levai sim as sandálias da humildade e do encontro e também a túnica do acolhimento e da escuta.

Vede bem e considerai ao que nos convida Jesus, olhemos para os lírios e contemplemos a beleza no seu esplendor que nasce do cuidado providencial de Deus.
    
7. Perigos
Recusai o estrelato e o vedetismo, rejeitai o protagonismo (a não ser o protagonismo do amor – aí rivalizai com todos) e afastai-vos das mordomias que embriagam.

Não deixeis que desvirtuem essa propriedade que é ser ancião, mesmo que sejais ainda e só uns miúdos inseguros, povoados pelas dúvidas e periclitantes na presidência.

Presidi à caridade e à comunhão, uni e congregai, estimulai e incentivai e não vos canseis das rotinas banais e insignificantes.

8. Convite
Escutai em primeiro o Mestre, depois perscrutai os caminhos que sois desafiados a trilhar, ouvi de seguida os que convosco partilham a vida e vos amparam. Não vos deixeis iludir pela tentação do poder nem vos deixeis arrebatar pela provocação de ter solução para tudo. Experimentai o encanto da pluralidade e deixai-vos tocar pela novidade dos que resistem ao espírito. Estai recetivos às diversas experiências de todos os buscadores de sentido. Não vos encerreis nas vossas certezas e nas vossas evidências. Mergulhai na amalgama de que o mundo é feito. Ponde as mãos na massa e fazei levedar a bondade e a justiça, não tenhais medo de calejar as vossas mãos na madeira do arado da fraternidade e da igualdade. Se as vossas mãos ganharem bolhas, alegrai-vos discretamente, com os vossos cansaços e rejubilai com os vossos afazeres. Certamente esse será o momento do júbilo gratificante da entrega, da negação de si e da opção pelo essencial.

9. Centrados
Escutemos todos a voz de Jesus que nos convida à confiança e ao regozijo, quando nos desafia a nós, pequenino rebanho, a não termos medo. Abandonemos as megalomanias e não tenhamos medo de ser quem somos, um pequeno rebanho, que deseja ser fermento da equidade e da misericórdia, que procura com humildade ser testemunha da  presença amorosa do Deus que quis experimentar a nossa débil e frágil condição.

10. Pedido
Precisamos de vós, caros presbíteros. Necessitamos que continueis a distribuir o Pão do Céu, como alimento que molda o nosso carácter e a nossa vontade.

Precisamos da Palavra partilhada e explicada.

Desejamos saber que Deus não se separou de nós e não nos entregou ao acaso das vicissitudes, antes pelo contrário, continua a caminhar lado a lado connosco, também através do vosso ministério e da vossa fragilidade. É através de vós que percebemos que o precioso tesouro, que é o Senhor Jesus, é transportado nesses frágeis vasos de barro. 

Agradecemos-Te, Senhor, a vida destes homens!

Comentários

  1. E um grande e honesto artigo; a nossa sociedade hoje deixa-se levar pelo mediatismo e pelo anticlericalismo; sejamos justos e peçamos ao Senhor por todos

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