Presbíteros para uma Igreja em saída

O livro Preti per una Chiesa in uscita: ripensare il ministero nel contesto attuale (Messaggero Padova, 2023), do presbítero Enrico Brancozzi, procura aprofundar a mudança de época, assinalada há alguns anos pelo Papa Francisco.
 
Enrico Brancozzi, reitor do seminário de Fermo (Itália), professor de Cristologia, Antropologia e Eclesiologia, autor do livro Rifare i preti (Re-formar os padres. Como repensar os seminário), por meio de uma análise crítica e ousada, busca estimular uma reflexão adequada sobre a revisão do ministério ordenado e o seu exercício, a partir das intuições apresentadas pelo Papa Francisco na exortação apostólica Evangelii Gaudium. Além disso, propõe um novo estilo e novas formas de missão para a Igreja atual.
 
A mudança de época que estamos a viver, lembra Enrico, «exige que a Igreja repense profundamente as suas práticas e estruturas. Até o ministério ordenado é chamado a redefinir-se de maneira descontínua em relação ao modelo tridentino secular, que traçou muitos e importantes caminhos de reforma no século xvi. O padre do século xxi enfrenta novos desafios: a necessidade de uma presença significativa num mundo predominantemente secularizado e indiferente, uma nova conceção da relação entre natureza e cultura, um novo senso de pertença à comunidade cristã baseado em relacionamentos e já não em critérios geográficos. Daqui surge o convite para adotar o paradigma missionário da Igreja em saída como referência para o nosso tempo».
 
Enrico Brancozzi soube oferecer pistas para reflexão, nas quais, com coragem, paciência e coração, proporcionou ideias instrutivas e esclarecedoras para uma nova conceção do presbítero nesta mudança de época.
 
Através da leitura deste texto, compreende-se como a Igreja hoje necessita de presbíteros adequados, dispostos a serem moldados pela Palavra de Deus, não paralisados pelo sagrado, mas impulsionados pela fé. Testemunhas de um amor que sempre inflama e transforma. Padres que não sejam guardiões de cinzas, mas de um fogo vivo que é a fé em Deus Pai, que deseja torná-los facilitadores de relacionamentos fraternos, capazes de gerar e não se entristecer com as expectativas terrenas. Capazes, enfim, de habitar este mundo, esta Igreja, e de serem «artesãos de comunidades missionárias, abertas, que... trilham os caminhos do nosso tempo» (cf. Papa Francisco, Discurso de 30-01-2021). Capazes de redescobrir os traços essenciais do nosso ser Igreja, daquela Igreja bela sonhada pelo Concílio, capaz de gerar discípulos-missionários e de ser sacramento de luz e esperança para o mundo. Uma Igreja que «habita na alegria, não esquece o amor que a criou e, superando a tentação do autorreferencialismo e da polarização, é apaixonada pelo seu Senhor e por todos os homens, amados por Ele; uma Igreja que é rica em Jesus e pobre em recursos; uma Igreja que é livre e libertadora» (cf. Papa Francisco, Homilia de 11-10-2022).
 
O livro é dividido em seis capítulos:
 
1. O ministério católico na longa tradição e nos desafios atuais
2. A sacramentalidade da Igreja como fundamento para recomeçar
3. Sinais de esperança para um novo começo
4. Novas figuras ministeriais seguindo o modelo da comunidade primitiva
5. Formação permanente dos padres, encorajar a vida comunitária, incentivar uma presença pastoral mais colegiada e compartilhada
6. Unidades pastorais - uma realidade em desenvolvimento.
 
A reflexão proposta é realmente estimulante e ajuda a compreender a mudança de época e a crise dos padres de maneira concreta, sugerindo concretude no estilo evangélico dentro de cada comunidade cristã, envolvendo novos ministérios. Nesse sentido, Enrico escreve: «A crise numérica dos padres não deve levar apenas a reduzir as presenças de forma racional, mas deve, em vez disso, incentivar a criatividade das pessoas, multiplicar os responsáveis, despertar um novo protagonismo dos leigos, especialmente das mulheres.»
 
Com este texto esclarecedor e valioso, o autor convida todos a envolverem-se na ação pastoral, assim como no novo contexto cultural em que, como crentes, somos chamados a anunciar o Evangelho, a adotar essa eficácia evangélica, sendo provocados pelas vivências das pessoas a ter a coragem de mudar o que foi considerado ultrapassado e, assim, dar vida a uma comunidade renovada pela alegria de anunciar um Evangelho que pode ser inovador, desde que abandonemos o cómodo critério pastoral do "sempre foi feito assim".
 
Tudo isso requer coragem real para ousar, para mudar a mentalidade pastoral e ministerial, a fim de conectar melhor o sacramento da ordem, especialmente o presbiterado, ao restante da comunidade. Assim como também recuperar a dimensão da fraternidade e do presbitério dentro da Igreja local numa dimensão missionária e corresponsável.
 
O texto conclui com o capítulo dedicado às unidades pastorais como uma tentativa de formar comunidades presbiterais capazes de cuidar de um território mais amplo e fazê-lo de uma maneira nova, seguindo um caminho adotado por muitas igrejas europeias, e ao mesmo tempo, iniciar um processo de revisão da Igreja em um sentido mais sinodal e ministerial. Como observa o presbítero Enrico: «A unidade pastoral, longe de ser uma fórmula mágica para resolver todos os problemas, requer antes de tudo uma mudança de mentalidade, um caminho comum de colaboração e corresponsabilidade, uma nova comunhão entre padres, diáconos, religiosos e leigos... um novo modo de tornar a comunidade cristã mais impactante e evangelizadora em seu contexto.»

Emanuele Tupputi,
presbítero da arquidiocese de Trani-Barletta-Bisceglie, em Settimana News

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