«Continuamos a pensar num deus que paga a cada um segundo as suas obras», mas «Deus dá a todos os seres o mesmo, porque Se dá a Si próprio»
Hoje em dia, todos trabalhamos para conseguir desigualdades,
para ter mais do que o outro, para estar acima do outro e, assim,
diferenciarmo-nos dele. Isto é verdade não só para cada indivíduo, mas também a
nível dos povos e das nações. Mesmo na esfera religiosa, foi-nos inculcado que
temos de ser melhores do que os outros para recebermos um prémio maior. Esta
tem sido a filosofia que tem impulsionado a espiritualidade cristã ao longo dos
tempos.
O Evangelho quebra os moldes da sociedade
A parábola de Jesus sobre o proprietário que contrata
trabalhadores para a sua vinha (Mateus 20, 1-16) procura quebrar os moldes em
que se baseia a sociedade, que é movida apenas pelo interesse próprio.
Dirigida à comunidade, a parábola visa relações humanas que
ultrapassam qualquer interesse egoísta individual ou de grupo. O livro dos Atos
dos Apóstolos dá-nos a pista, quando diz: «Ninguém considerava como seu o que
possuía, mas tinham tudo em comum» (At 4, 32).
Os da primeira hora queixam-se do tratamento dado aos da
última hora. Isso mostra a incapacidade de compreender a atitude do
proprietário. Não têm o direito de fazer exigências, mas ressentem-se do facto
de os últimos receberem o mesmo que eles. A parábola demonstra uma compreensão
muito profunda da psicologia humana. A inveja envenena as relações humanas a
tal ponto que, por vezes, prefiro prejudicar-me a mim próprio, desde que o
outro não seja beneficiado.
Uma forma completamente original de
compreender Deus
Este Deus de Jesus é tão desconcertante que, após vinte
séculos, ainda não o assimilámos. Continuamos a pensar num deus que paga a cada
um segundo as suas obras (o Deus do Antigo Testamento). Um dos obstáculos mais
fortes à nossa vida espiritual é a crença de que podemos merecer a salvação. O
dom total e gratuito de Deus é sempre o ponto de partida, não é algo a alcançar
pelos nossos próprios esforços. Deus dá-se sempre a todos.
Podemos mesmo ir para além da parábola. A retribuição não existe. Deus dá a todos os seres o mesmo, porque se dá a si próprio e não pode ser dividido. Deus paga-nos antes de
trabalharmos. É uma forma incorreta de dizer que Deus nos concede isto ou
aquilo. Deus está totalmente disponível para todos. O que cada um toma depende
apenas de si próprio. Se Deus pudesse dar-me mais e não me dar, não seria Deus.
A aceitação da salvação que Deus nos traz teria efeitos incríveis
A salvação que Jesus propõe não pretende mudar Deus, como se
estivéssemos previamente condenados por Deus e depois fôssemos salvos. A
salvação de Jesus consistiu em mostrar-nos o verdadeiro rosto de Deus e como
podemos responder ao seu dom total. Jesus veio para que nos transformássemos,
aceitando a sua salvação. Essa aceitação da sua salvação teria consequências
incríveis na nossa vida espiritual.
Com estas parábolas, o Evangelho procura desmontar a ideia
de um Deus que distribui os seus favores de acordo com o grau de fidelidade às
suas leis, ou pior, de acordo com os seus caprichos. Infelizmente, continuámos
a adorar esse deus interesseiro que nos interessava manter. Na realidade, não
temos nada a "esperar" de Deus; Ele já nos deu tudo desde o início.
Tentemos tomar consciência de que não há nada a esperar.
A mensagem da parábola é um evangelho, uma boa notícia: Deus
é o mesmo para todos: amor, dom infinito.
Nós, que nos consideramos bons, veremos nisso uma injustiça;
continuamos com a pretensão de aplicar a Deus a nossa maneira de fazer justiça.
Como aceitar que Deus ama os maus como nos ama a nós?
A nossa religiosidade,
que se baseia em sermos bons para que Deus nos recompense ou, pelo menos, não
nos castigue, tem de mudar.
O Evangelho propõe-nos como deve funcionar a comunidade (o
Reino). O que Jesus quer é que vivamos uma vida plenamente humana. Se essa
relação for procurada por imposição do poder, não terá qualquer valor
salvífico. Se todos os membros de uma comunidade, seja ela qual for, a
assumissem voluntariamente, seria de uma riqueza incrível, mesmo que não
partisse de um sentido de transcendência.
Frei Marcos, em Fé Adulta
Ainda bem que Deus não é como nós.
«Às vezes encerramo-nos nos nossos cálculos, sem permitir que Deus seja bom para todos.
Não toleramos a sua bondade infinita para com todos: há pessoas que não a merecem.
Parece-nos que Deus deveria dar a cada um o que merece, e só o que merece.
Ainda bem que Deus não é como nós.
Do seu coração de Pai, sabe dar o seu amor salvador a essas pessoas que nós não sabemos amar.»
José Antonio Pagola, em Grupos de Jesus

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