Contributo a entregar aos dois bispos portugueses que vão participar na Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade
Tal como prometido a 19 de julho, o grupo Cristãos a Caminho apresenta publicamente a proposta de contributo a entregar aos dois bispos portugueses que vão participar na Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos sobre a Sinodalidade: D. José Ornelas e D. Virgílio do Nascimento.
«Estamos abertos a receber contribuições, sugestões e críticas até dia 13 de setembro. Trataremos de elaborar uma versão definitiva até dia 19 de setembro. Enviaremos essa versão para que quem a quiser subscrever se manifeste», acrescenta Jorge Wemans, em nota enviada à Fraternitas.
Carta aberta aos delegados da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) à XVI Assembleia Geral Ordinária do Sínodo dos Bispos
D. José Ornelas, Bispo de Leiria-Fátima e Presidente da CEP, e D. Virgílio do Nascimento Antunes, Bispo de Coimbra e Vice-Presidente
da CEP.
Na expectativa da Assembleia Geral do
Sínodo sobre a sinodalidade
Alegria e Esperança
Alegria e Esperança
Guiados pelo Espírito ao longo destes quase dois anos de caminho,
cremos ter aprofundado o carácter sinodal das nossas comunidades. Esta é a
nossa alegria. Graças à exortação constante do Papa Francisco e aos vários
documentos que nos chegaram, reconhecemos, porém, quanto ainda nos falta
percorrer para vivermos uma sinodalidade plena, sobretudo ao nível das nossas
igrejas diocesanas. Aprendemos também que só vivendo a sinodalidade em
plenitude a nossa mãe Igreja poderá ser verdadeira serva dos nossos contemporâneos,
abrigo dos pobres e dos aflitos, sinal de acolhimento e esperança para todos e
verdadeiro sacramento da misericórdia de Deus anunciada por Jesus Cristo.
É com o entusiasmo transbordante suscitado pela alegria do serviço e da
comunhão vivida durante a Jornada Mundial da Juventude de Lisboa que desejamos
continuar a aprofundar a sinodalidade a que o Papa Francisco nos convida de
modo tão insistente. É nesse sentido que vos entregamos as nossas preocupações
e esperanças para que as possam ter presentes durante a Assembleia Geral do
Sínodo reunida em Roma durante o próximo mês de outubro, da qual esperamos
respostas e incentivos para o processo de conversão de toda a Igreja à reforma
que o Espírito dela espera nesta primeira metade do século XXI.
Ao longo destes dois anos, a oração em comum, a escuta dos irmãos e a
assistência do Espírito permitiram-nos reconhecer o clericalismo como a
cultura e a prática que mais nos impede de sermos uma igreja verdadeiramente
sinodal. Se não ultrapassarmos esta mentalidade não conseguiremos viver em
sinodalidade. Se não renovarmos o nosso olhar sobre os ministros ordenados, as
suas funções na comunidade e o serviço que a ela prestam, nada de realmente
novo acontecerá na vida da Igreja, no crescimento das comunidades e na face da
Igreja aos olhos dos nossos contemporâneos. Queremos, por isso, pedir-vos que
durante esta primeira Assembleia Geral do Sínodo sobre a sinodalidade:
1. Se recordem permanentemente
do grito daqueles nossos irmãos mais pobres, dos que vivem sujeitos à feroz
opressão da fome, da guerra, das migrações forçadas, e dos que sofrem outras inomináveis
violências; tenham sempre presente o grito angustiado do nosso sofrido planeta
que cada vez menos respeitamos como casa comum para todos; não se esqueçam
nunca do grito das vítimas dos abusos de todo o género perpetrados em ambientes
eclesiais por responsáveis católicos. Que esses clamores vos exijam a coragem
das decisões que o Espírito vos inspire e que de vós esperamos;
2. Sublinhem a necessidade de
rever o Código do Direito Canónico, retirando aos ministros ordenados todas as
funções que a eles se encontram reservadas, ou preferencialmente atribuídas, e
que hoje sabemos poderem ser desempenhadas por qualquer batizado. Desta forma
se fomentará a participação laical e, sobretudo, se libertarão os ministros
ordenados para as tarefas pastorais que especificamente lhes competem;
3. Incentivem a
reformulação da linguagem litúrgica, que
frequentemente se mostra incompreensível e distante da realidade de muitas
comunidades: porquê escudar-se numa regra única? Retomem a visão eclesiológica
e antropológica aberta pelo Vaticano II, da Igreja Povo de Deus peregrino,
celebrante e participativo, contrariando a versão clericalizada que prevalece em muitos meios e
retomando a afirmação do Concílio de que a
Eucaristia não
é, antes de mais, ação do sacerdote, mas ação de Cristo e da Igreja. Para tanto, é essencial promover uma formação litúrgica que vá para além
da catequese e que inclua a educação para a importância da estética, da criatividade e da espontaneidade
nos gestos, no canto, nas leituras, nas preces e na organização das
celebrações, dando-lhes um cunho realmente sugestivo do sentido que é o seu.
4. Inscrevam, do mesmo modo, a necessidade
da abertura, tão amplamente reclamada pelo Povo de Deus, à ordenação de
ministros casados. Redefinam os modelos de aceitação e preparação dos
candidatos à ordenação, privilegiando formações mais curtas e mais próximas das
famílias e das comunidades, pondo termo ao regime de exceção em vigor nos
seminários. Tal excecionalidade tem impedido os futuros ministros ordenados de
viverem imersos na vida quotidiana, partilhando as suas problemáticas e
virtualidades, vivendo as angústias e as esperanças do mundo de hoje (cf.
Vaticano II, a Igreja no Mundo Contemporâneo).
Aprovem indicações para a futura alteração do processo de escolha dos bispos,
incluindo a necessidade de maior auscultação das comunidades diocesanas,
contribuindo, assim, para uma maior consciencialização destas quanto às prioridades
pastorais exigidas pelo anúncio de Jesus Cristo ressuscitado na realidade
concreta em que vivem e perante as necessidades particulares da sua diocese;
5. Respondam ao pedido
insistente de tantas comunidades para que seja possível enriquecer a nossa vida
eclesial com o serviço ministerial praticado por mulheres. Elas que foram
escolhidas por Jesus como primeiras testemunhas da Sua ressurreição, mas cujo
contributo para a edificação da Igreja temos indevidamente limitado ao longo
dos séculos;
6. Reforcem, num novo Código do
Direito Canónico revisto, a importância dos diversos Conselhos Pastorais e de
outras instâncias de participação laical, conferindo em alguns temas carácter
vinculativo e não apenas consultivo às decisões neles tomadas;
7. Reconheçam a necessidade de
rever a cultura e a doutrina católica sobre a sexualidade, nomeadamente a
exposição que sobre a homossexualidade é feita no Catecismo da Igreja Católica
de modo que qualquer pessoa da comunidade LGBT se sinta aceite e querida nas
comunidades católicas. Incentivem de forma insistente a que nas mais diversas
comunidades os/as cristãos/ãs LGBT ganhem presença, visibilidade e
protagonismo, sendo esse sinal expressão de que a Igreja é de facto mãe de
todos, casa para todos. Também sentimos como a mesa da nossa sinodalidade tem
sido empobrecida pela ausência comungante daqueles irmãos e irmãs divorciados
recasados. Rogamos-vos, por isso, que aproveitem esta Assembleia Geral para pôr
termo a qualquer obstáculo a que estes irmãos possam participar plenamente de
toda a vida eclesial.
Esperamos que no feliz concerto de vozes que se hão de exprimir na
próxima Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos possam encontrar espaço e tempo
para fazerem ouvir estes nossos pedidos. Estamos convictos de que estes não são
reivindicações de grupos, ou cedências aos “modos e costumes” do tempo. Não.
Acreditamos, pelo contrário, que só através de tais reformas a Igreja possa ser
verdadeira comunidade de fé, sinal eficaz da misericórdia de Deus para os
nossos contemporâneos e para os seus filhos, fonte de paz, tenda alargada
inspirando o respeito pela criação, a amizade social e a fraternidade tão
necessárias à construção do reino de justiça, verdade e amor.
A reforma da Igreja não se centra nela própria, tem como centro Jesus
Cristo e realiza-se como resposta à sua missão: o anúncio de Jesus ressuscitado
e a construção do reino. Essa missão realiza-se hoje numa sociedade
profundamente desigual, em que muitos se sentem excluídos, descreem da
democracia e se afastam de qualquer participação a favor do bem comum, num
planeta em acelerada destruição e palco de inúmeros conflitos e guerras. Todos
estes dramas ganham significado ainda mais trágico num tempo de reconhecimento
da radical igualdade de todos os seres humanos.
As comunidades cristãs são assim, mais do que nunca, chamadas a serem
vida construída pela participação de todos, lugares de acolhimento universal
sem prévios requisitos, comunidade sinodal de iguais, espaços alimentado pelo
protagonismo dos que não têm voz nas nossas sociedades, casas de educação para
a defesa da nossa “casa comum”, participando ativamente na construção da paz e
na erradicação da fome e das desigualdades.
Não precisamos que a Assembleia do próximo mês de outubro provoque grandes manchetes nos media. Necessitamos, sim, que nela se escute o Espírito que renova a face da terra, inspira a voz do Povo de Deus e ilumina o caminho da Igreja. O mesmo Espírito que nos moveu a escrever-vos esta carta. Acreditamos que, pela Sua assistência, a Assembleia Sinodal dará frutos que nos ajudarão a percorrer novas etapas na construção de comunidades sinodais, ultrapassando não apenas os obstáculos que hoje nos bloqueiam, mas convocando-nos a viver relações comunitárias e fraternas por nós ainda não imaginadas. Pois tal é o desafio que sempre se coloca aos que – impuros, incapazes, pecadores e frágeis como nós – se aventuram a procurar ser discípulos de Jesus.
Cristãos a Caminho, setembro de 2023

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