Poder e corrupção – os bandidos sociais

Eric Hobsbawn (1917-2012), historiador marxista da Grã-Bretanha, tratou da questão da ética e do poder em “Social Bandits and Primitive Rebels”, onde analisou as formas arcaicas de protesto nos séculos XIX e XX. Em 1969, relançou a edição melhorada da obra sob o título “Bandits”.
 
Hobsbawn escreveu que os corruptos não são bandidos comuns, são "bandidos sociais". A diferença é que os bandidos comuns estão fora-da-lei e à margem da sociedade. Os segundos, apesar de agirem ao arrepio da lei, integram-se na sociedade.
 
Os bandidos sociais não correspondem à figura mítica de Robin Hood, que roubava dos ricos para dar aos pobres. Fazem o inverso. Através da corrupção, roubam dos pobres para dar aos ricos e poderosos, a fim de conquistar e manter o seu lugar nas esferas de poder. É tese de Anton Blok (Irlanda, 1935) sobre a máfia sicialiana, em “The Peasant and the Brigand: Social Banditry Reconsidered”, 1972, pagina 498: «Quanto mais bem sucedido é o bandido, maior a proteção que recebe.»
 
Na corrupção, quem está dentro-da-lei não se move de seu lugar social, mas sim de seu lugar ético. Ao aceitar propinas, vantagens e tráfico de influência, o dentro-da-lei rompe a legitimidade que instaura sua autoridade moral e, subjetivamente, cumplicia-se com o corrupto-corruptor, fechando os olhos à corrupção.
 
Muitos bandidos sociais habitam uma terra-de-ninguém, pois recusam-se a aceitar o modo de sobrevivência da sua classe de origem. E não chegam ao poder por mérito, mas por suborno, chantagem e compra de proteção, obtendo uma cumplicidade tácita mantida, sobretudo, através do silêncio.
 
Só uma pessoa e sociedade eticamente imune à corrupção é capaz de resgatar o tecido social corroído. Mas isso supõe uma virtude que, hoje, figura entre as que merecem o título de heroica: saber perder aparentes vantagens para ganhar substancial legitimidade. Pois quem quer fazer novos a sociedade e o ser humano sabe que pode perder tudo - a liberdade, as posses e até a vida - menos a moral.
 
Na doutrina social da Igreja, não há salvação para os corruptos fora das virtudes evangélicas anunciadas e praticadas por Jesus Cristo.

Frei Betto, dominicano, jornalista e escritor brasileiro, em UNISINOS

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