O masculino na sociedade
É claro que, se a nossa sociedade, apesar das conquistas
feministas e das legislações igualitárias (ou que pelo menos tentam sê-lo),
ainda vê as mulheres profundamente desfavorecidas em todos os âmbitos e em todo
aspeto social e cultural, uma razão deve certamente haver.
Talvez a questão seja que, enquanto as mulheres se
questionaram sobre o que significava ser mulher, acertaram as contas com os
estereótipos e os preconceitos e tentaram mudar algo para si, para suas filhas
e para todos (mesmo falhando e às vezes recaindo em prisões piores do que
aquelas das quais queriam sair, mas ainda assim colocando em jogo a si mesmas e
mudando as regras sociais), os homens não se questionaram sobre si mesmos e
essa falta de reflexão se costurou com as mudanças sociais ligadas à emancipação
das mulheres, traduzindo-se em ressentimento e violência, naquela que
normalmente é chamada de masculinidade tóxica.
Para dizer a verdade, deve-se admitir que muitos homens
começaram caminhos de renovação relacional com as suas parceiras e filhos, bem
como assumiram estilos de vida que não cedem a estereótipos e violências, mas
tudo isso ainda é embrionário e deixado à vontade dos indivíduos.
Os próprios homens que tentam não usar certas linguagens ou
não recair em certos estilos são marginalizados ou ridicularizados. Por outro
lado, as sociedades desenvolveram-se de modo androcêntrico e patriarcal por milénios,
então não poderíamos pensar que uma mudança decisiva como aquela do
reconhecimento da plena igualdade entre mulheres e homens, bem como do próprio
direito de acesso a bens e empenhos sociais, pudesse acontecer sem um
repensamento dos significados, das representações e das próprias relações
sociais.
Para avançar, porém, no caminho da justiça e da igualdade, já
não é suficiente falar da condição das mulheres, é preciso falar sobre o
masculino e quais modelos de masculinidade propomos nas linguagens, nos jogos,
nos filmes, na forma como educamos os nossos filhos.
O masculino na Igreja
Na Igreja, a situação que acabo de descrever é exasperada.
De facto, muitas vezes pensa-se que as mudanças nos papéis sociais, a
emancipação feminina ou o questionamento dos modelos estereotipados, seja algo mau.
Chega-se até a pensar que estava no plano de Deus que as
mulheres se dedicassem ao lar e aos filhos, bem como devotas e submissas a um
marido empenhado em outras frentes, e que seria vontade de Deus que os homens
tivessem a grande maioria das riquezas, das oportunidades de trabalho
remunerado, das responsabilidades sociais e eclesiais, até do tempo livre.
Então fica praticamente impossível perceber a natureza problemática dos modelos
masculinos que infelizmente estão subjacentes aos estereótipos tradicionais. A isso acrescenta-se o facto de ainda existir na Igreja uma
função – a do ministro ordenado – para a qual a masculinidade é um requisito
necessário e exclusivo.
Esse facto é ainda mais exasperado por uma conceção clerical
da própria Igreja, segundo a qual cada responsabilidade ou palavra pública –
apesar da tradição nos dar outros testemunhos e possibilidades – foi ligada ao
ministério ordenado. Para ser ministros ordenados, portanto – algo que na atual
estrutura eclesial é necessário para o acesso à palavra pública ou para
quaisquer responsabilidades eclesiais – é preciso ser homem.
Se há uma tentativa de sair do clericalismo – ou pelo menos
várias partes declaram a necessidade de superar tal estrutura em que toda
responsabilidade e palavra pública eclesial está nas mãos dos ministros
ordenados – a questão do acesso ao ministério ordenado para as mulheres, mesmo
apenas no grau do diaconato, é mais complicada. Não nos interessa aqui discutir
os motivos nem propor uma mudança na política eclesial nesse sentido, porém é
bom se perguntar – dado o contexto sobre a conceção de masculinidade acima
mencionado – que ideia de masculinidade possa internalizar um homem pensando
que, justamente por ser homem, pode ser conforme Cristo e torná-lo presente no
ministério ordenado, enquanto um ser humano mulher não pode.
Que ideia de masculinidade terá e consequentemente que ideia
de feminilidade? E, a partir disso, quais relações paritárias e recíprocas são
possíveis? A essas perguntas devem ser acrescentadas aquelas que dizem respeito
ao celibato, não tanto à sua sensatez, mas às teologias e às espiritualidades
que foram usadas para apoiá-lo e que pintaram o homem celibatário como
perfeito, superior, livre, capaz de ir além dos limites humanos e dos vínculos
afetivos comuns.
Tudo isso, antes considerado pacífico, tornou-se
problemático. Outros significados são necessários, outras leituras, outras
práticas. Por isso é bom começar a se perguntar se não seria a hora de repensar
algo, precisamente a partir da concretude das experiências masculinas, dos
corpos, dos sentimentos, da sexualidade masculina e dos condicionamentos
culturais que tentei mencionar acima. Talvez até a praga dos abusos, cuja causa
foi sabiamente foi procurada pelo Papa Francisco no clericalismo, poderia estar
ligada também a uma conceção de masculinidade que, na estrutura eclesial, está
cimentada com a condição de clérigo e com uma sua interpretação sagrada.
O que acontece se uma pessoa pensa que pode ultrapassar
todos os limites por ser uma pessoa sagrada? E se essa pessoa sagrada,
masculina, tiver introjetado um modelo de masculinidade tóxica, em que um homem
está sempre em posição de domínio sobre aqueles sujeitos que ele considera
feminizados, ou seja, passíveis de submissão justamente por não serem homens
(mulheres, crianças, homossexuais passivos, por exemplo)? Temos diante de nós,
portanto, uma tarefa importante e árdua, porque repensar as representações e os
papéis de género é complicado e abala os sistemas sociais até à raiz, mas se
quisermos uma Igreja que dê testemunho da possibilidade de relações mútuas e
vivificantes, é necessário fazer isso.
Não é nossa culpa se a história que nos precedeu nos
entregou o grave desequilíbrio do sexismo, mas é nossa responsabilidade
recorrer ao Evangelho para removê-lo e repensar a masculinidade é um dos passos
necessários nessa direção. Talvez justamente o estilo de Jesus, que não domina,
não age com poder, não viola ninguém, poderia ser o ponto de partida não só
para ser humanos, mas também propriamente para pensar em si mesmos como não
conformes a Cristo por ser homens, mas, finalmente, homens em conformidade com
o estilo de Jesus, masculinos e homens, segundo o seu coração.
Tendemos a subestimar a questão, muitas vezes por medo mais
que por um juízo ponderado, o Evangelho, porém, nos ensina a coragem de renegar
a nós mesmos (ou seja, o que de nós mesmos e de nosso viver nos impede o
seguimento) para caminhar na novidade do Evangelho. Por isso a Igreja é chamada
a seja mais corajosa que outros em questionar tudo o que não doa vida, para
trilhar novos caminhos nos quais todos e todas sejam nutridas.
Não há nada a perder, tudo a ganhar.
Simona Segoloni Ruta,
teóloga leiga italiana, casada e mãe
de quatro filhos.
É professora do Instituto Teológico de Assis,
vice-presidente
da Coordenação das Teólogas Italianas
membro do conselho diretivo da
Associação Teológica Italiana.
O artigo foi publicado por Mosaico di Pace,
outubro de 2023
Tradução: UNISINOS

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