«Certas pessoas contestam o Rosário, dizendo: é uma oração
infantil e supersticiosa, indigna de cristãos adultos.
Ou então: é uma oração que cai no automatismo, reduzindo-se
a uma repetição apressada, monótona e maçante de Ave-Marias.
Ou ainda: é uma coisa de outros tempos, dado que hoje há
práticas melhores: por exemplo, a leitura da Bíblia, que é muito melhor do que
a recitação do rosário!
Permiti-me enumerar, a este propósito, algumas impressões de
pastor de almas.
Primeira impressão. A crise do Rosário vem em segundo lugar.
Hoje existe sobretudo uma crise da oração em geral. As pessoas estão totalmente
tomadas pelos seus interesses materiais e pensam muito pouco na sua alma.
Depois, a confusão invadiu a nossa existência. Macbeth
(uma tragédia de William Shakespeare) poderia repetir: matei o sono, matei o
silêncio! Para a vida íntima e a “dulcis sermocinatio”, ou dócil colóquio com
Deus, é difícil encontrar um pouco de tempo. É um prejuízo.
Juan Donoso Cortés (filósofo, parlamentar, político e
diplomático espanhol) costumava dizer: “Hoje o mundo vai mal porque existem
mais batalhas do que orações”.
Desenvolvem-se as liturgias comunitárias, que sem dúvida são
um grande bem; contudo, elas não são suficientes: é necessário também o
colóquio pessoal com Deus.
O Rosário ajuda-nos a ser como crianças
Segunda impressão. Quando se fala de “cristãos adultos” na
oração, às vezes as pessoas exageram. Pessoalmente, quando falo a sós com Deus
e com Nossa Senhora, mais do que adulto, prefiro sentir-me como uma criança. A
mitra, o barrete e o anel desaparecem: mando o adulto e inclusive o bispo de
férias, com a devida dignidade, refletida e ponderada, abandonando-me então à
ternura espontânea que um filho tem diante do paizinho e da mãezinha.
Ser – pelo menos durante meia hora – diante de Deus aquilo
que na realidade sou, unicamente com a minha miséria e com o melhor de mim
mesmo: sentir brotar do fundo do meu ser a criança de outrora, que quer sorrir,
falar, amar o Senhor, e que às vezes sente a necessidade de chorar, para que
lhe seja concedida a misericórdia, tudo isto me ajuda a rezar.
O Rosário por sua vez, como oração simples e fácil, ajuda-me
a ser criança e disto não me envergonho de modo algum.
O rosário é uma oração repetitiva? O Padre de Foucauld
costumava dizer: «O amor exprime-se com poucas palavras, sempre as mesmas, que
se repetem sempre.»

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