«O Rosário ajuda-nos a ser como crianças» – homilia do beato Papa João Paulo I

Em outubro de 1973, por ocasião do IV centenário da festa do Rosário, o bispo Albino Luciani, então Patriarca de Veneza (Itália), e futuro Papa João Paulo I (em 1978), fez esta homilia:
 
«Certas pessoas contestam o Rosário, dizendo: é uma oração infantil e supersticiosa, indigna de cristãos adultos.
 
Ou então: é uma oração que cai no automatismo, reduzindo-se a uma repetição apressada, monótona e maçante de Ave-Marias.
 
Ou ainda: é uma coisa de outros tempos, dado que hoje há práticas melhores: por exemplo, a leitura da Bíblia, que é muito melhor do que a recitação do rosário!
 
Permiti-me enumerar, a este propósito, algumas impressões de pastor de almas.
 
Primeira impressão. A crise do Rosário vem em segundo lugar. Hoje existe sobretudo uma crise da oração em geral. As pessoas estão totalmente tomadas pelos seus interesses materiais e pensam muito pouco na sua alma.
 
Depois, a confusão invadiu a nossa existência. Macbeth (uma tragédia de William Shakespeare) poderia repetir: matei o sono, matei o silêncio! Para a vida íntima e a “dulcis sermocinatio”, ou dócil colóquio com Deus, é difícil encontrar um pouco de tempo. É um prejuízo.
 
Juan Donoso Cortés (filósofo, parlamentar, político e diplomático espanhol) costumava dizer: “Hoje o mundo vai mal porque existem mais batalhas do que orações”.
 
Desenvolvem-se as liturgias comunitárias, que sem dúvida são um grande bem; contudo, elas não são suficientes: é necessário também o colóquio pessoal com Deus.
 
O Rosário ajuda-nos a ser como crianças
Segunda impressão. Quando se fala de “cristãos adultos” na oração, às vezes as pessoas exageram. Pessoalmente, quando falo a sós com Deus e com Nossa Senhora, mais do que adulto, prefiro sentir-me como uma criança. A mitra, o barrete e o anel desaparecem: mando o adulto e inclusive o bispo de férias, com a devida dignidade, refletida e ponderada, abandonando-me então à ternura espontânea que um filho tem diante do paizinho e da mãezinha.
 
Ser – pelo menos durante meia hora – diante de Deus aquilo que na realidade sou, unicamente com a minha miséria e com o melhor de mim mesmo: sentir brotar do fundo do meu ser a criança de outrora, que quer sorrir, falar, amar o Senhor, e que às vezes sente a necessidade de chorar, para que lhe seja concedida a misericórdia, tudo isto me ajuda a rezar.
 
O Rosário por sua vez, como oração simples e fácil, ajuda-me a ser criança e disto não me envergonho de modo algum.
 
O rosário é uma oração repetitiva? O Padre de Foucauld costumava dizer: «O amor exprime-se com poucas palavras, sempre as mesmas, que se repetem sempre.»
 

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