Palavra de Deus é mais do que a Bíblia?

Por meio de sua Carta Apostólica, Motu Proprio “Aperuit illis” (em português aqui: «Abriu-lhes o entendimento»), publicada na Festa de São Jerónimo, a 30 de setembro de 2019, 
o Papa Francisco declarou o Terceiro Domingo do Tempo Comum como Domingo da Palavra de Deus. Este domingo será dedicado à celebração, estudo e divulgação da Palavra de Deus.

Domingo da Palavra de Deus é também Domingo da Bíblia, mas é mais do que isso. Qual é a diferença?

«Isto é o fundamental, o suficiente: o Domingo da Palavra de Deus, ao fim e ao cabo, é o dia que o Papa Francisco escolheu para a adoração do PALAVRA  - do, não da -, o Palavra que é pessoa divina, aquele que é o Filho, revelador (exegeta) do Pai», explica o padre Bonifácio Tchimboto nesta reflexão. Vejamos como ele chega a essa conclusão:

1. A palavra serve para passar informações, revelar sentimentos e exprimir desejos da parte de quem fala ou escreve, mas também para transferir conhecimentos, provocar sentimentos e suscitar reações no ouvinte ou leitor. 

Mas antes de ser expressa, a palavra foi pensada e sujeita a uma validação racional ou emocional.

Em suma, a Palavra pode ser pensada, dita ou escrita, mas o ser pensada está na origem das outras duas que dela são apenas expressão.

Considerando a Palavra de Deus, também Ele PENSOU a palavra antes de a comunicar ao povo, por via oral e pelo autor sagrado.

2. A Bíblia em grande parte dos textos revela e prolonga as suas origens orais. É por isso, por exemplo, que lemos não poucas vezes "escuta, Israel". Seria de esperar um «lê, Israel».

Não nos esqueçamos, por outro lado, que o povo era iletrado e, por isso, os textos chegavam até ele pelo ouvido.

Sabemos, agora, com a ajuda dos peritos em Sagrada Escritura, que a Palavra contida na Bíblia é a expressão de um credo que remonta a Abraão, o Pai na fé (que viveu entre os séculos XXI e XIX a. C.) e que só foi muito tarde com Moisés (século XIII a. C.) e sobretudo com os Reis (séculos X-VI a. C.) que muitas tradições orais foram postas por escrito... (tinham passado mais do que mil anos depois de Abraão!). Devemos, pois, concluir que a Palavra de Deus foi sendo comunicada às pessoas durante séculos sem escritos nenhuns. Por isso, dizer "Palavra de Deus" é dizer algo mais do que a Bíblia.

3. De igual modo, se considerarmos o anúncio da Palavra de Deus desde o nascimento da Igreja (do ano 33 para cá), veremos que a fé da Igreja primitiva não vem da Palavra escrita, mas da Palavra anunciada e proclamada (o Kerygma). Jesus enviou os seus discípulos a pregar, não a escrever. O escrever vai aparecer mais tarde, como complemento necessário à pregação. Na verdade, os primeiros escritos do Novo Testamento não apareceram antes dos anos 45. Quer dizer que a Igreja nasceu e viveu sem a "Bíblia cristã" durante bastantes anos. E se a sua pergunta é: «Não havia Evangelho?» Havia sim, mas na oralidade. 
 
4. A oralidade da Palavra de Deus é, para quem quer que se aplique a estes estudos, oque se chama Sagrada Tradição e, na História, esta precede no tempo a Sagrada Escritura.

Na Igreja histórica que temos até hoje, essa Tradição nunca morreu, não só por causa da Revelação positiva (escrita), mas por causa do sempre vivo Magistério (ensino) dos Apóstolos, que (graças à sucessão) nunca foi interrompido. E, como não há entendimento de texto sem contexto, a Bíblia só será interpretada com significado dentro da Tradição de fé que lhe deu nascimento.

5. E, para fechar a conversa, vejamos que o evangelista São João, no final do seu Evangelho, diz claramente que muitas coisas do/sobre o Mestre ficaram por escrever e, se fossem escritas, tais livros não caberiam no mundo (cf. Jo 20, 30-31; 21, 24-25). Ficamos, assim, com impressão de que há mais Bíblia fora do que dentro da Bíblia.

6. Para rematar tudo, o mais importante, que sintetiza tudo: o evangelista São João, no princípio do seu Evangelho, escreve que «no princípio era a Palavra, a Palavra estava com Deus, a Palavra era Deus» (Jo 1, 1).

Ou seja: antes do mundo criado, a Palavra já era. Ora, ao que São João chama Palavra não se pode dizer Escritura! São João diz que a Palavra de Deus é uma pessoa, é Jesus Cristo, é o próprio Deus. 

7. Portanto, e isto é o fundamental, o suficiente: o Domingo da Palavra de Deus, ao fim e ao cabo, é o dia que o Papa Francisco escolheu para a adoração do PALAVRA  - do, não da -, o Palavra que é pessoa divina, aquele que é o Filho, revelador (exegeta) do Pai.

Padre Bonifácio Tchimboto,
Director Nacional da Pastoral Bíblica
da Conferência Episcopal de Angola e São Tomé (CEAST)
na sua página de Facebook

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