Há uma figura muito importante no Evangelho que lemos hoje
em Marcos 1, 29-39. Trata-se da sogra de Simão. Não foi prestada atenção
suficiente a esta mulher nos estudos da interpretação bíblica, nem foram feitas
as habituais aplicações teológicas da sua figura, como deveria ser o caso de
uma personagem que está presente nos três evangelhos sinóticos.
Esta situação de abertura das casas aos novos convertidos
está muito presente nos relatos evangélicos e reflete a realidade das
comunidades nascentes, que se encontravam nas casas daqueles que tinham
começado a seguir Jesus. Assim, esta história conta bem a presença e a ação
diaconal desta mulher que se torna discípula e organizadora de comunidades e
certamente a apresenta como modelo para outros que querem seguir Jesus.
Poderíamos chegar ao ponto de supor que o espaço das casas, muitas vezes
governado por mulheres, parece ser o ponto de encontro mais comum das
comunidades nativas, como também descreve São Paulo nas suas cartas.
O texto prossegue indicando que Jesus diz a Simão e aos seus
companheiros: «Vamos a outros lugares, às povoações vizinhas, a fim de pregar
aí também, porque foi para isso que Eu vim.»
Ou seja, o texto mostra como, na Igreja nascente, havia grupos
de discípulos e missionários itinerantes e, ao mesmo tempo, espaços mais
estáveis que se encontram regularmente nas casas de família. É comum prestar
mais atenção ao movimento de Jesus como grupo itinerante, mas os relatos do Novo
Testamento também fazem referência a comunidades que se consolidam em torno de
espaços acolhedores e que dão uma certa estabilidade ao grupo missionário.
Recordar a sogra de Simão e a sua ação de diaconia,
apresenta-nos grupos e comunidades nascentes que são muito acolhedores e
capazes de gerar espaços de vida concretos para reunir as assembleias de
crentes.
Resulta, portanto, no mínimo surpreendente que a presença de
uma mulher que consolida uma organização religiosa incipiente – facto relatado
pelos três Evangelhos sinóticos – não seja relevante para a eclesiologia atual
e que as formas institucionais estejam unilateralmente centradas na figura de
Pedro.
Este relato, juntamente com muitos outros, aponta Pedro como
discípulo itinerante e a mulher como contraponto de modelo de discipulado cujas
funções são mais orgânicas e institucionais do que as do seu genro.
Será necessário continuar a aprofundar este texto, que pode
lançar muita luz sobre os desafios ministeriais que se colocam na vida eclesial
de hoje.
Paula Depalma, em Fé Adulta

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