«O Evangelho da Paixão convida-nos a perguntar-nos com quem nos identificamos, quando seguir Jesus se torna difícil»
De acordo com o relato do Evangelho de Marcos, Jesus entra
em Jerusalém entre aclamações e alegria daqueles que «estenderam os seus mantos
pelo caminho, outros espalharam ramos que haviam apanhado nos campos” e O
louvavam dizendo: “Hosana! Bendito o que vem em nome do Senhor!”
Jesus é assim apresentado como o Messias esperado, um rei
pobre e humilde já predito pelo profeta Zacarias (Zc 9, 9ss). Ele é recebido
por um grupo de pessoas simples que conhece/experimentou a sua proximidade com
os mais fracos e experimentou o seu amor, e agora O aguarda ansiosamente. Eles O
esperam, honram-No, recebem-No com alegria e fazem um manto com aquilo que
possuem: os seus mantos, os ramos ao redor deles e, fundamentalmente, a sua
alegria, o sentimento de serem honrados com a presença Dele.
Podemos pensar na alegria de Jesus nesse momento. Ele sente-Se
recebido e aceite por esse pequeno grupo, no qual se refletem os rostos de
tantas pessoas a quem Ele falou, curou, tocou as suas feridas, curou-as e
recebeu a sua mensagem de vida e profunda alegria. Pessoas necessitadas,
pobres, que não têm medo de serem rejeitadas porque talvez não tenham nada a
perder. Não fazem parte de nenhum espaço social ou religioso. São pessoas
simples e humildes que, a partir da sua pobreza, acolhem Jesus e reconhecem Nele
uma salvação que lhes devolve a identidade e a liberdade. Aproximam-se de Deus
que se tornou próximo delas, que entrou na sua casa, que comeu com elas. Jesus
é profeta, messias, o Filho de Deus que vibra com os sentimentos do seu povo.
Ele está no meio deles e com eles sente, sofre, chora, se alegra, come,
dialoga, ensina, compartilha a vida, é o rei dos que foram deslocados e
marginalizados pelos donos do poder social e religioso da época.
Essa receção terna e animada incentiva Jesus a entrar em
Jerusalém, apesar do futuro que o aguarda.
Talvez algumas daquelas pessoas acompanhem todo o processo
de condenação de Jesus a partir da sua condição de excluídos. Eles conhecem
esse caminho porque o experimentaram em primeira mão com amigos ou com aqueles
que foram condenados injustamente. Eles conhecem os truques e as alianças que o
poder político e religioso faz para manter cada um no seu lugar de
"privilégio". Não se trata de um grupo ingénuo nem de um grupo que se
vende a quem paga mais. São pessoas que conhecem a dor, o sofrimento e é por
isso que vêm para receber Jesus, que é o seu Rei e Messias. Eles assistirão com
dor à condenação de Jesus.
Em vários momentos dos capítulos 14 e 15 do Evangelho de
Marcos, Jesus é questionado sobre a sua identidade: o sumo sacerdote pergunta
se ele é o Messias; Pilatos: «Tu és o rei dos judeus?»; os sacerdotes e
escribas exigem que Ele prove que é o Messias e zombavam entre si.
Mas o oficial do exército que estava em frente de Jesus, ao ver
como Ele havia expirado, disse: «Na verdade, este homem era Filho de Deus!» É a
palavra final depois que Jesus morreu.
O texto continua dizendo que: “Aí estavam também algumas
mulheres, olhando de longe. Entre elas estavam Maria Madalena, Maria, mãe de
Tiago, o menor, e de Joset, e Salomé. Elas haviam acompanhado e servido a
Jesus, desde quando ele estava na Galileia. Muitas outras mulheres estavam aí,
pois tinham ido com Jesus a Jerusalém. (Mc 15, 40-41)
Essas mulheres fazem parte do grupo que acompanha Jesus na
sua entrada em Jerusalém e nelas estão representadas todas as pessoas pobres e
simples cujas palavras são silenciadas pelo sistema que oprime o povo, mas não
consegue silenciar o grito silencioso do seu testemunho e fidelidade. São eles
que acompanham Jesus no momento mais trágico, como fizeram durante toda a sua
vida. Eles souberam ver nele o Messias, o Deus presente no nosso meio, e são
"muitos" os que subiram com ele a Jerusalém. Eles não precisam de
perguntar sobre a identidade de Jesus, porque a sua vida já é uma resposta de
amor e fidelidade.
O Evangelho da Paixão convida-nos a perguntar-nos com quem
nos identificamos nos momentos de dificuldade, quando seguir Jesus e ser seus
discípulos se torna difícil.
Somos como as pessoas humildes que recebem o Messias e O
acompanham como as mulheres por todo o caminho? Ou somos como os fariseus e os
sumos sacerdotes que constantemente pediam sinais da presença de Deus para
acreditar nele? Talvez haja momentos na nossa vida em que fomos como o oficial
romano que soube reconhecer o Messias diante de um resultado doloroso, mas
depois apagamos essa chama da fé?
Peçamos às mulheres e aos homens que estiveram ao lado de
Jesus durante toda a sua vida que nos ensinem a ser discípulos e testemunhas de
Deus que ama a ponto de dar a vida por cada um de nós.
Como disse o padre Adroaldo Palaoro, jesuíta: «Têm a coragem
de permanecer ali, acolhendo o acontecimento em toda a sua crueldade e
profundidade; estão de pé, enquanto outros desistiram ou se afastaram
assustados. A partir deste momento, vão aprendendo a conviver com a morte, com
a Dele, com a sua e com a dos outros. Vão aprendendo, precisamente no meio da
morte, a “celebrar a vida”, mesmo intuindo que uma lança também as/os
atravessará. Ensinam-nos que “subir a Jerusalém” é assumir o conflito e a
rejeição por defender os pobres e pequenos; é encontrar a perseguição devido ao
compromisso em favor da vida; é saber que os grãos que caem em terra precisam
morrer para germinar e multiplicar a vida.»
Ana Maria Casarotti, missionária de Cristo Ressuscitado, UNISINOS
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