Páscoa, o mistério e o assombro

Na Eucaristia do dia de Páscoa, antes da proclamação do Evangelho, inclui-se a 
Sequência pascal, um belo poema litúrgico, com a estrutura de um canto popular. Data do século XII:
«À Vítima pascal ofereçam os cristãos sacrifícios de louvor.
O Cordeiro resgatou as ovelhas: Cristo, o Inocente, reconciliou com o Pai os pecadores.
A morte e a vida travaram um admirável combate: depois de morto,
vive e reina o Autor da vida.
Diz-nos, Maria: Que viste no caminho?
Vi o sepulcro de Cristo vivo e a glória do Ressuscitado. Vi as testemunhas dos Anjos, vi o sudário e a mortalha. Ressuscitou Cristo, minha esperança: precederá os seus discípulos na Galileia.
Sabemos e acreditamos: Cristo ressuscitou dos mortos; ó Rei vitorioso, tende piedade de nós.»

Nele se contém esta interpelação a Maria Madalena: «Diz-nos, Maria, que viste?» A sua resposta assume o que se refere noutro evangelho: «Vi a glória do ressuscitado… Cristo minha esperança precede-vos na Galileia». É um convite a pôr-nos a caminho para a nossa Galileia interior, onde Cristo ressuscitado também nos precede, para converter em terreno fecundo a aridez desértica do nosso quotidiano.
 
O verbo utilizado no texto grego para designar a ressurreição de Cristo também significa levantar-se. Tem todo o sentido essa associação, se tivermos em conta aquelas situações em que, depois de termos estado caídos, nos sentimos de novo erguidos. Cada grito ancestral de vida escondido na profundidade nua dos sonhos e no erotismo próprio do que é vivo é como a turgidez ereta de uma pulsão, que se levanta para reclamar o que em nós não é apodrecível. Germina, de facto, no mais fundo de nós um pressentimento de que somos muito mais do que a nossa poeira originária. Assim como o encontro de Maria Madalena com o ressuscitado apurou nela o dom de respirar a vida ascensional, também em nós, o mistério da ressurreição pode apurar a nossa sede de infinito e a nossa fome de eternidade.
 
A madrugada é ainda mais jubilosa quando se segue a uma noite escura. Foi no claro-escuro da madrugada, quando a luz do dia apenas se vislumbrava, que Maria Madalena se sentiu envolvida pela luminosa experiência da ressurreição. A vigília pascal é também celebrada na longa noite de uma progressão da escuridão para a luz, proporcionando-nos essa mesma respiração espiritual. Nessa vigília, como que acolhemos o convite, feito por S. Gregória Nazianzo, no longínquo século IV: «Como Maria, levanta-te cedo e procura ser o primeiro a ver a pedra removida».
 
O fulgor do lume novo da Páscoa pode dar uma renovada incandescência às zonas sombrias da nossa vida, converter em dança todos os nossos lutos e anunciar alvoradas às nossas noites. Celebrar a Páscoa é aprender a amanhecer.
 
Manuel António Ribeiro, sócio 42 da Fraternitas

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