
Evangelho segundo São João 10, 11-18: Disse Jesus: «Eu sou o
Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. O mercenário, como não é
pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e
foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário não se preocupa com
as ovelhas. Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas
conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a
vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e
preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só
Pastor. Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la.
Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de
a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai».
Jesus faz uma denúncia
Este texto enquadra-se num contexto mais amplo de
controvérsia entre Jesus e os fariseus, após a cura do cego de nascença. E
trata-se de uma denúncia: qualquer poder que não seja colocado a serviço dos
outros é contrário a Deus. «Quem não entra pela porta é ladrão e bandido.
Aquele que não é o dono das ovelhas, mas um contratado, não está disposto a dar
a vida por elas.»
Não foi Jesus quem disse, mas, sim, a comunidade cristã
Não é verossímil que Jesus se tenha declarado pastor de
alguém. O Evangelho de João foi escrito setenta anos após a morte de Jesus e transmite-nos,
não o que Ele disse, mas o que aqueles cristãos pensavam de Jesus. Eles sentiam-se
dirigidos por Jesus e tentavam seguir as Suas orientações.
No Antigo Testamento, o título «Bom Pastor» era aplicado a
Deus ou aos dirigentes. No tempo de Jesus, o pastor era quase sempre dono de um
pequeno número de ovelhas, que cuidava como se fossem membros da família,
inclusive abrigando-as sob o mesmo teto, chamando-as pelo nome próprio. O
sustento da família dependia delas.
O pastor modelo está em contraposição com o mercenário. O
pastor, dono das ovelhas, age por amor e não se importa de arriscar a própria
pessoa para defendê-las de qualquer perigo. O mercenário age por dinheiro, as
ovelhas não despertam o seu cuidado, como é dito no livro IV Esdras (que faz
parte da Bíblia Ortodoxa) 5, 18: «Não nos abandoneis como pastores ao seu
rebanho no poder de lobos nocivos.»
A figura do lobo está em paralelo com a do ladrão e bandido,
que arrebata e espalha. Precisamente o contrário do que Jesus faz, Ele reúne as
ovelhas dispersas (Jo 11, 52).
A imagem do pastor foi muito utilizada no Antigo Testamento.
Era aplicada aos dirigentes, muitas vezes para chamar a atenção para o facto de
que eles não estavam a cumprir o seu dever. Aplicou-se a Deus que, cansado dos
maus pastores, acabaria por apascentar Ele mesmo o seu rebanho. A ideia
original de João é a de dar a vida pelas ovelhas. Certamente é uma
interpretação da vida e morte de Jesus como serviço aos homens. Não se trata,
então, de um discurso de Jesus, mas de uma maneira de transmitir o que aqueles
cristãos pensavam sobre Ele.
Eu sou o “bom” pastor... «bom» em que sentido?
O Evangelho não pretende destacar o caráter da bondade ou da
gentileza. A tradução oficial desvaloriza o termo usado Kalos.
«Bom», em grego, seria agathos.
Kalos significa belo, ideal, excelente, único. Denota
soma de perfeição. Não se diz apenas das pessoas (é a característica do vinho
nas bodas de Caná - Jo 2, 10). «Bons pastores» podem ser muitos. Mas só pode
haver um pastor ideal. [Por
isso, tomar este trecho do Evangelho para falar de bispos e sacerdotes não faz
sentido. A tarefa dos líderes ristãos não tem nada a ver com o que o Evangelho nos
quer dizer.]
Dá a vida... O que entende o evangelista João por «Vida de Jesus»?
O Bom Pastor entrega-Se pelas ovelhas. A vida (no grego psukhên)
é identificada com a pessoa. Em grego há três palavras para vida: bios, zoê
e psukhê. E psukhên (usado por João) significa «pessoa», ou seja,
ser capaz de sentimentos e afetos.
Na mesma frase, tithesin não significa dar, mas
colocar, ou melhor, expor, ao risco. Como excelente pastor, Jesus coloca a sua
pessoa ao serviço dos outros ao longo da sua vida. Jesus vive e “dá-se
totalmente, consome-se” pelos outros.
Consumir-se, viver para os outros ao ponto de não viver para
si é demonstrar interesse incessante e vivo, solicitude ou amor por uma pessoa.
É exatamente isso que João quer dizer de Jesus. A entrega da vida física é a
manifestação extrema da sua entrega contínua ao longo da vida. Quem não ama a
ponto de dar a vida não é um verdadeiro pastor. O maior dom de si é a
comunicação plena de quem Ele é. A sua vida, posta ao serviço de todos, passa a
ser o “alimento” da vida dos outros.
Conhecer = Amar
«Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me,
do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a vida pelas
minhas ovelhas.»
Na Bíblia, conhecimento e amor andam sempre juntos. Não se
trata de conhecimento através dos sentidos ou da razão. Esse conhecimento mútuo
é uma relação íntima, através da participação do Espírito. Essa reciprocidade
nos afasta anos-luz da simples imagem de ovelhas e pastores. Este
conhecimento-amor mútuo é comparado ao que existe entre Jesus e o Pai. A
comunidade de Jesus não é uma filiação externa, mas uma experiência de viver o
amor.
Um pormenor que escapa às traduções
Tenho outras ovelhas que não são deste redil. João situa o seu
Evangelho no amplo contexto da criação. De isso deduz a visão universalista da
missão de Jesus. Os supostos privilégios do povo de Israel desaparecem. Já no
prólogo fala da "luz que ilumina todo homem". Não tem nada a ver com
acreditar que somos escolhidos ou pensar num Deus que é nossa propriedade
exclusiva. Todas as religiões caíram nessa armadilha; a nossa tem sido a mais
exagerada nessa pretensão de uma exclusividade de Deus.
No original grego, diz-se «Um rebanho, um pastor». A
ausência de conjunção "e" ou preposição "com" entre os dois
termos indica que a relação entre Jesus e o rebanho não é de justaposição ou
companheirismo. Jesus, como fonte da Vida, é a cola que constitui a comunidade
como tal. Não pode ficar trancado em nenhuma instituição. A sua base é a
natureza do homem acabada pelo Espírito que dá coesão interior. Jesus não criou
um curral para colocar suas ovelhas; todos as pessoas fazem parte do seu
rebanho.
A doação da Vida está ligada ao tempo pascal, porque a
experiência pascal é que Jesus comunica a Vida. Temos a possibilidade de fazer
dessa Vida a nossa. É a própria Vida de Deus. «Assim como o Pai que me enviou
vive e Eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim» (Jo 6,
57). Aquele que me come, significa aquele que me faz seu, aquele que se
identifica com o meu modo de ser, de pensar, de agir, de viver. Se Jesus é o
pão da vida, não é porque O comemos, mas porque nos deixamos comer como Ele.
Na medida em que cada um de nós tiver feito nossa essa Vida,
estaremos dispostos a deixar-nos consumir pelos outros. Sair de si mesmo e ir
para os outros, para melhorar as suas vidas, não depende das circunstâncias; é
um movimento que tem a sua origem na mesma Vida, que é Deus. O amor que Jesus
nos pediu está isento de qualquer aceção de pessoas. Não estamos acostumados a ter
esse pormenor em conta, e por isso acreditamos que é o amor o que não é mais do
que interesse recíproco ou simpatia visceral.
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