Eu sou o “bom” pastor... «bom» em que sentido? - Reflexão do frade dominicano Fray Marcos


Evangelho segundo São João 10, 11-18: Disse Jesus: «Eu sou o Bom Pastor. O bom pastor dá a vida pelas suas ovelhas. O mercenário, como não é pastor, nem são suas as ovelhas, logo que vê vir o lobo, deixa as ovelhas e foge, enquanto o lobo as arrebata e dispersa. O mercenário não se preocupa com as ovelhas. Eu sou o Bom Pastor: conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a vida pelas minhas ovelhas. Tenho ainda outras ovelhas que não são deste redil e preciso de as reunir; elas ouvirão a minha voz e haverá um só rebanho e um só Pastor. Por isso o Pai Me ama: porque dou a minha vida, para poder retomá-la. Ninguém Ma tira, sou Eu que a dou espontaneamente. Tenho o poder de a dar e de a retomar: foi este o mandamento que recebi de meu Pai».

Jesus faz uma denúncia 
Este texto enquadra-se num contexto mais amplo de controvérsia entre Jesus e os fariseus, após a cura do cego de nascença. E trata-se de uma denúncia: qualquer poder que não seja colocado a serviço dos outros é contrário a Deus. «Quem não entra pela porta é ladrão e bandido. Aquele que não é o dono das ovelhas, mas um contratado, não está disposto a dar a vida por elas.»

Não foi Jesus quem disse, mas, sim, a comunidade cristã
Não é verossímil que Jesus se tenha declarado pastor de alguém. O Evangelho de João foi escrito setenta anos após a morte de Jesus e transmite-nos, não o que Ele disse, mas o que aqueles cristãos pensavam de Jesus. Eles sentiam-se dirigidos por Jesus e tentavam seguir as Suas orientações.

No Antigo Testamento, o título «Bom Pastor» era aplicado a Deus ou aos dirigentes. No tempo de Jesus, o pastor era quase sempre dono de um pequeno número de ovelhas, que cuidava como se fossem membros da família, inclusive abrigando-as sob o mesmo teto, chamando-as pelo nome próprio. O sustento da família dependia delas.
 
O pastor modelo está em contraposição com o mercenário. O pastor, dono das ovelhas, age por amor e não se importa de arriscar a própria pessoa para defendê-las de qualquer perigo. O mercenário age por dinheiro, as ovelhas não despertam o seu cuidado, como é dito no livro IV Esdras (que faz parte da Bíblia Ortodoxa) 5, 18: «Não nos abandoneis como pastores ao seu rebanho no poder de lobos nocivos.»
A figura do lobo está em paralelo com a do ladrão e bandido, que arrebata e espalha. Precisamente o contrário do que Jesus faz, Ele reúne as ovelhas dispersas (Jo 11, 52).

A imagem do pastor foi muito utilizada no Antigo Testamento. Era aplicada aos dirigentes, muitas vezes para chamar a atenção para o facto de que eles não estavam a cumprir o seu dever. Aplicou-se a Deus que, cansado dos maus pastores, acabaria por apascentar Ele mesmo o seu rebanho. A ideia original de João é a de dar a vida pelas ovelhas. Certamente é uma interpretação da vida e morte de Jesus como serviço aos homens. Não se trata, então, de um discurso de Jesus, mas de uma maneira de transmitir o que aqueles cristãos pensavam sobre Ele.

Eu sou o “bom” pastor... «bom» em que sentido?
O Evangelho não pretende destacar o caráter da bondade ou da gentileza. A tradução oficial desvaloriza o termo usado Kalos.
«Bom», em grego, seria agathos.
Kalos significa belo, ideal, excelente, único. Denota soma de perfeição. Não se diz apenas das pessoas (é a característica do vinho nas bodas de Caná - Jo 2, 10). «Bons pastores» podem ser muitos. Mas só pode haver um pastor ideal. [Por isso, tomar este trecho do Evangelho para falar de bispos e sacerdotes não faz sentido. A tarefa dos líderes ristãos não tem nada a ver com o que o Evangelho nos quer dizer.]

Dá a vida... O que entende o evangelista João por «Vida de Jesus»?
O Bom Pastor entrega-Se pelas ovelhas. A vida (no grego psukhên) é identificada com a pessoa. Em grego há três palavras para vida: bios, zoê e psukhê. E psukhên (usado por João) significa «pessoa», ou seja, ser capaz de sentimentos e afetos.


Na mesma frase, tithesin não significa dar, mas colocar, ou melhor, expor, ao risco. Como excelente pastor, Jesus coloca a sua pessoa ao serviço dos outros ao longo da sua vida. Jesus vive e “dá-se totalmente, consome-se” pelos outros.

Consumir-se, viver para os outros ao ponto de não viver para si é demonstrar interesse incessante e vivo, solicitude ou amor por uma pessoa. É exatamente isso que João quer dizer de Jesus. A entrega da vida física é a manifestação extrema da sua entrega contínua ao longo da vida. Quem não ama a ponto de dar a vida não é um verdadeiro pastor. O maior dom de si é a comunicação plena de quem Ele é. A sua vida, posta ao serviço de todos, passa a ser o “alimento” da vida dos outros.

Conhecer = Amar 
«Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me, do mesmo modo que o Pai Me conhece e Eu conheço o Pai; Eu dou a vida pelas minhas ovelhas.»
Na Bíblia, conhecimento e amor andam sempre juntos. Não se trata de conhecimento através dos sentidos ou da razão. Esse conhecimento mútuo é uma relação íntima, através da participação do Espírito. Essa reciprocidade nos afasta anos-luz da simples imagem de ovelhas e pastores. Este conhecimento-amor mútuo é comparado ao que existe entre Jesus e o Pai. A comunidade de Jesus não é uma filiação externa, mas uma experiência de viver o amor.

Um pormenor que escapa às traduções
Tenho outras ovelhas que não são deste redil. João situa o seu Evangelho no amplo contexto da criação. De isso deduz a visão universalista da missão de Jesus. Os supostos privilégios do povo de Israel desaparecem. Já no prólogo fala da "luz que ilumina todo homem". Não tem nada a ver com acreditar que somos escolhidos ou pensar num Deus que é nossa propriedade exclusiva. Todas as religiões caíram nessa armadilha; a nossa tem sido a mais exagerada nessa pretensão de uma exclusividade de Deus.

No original grego, diz-se «Um rebanho, um pastor». A ausência de conjunção "e" ou preposição "com" entre os dois termos indica que a relação entre Jesus e o rebanho não é de justaposição ou companheirismo. Jesus, como fonte da Vida, é a cola que constitui a comunidade como tal. Não pode ficar trancado em nenhuma instituição. A sua base é a natureza do homem acabada pelo Espírito que dá coesão interior. Jesus não criou um curral para colocar suas ovelhas; todos as pessoas fazem parte do seu rebanho.

A doação da Vida está ligada ao tempo pascal, porque a experiência pascal é que Jesus comunica a Vida. Temos a possibilidade de fazer dessa Vida a nossa. É a própria Vida de Deus. «Assim como o Pai que me enviou vive e Eu vivo pelo Pai, também quem de verdade me come viverá por mim» (Jo 6, 57). Aquele que me come, significa aquele que me faz seu, aquele que se identifica com o meu modo de ser, de pensar, de agir, de viver. Se Jesus é o pão da vida, não é porque O comemos, mas porque nos deixamos comer como Ele.

Na medida em que cada um de nós tiver feito nossa essa Vida, estaremos dispostos a deixar-nos consumir pelos outros. Sair de si mesmo e ir para os outros, para melhorar as suas vidas, não depende das circunstâncias; é um movimento que tem a sua origem na mesma Vida, que é Deus. O amor que Jesus nos pediu está isento de qualquer aceção de pessoas. Não estamos acostumados a ter esse pormenor em conta, e por isso acreditamos que é o amor o que não é mais do que interesse recíproco ou simpatia visceral.
 
Fray Marcos, dominicano, em Fé Adulta

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