«É notável que o evangelista Lucas identifique Joana pelo
nome como testemunha da ressurreição. Como esquecemos isso? Ela voltou ao
túmulo ao amanhecer no primeiro dia da semana com as outras mulheres da
Galileia, levando as especiarias que haviam preparado», escreve o padre Robert Maloney, da Congregação da Missão (vincentinos), em artigo publicado
por America. Tradução: Unisinos
Eis o artigo.
Os anos recentes têm visto uma apreciação renovada nos
estudos teológicos e escriturísticos de Maria Madalena, que escritores cristãos
primitivos reconheceram como a "Apóstola dos Apóstolos" e a
"primeira testemunha da ressurreição". Estranhamente, ela caiu em
desgraça ao longo dos séculos, sendo retratada como prostituta.
Mas o que aconteceu com a sua amiga Joana? Quem fala sobre
ela? Quem sequer sabe algo sobre ela?
A História ignorou Joana, assim como a maioria das outras
mulheres que seguiram Jesus da Galileia a Jerusalém e o sustentaram a Ele e aos
Doze «com os seus bens» (Lucas 8, 2-3). Sabemos mais sobre Joana do que
sobre alguns dos apóstolos. No entanto, enquanto celebramos as festas destes todos
os anos, a ela negligenciamos completamente.
Joana (cujo nome significa "Deus tem sido
gracioso") era esposa de Cuza, o mordomo de Herodes Antipas. Este Herodes
era o tetrarca da Galileia (Lucas 3, 1) e filho de Herodes, o Grande, o déspota que
as narrativas da infância de Mateus descrevem a conspirar para matar o
menino Jesus. Quando Herodes, o Grande, morreu, os romanos dividiram o seu reino
entre os seus três filhos e sua irmã. Herodes Antipas ficou com a Galileia.
Como mordomo deste rei-marioneta vacilante, Cuza era um
influente mordomo-mor, algo como o chefe da Casa Civil, mas em menor escala. Herodes
provavelmente conhecia bem a esposa de Cuza, Joana. Isso levanta algumas
questões intrigantes, especialmente porque, no Evangelho de Lucas, Jesus chama
Herodes de "raposa" (Lucas 13, 32), comparando-o a um animal sorrateiro e
impuro. Como Herodes se tornou tão interessado em João Batista e Jesus? Joana e
Cuza estavam entusiasmados, falando sobre eles no palácio de Herodes? Herodes
estava interrogando-os sobre esses dois pregadores populares? Herodes tinha
outras fontes possíveis. Certamente tinha espiões.
Marcos indica que Herodes «temia João e, sabendo que era homem justo e santo, protegia-o; quando o ouvia, ficava muito perplexo, mas escutava-o com agrado» (Marcos 6, 20). No entanto, ele decapitou-o, porque
não queria decepcionar os seus convidados num banquete suntuoso. Este é um dos
poucos episódios do Novo Testamento que fontes históricas fora das
Escrituras testemunham. Josefo, nas suas «Antiguidades judaicas», menciona isso
explicitamente.
Lucas diz que Herodes ficou perplexo com Jesus. Ele «procurava vê-lo» (Lucas 9, 9). Um amigo de Herodes, Manaém, mais tarde tornou-se profeta e mestre na Igreja em Antioquia (Atos 13, 1); então, assim
como Joana, ele provavelmente foi um dos primeiros discípulos de Jesus. Manaém
e Herodes conversavam sobre Jesus?
Lucas descreve Joana como uma das mulheres «que haviam
sido curadas de espíritos malignos e enfermidades» (Lc 8, 2-3). Essas
mulheres seguiram Jesus na sua jornada final da Galileia a Jerusalém e estavam
presentes à distância durante a crucificação (Lc 23, 49). É fácil esquecer que
outros seguidores testemunharam a morte de Jesus além da sua mãe, de Maria
Madalena e de Maria de Cléofas, destacadas no Evangelho de João.
Essas mesmas mulheres da Galileia seguiram José de Arimateia
quando ele levou o corpo de Jesus. Quando encontraram o túmulo que José havia
preparado, voltaram para casa e prepararam especiarias e óleos perfumados para
dar a Jesus um sepultamento digno (Lc 23, 55-56).
É notável que Lucas identifique Joana pelo nome como
testemunha da ressurreição. Como esquecemos isso? Ela voltou ao túmulo ao
amanhecer no primeiro dia da semana com as outras mulheres da Galileia,
levando as especiarias que haviam preparado. Lucas dá-nos os seus nomes: «Eram elas Maria de Magdala, Joana e Maria, mãe de Tiago» (Lc 24, 10).
Elas encontraram o túmulo vazio. Dois homens em vestes
resplandecentes apareceram-lhes e disseram: «Porque buscais o Vivente entre os mortos? Não está aqui; ressuscitou! Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galileia, dizendo que o Filho do Homem havia de ser entregue às mãos dos pecadores, ser crucificado e ressuscitar ao terceiro dia» (Lc 24, 5-7). Lucas diz que estas mulheres e «também as outras mulheres que estavam com elas diziam isto aos Apóstolos» (Lc 24, 10).
Depois disso, Joana provavelmente estava entre as mulheres
que se dedicaram com um só coração à oração no cenáculo, junto com Maria, mãe
de Jesus, e seus irmãos (Atos 1, 14)? Ela também estava entre as 120 pessoas que
se reuniram e lançaram sortes para escolher o sucessor de Judas (Atos 1, 15)?
Ela foi uma dos que estavam todos reunidos no mesmo lugar «viram aparecer umas línguas, à maneira de fogo, que se iam dividindo, e poisou uma sobre cada um deles» e «todos ficaram cheios do Espírito Santo» (Atos
2, 3-4)? Muito provavelmente.
A tradição ortodoxa é mais gentil com Joana do que a
tradição romana. Ela é referida como Santa Joana, a Portadora de
Mirra", pois ela levou especiarias ao túmulo de Jesus na manhã da
ressurreição (Lucas 24, 1).
Embora frequentemente falemos dos testemunhos masculinos às
vezes relutantes da ressurreição, quem fala de Santa Joana e das suas companheiras
que seguiram Jesus da Galileia a Jerusalém? Como é que nós a esquecemos?
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