Nos salvaremos a partir do Princípio Esperança, nicho de todas as utopias. Artigo de Leonardo Boff

Onde vamos buscar energias para ainda crer e esperar?

Como foi dito com sabedoria: «Quando não há mais razão para crer, então começa a fé; quando não há mais razão para esperar, então começa a esperança.» Como disse com acerto o autor da epístola aos Hebreus (por volta dos anos 80): «A fé é o fundamento do que se espera e a convicção das realidades que não se veem» (11, 1). A fé vê o que não se vê com os simples olhos carnais. A fé vê, com os olhos do espírito que é o nosso profundo, a possibilidade de um mundo que ainda virá, mas que, seminalmente mas ainda invisível, está entre nós. Por isso a fé se abre à esperança, que é sempre ir além do que é dado e verificado. 

A fé e a esperança fundam o mundo das utopias que forcejam por se realizar historicamente.
Aqui vale o princípio esperança. O filósofo alemão Ernst Bloch cunhou a expressão princípio esperança. Ele representa um motor interior que está sempre a funcionar e a alimentar o imaginário e o inesgotável potencial da existência humana e da história. O Papa Francisco na Fratelli tutti afiança: «A esperança nos fala de uma realidade enraizada no profundo do ser humano, independentemente das circunstâncias concretas e dos condicionamentos históricos em que vive» (n. 55). Assumir este princípio esperança hoje, nesta nova fase da Terra, é extremamente urgente.

O princípio esperança é o nicho de todas as utopias. Ele permite continuamente projetar novas visões, novos caminhos ainda não trilhados e sonhos viáveis. O sentido da utopia é sempre nos fazer andar (Eduardo Galeano), sempre superar dificuldades e melhorar a realidade. Como humanos, somos seres utópicos. É o princípio esperança que nos poderá salvar e abrir uma direção nova para a Terra e seus filhos e filhas.

Qual a nossa utopia mínima, viável e necessária? Ela implica, antes de mais nada, a busca da humanização do ser humano. Ele se desumanizou pois se transformou no anjo exterminador da natureza. Só recuperará sua humanidade se começar a viver a partir daquilo que é de sua natureza: um ser de amorização, de cuidado, de comunhão, de cooperação, de compaixão, de ser ético e de ser espiritual que se responsabiliza por seus atos para que sejam benfazejos para o todos. Pelo fato de não ter criado espaço a esses valores e princípios, fomos empurrados na crise atual que pode nos conduzir ao abismo.

Essa utopia viável e necessária se concretiza sempre, caso tenhamos tempo, dentro das contradições, inevitáveis em todos os processos históricos. Mas ela significará um novo horizonte de esperança que alimentará a caminhada da humanidade na direção do futuro.

Desta ótica nasce uma nova ética. Por todos os lados surgem forças seminais que buscam e já ensaiam um novo padrão de comportamento humano e ecológico. Representará aquilo que Pierre Teilhard de Chardin desde seu exílio na China em 1933 chamava de noosfera. Seria aquela esfera na qual as mentes e os corações (noos em grego) entrariam numa nova sintonia fina, caracterizada pela amorização, pelo cuidado, pela mutualidade entre todos, pela espiritualização das intencionalidades coletivas. Dizia um aforisma antigo: «Quando não sabes para onde vais, regressa para saber de onde vens.» Temos de regressar à nossa própria natureza de onde viemos e que contém as indicações para onde: àqueles valores acima enunciados que poderão nos tirar desta dramática situação.

No meio de tanto abatimento e melancolia pela situação grave do mundo, nisso cremos e esperamos.

Leonardo Boff, no seu blogue pessoal 

Comentários