Uma análise acerca de como evoluiu ou se adulterou a ideia da vocação para o presbiterado

«A atual escassez de padres na Igreja Católica Ocidental tem múltiplas causas que não podem ser analisadas aqui por conta da sua complexidade. Podemos pelo menos identificar uma delas, que reside no abandono da teologia tradicional da vocação como chamamento de Deus, mediado pelo apelo da Igreja. Com efeito, a partir do primeiro terço do século XX, a vocação situa-se nas «sementes» semeadas por Deus na consciência pessoal do cristão. A partir daí, torna-se decisiva a convicção íntima de uma pessoa ser chamada por Deus. Pio XI exigirá dela uma verificação por intermédio de um juramento feito sobre os Santos Evagelhos. A linguagem atual traduz bem essa subjetivação.

Não dizemos nós que um jovem «tem vocação», que «se tornou sacerdote»? E o Código de Direito Canónico de 1983 não fala constantemente de candidatos à ordenação, conferindo-lhes até um quase direito de serem ordenados? 

Essa inovação inédita dá prioridade aos sujeitos e já não ao objeto do ministério; paralisa os bispos no seu dever de escolher pastores cuja necessidade é evidente. Quando já não houver mais candidatos, por falta da persuasão íntima que deles se exige, fecham-se os seminários maiores, como agora; e caminhamos para uma Igreja sem sacerdotes. Além disso, este sistema de candidatura obriga a dissuadir certos voluntários ao mesmo tempo que impede recorrer àqueles que, de acordo com o testemunho dos fiéis e membros do clero, possuam as necessárias aptidões espirituais e humanas.

A tradição não impõe uma tal perversão. Ao longo do primeiro milénio, e bem para lá dele, ninguém expressou o desejo de se tornar sacerdote. Todos os textos, inclusive as instruções papais, atestam o desejo das comunidades de obter um determinado cristão como seu pároco, desejo sempre respeitado, se necessário, pelo constrangimento, mesmo físico, exercido sobre o recém-ordenado." No nosso contexto tão diferente, não podemos recorrer a tais práticas, mas elas convidam-nos a encontrar um equilíbrio doutrinal mais sóbrio nesta área.

Poder-se-ia encontrar esse equilíbrio tomando como ponto de partida do processo que leva à ordenação, não a diligência de um cristão individual, mas o facto de a Igreja não poder prescindir de pastores. Em termos concretos, a Igreja local deveria começar por pensar no tipo de pastor de que necessita para o melhor serviço do Evangelho e da Igreja de Deus. Com base nisso, cabe-lhe a ela identificar pessoas que tenham as qualidades da vida cristã e as habilitações humanas necessárias para se tornarem pastores. E, por fim, cabe-lhe a ela chamá-los. De acordo com esta sequência, a Igreja local ganha por deixar de estar limitada pelo voluntarismo de alguns cristãos. Os futuros ordenados ganham também; demonstrando a sua liberdade, não se voluntariando no final de uma complexa introspeção, mas consentindo ao desafio de muitos outros cristãos que os conhecem e lhes asseguram o seu apoio.

A sequência descrita desta forma parecerá, evidentemente, utópica enquanto não for afinada em detalhes.»

Hervé Legrand, em Uma Igreja transformada pelo Povo, Paulinas

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