A falta de amor à vida - uma reflexão acerca do suicídio: «A principal causa de morte violenta no mundo» (OMS)

De acordo com os dados da Organização Mundial de Saúde (OMS), o suicídio é a principal causa de morte violenta no mundo: ver Relatórioda OMS sobre Suicídio (em espanhol). Cada ano, cerca de 703 000 pessoas suicidam-se e muitas mais tentam fazê-lo.

Mesmo assim, não há consenso sobre se se trata de um problema social ou se é também um problema de saúde mental, como afirma a OMS. Para além disso, muitos acidentes podem ser suicídios encobertos e o estigma associado ao suicídio leva os familiares a esconder a verdadeira causa de morte. O problema é que o suicídio permanece socialmente invisível. Não se fala dele, por isso "não existe".

As motivações são recorrentes: pôr fim a um sofrimento psicológico ou físico insuportável, sentir-se um fardo para os outros, considerar que a vida já não tem sentido… O isolamento, a solidão e a falta de razões para se levantar todos os dias, para abraçar e ser abraçado, explicam provavelmente este fenómeno. Sem esquecer as pessoas que estão ligadas socialmente, mas que se sentem mortalmente sós. E todo este colapso interior é geralmente vivido em segredo.

Em Portugal, cada ano, perto de mil pessoas suicidam-se. 
É a segunda maior causa de morte  entre os jovens dos 15 aos 34 anos.
Pevenção e apoio em Prevenir Suicídio

A aposta comum dos especialistas é dupla: primeiro, verbalizar, falar dos sentimentos como meio de libertação, e, depois, o apoio social.
Ao mesmo tempo, é preciso socializar esta realidade, resistindo a refugiar-se no silêncio informativo devido à vergonha ou à culpa perante o problema. Isto é importante: nem silêncio nem sensacionalismo.

Enquanto os suicídios não aparecerem nos meios de comunicação social e depois nas estatísticas, não será possível falar de um problema social abordado com a solidariedade necessária. O tabu e a vergonha, a insuficiência na informação e na abordagem multidisciplinar, para além da psiquiatria, impedem o progresso.

Alguns consideram que se trata de um ato de coragem, mas nenhum especialista entende que deva ser considerado como uma solução racional ou inteligente.

Considero interessante a reflexão do especialista C. A. Soper sobre os antecedentes desta decisão espinhosa, visualizando a morte como uma fuga: «Posso parar a dor se tirar a minha própria vida.» Mas só isso não explica, diz Soper, o facto de uma minoria tomar esta decisão. Há muito mais pessoas que sofrem a dor do desgosto, psíquica e/ou fisicamente, e não cometem suicídio. A explicação está nos nossos mecanismos psicológicos que funcionam como defesas contra a tentação de tirar a própria vida para acabar com uma dor insuportável e sem qualquer expetativa de a diminuir.

Se estes mecanismos de defesa da vida não existissem, a espécie humana ter-se-ia provavelmente extinguido. As pessoas com um enorme sofrimento (campos de extermínio, para dar um exemplo extremo) não quiseram suicidar-se. E ao revés, sofrimentos aparentemente menor acabam no suicídio de quem os sofre.

Muitas coisas se conjugam: dor crónica, intensa e emocional devido a fracassos ocasionais (económicos, ruturas familiares...), juntamente com problemas de amor-próprio e de personalidade. Sem uma válvula de escape, que muitos não têm, a ideação suicida é a consequência de se sentir preso entre sentimentos muito negativos. É por isso que o silêncio é o pior inimigo do suicida; é necessário falar sobre ele e torná-lo público, porque facilita a prevenção e o pedido de ajuda. Se conseguirmos popularizar a magnitude do problema, evitaremos muita dor que está a ser criada.
Há uma razão pela qual a solidariedade é um remédio para tudo o que é importante.

Não existe ainda uma visão social da solidariedade quando sentimos que o sofrimento está próximo. Mesmo assim, houve progressos porque, pelo menos, estamos conscientes de que a dor emocional afeta todo o tecido social; como é um problema global, tornou-se um incentivo para crescer em compreensão e solidariedade e para tomar melhores medidas preventivas e paliativas.

Há ainda um longo caminho a percorrer, porque é assustador abordar esta realidade tão dolorosa quanto silenciosa. Nesta época de verão, em que as férias estão nas manchetes, as fotografias ficam para as viagens e as imagens de praias sobrelotadas escondem aqueles que não conseguem mudar de ares ou desfrutar de um descanso. Algumas dessas pessoas sofrem de falta de amor à vida. Estejamos atentos, à escuta, com o sorriso do coração, se pudermos dar o nosso tempo. E, em todo o caso, rezemos para que sejam iluminados e tenham força para voltar a amar a vida. Afirmemos o nosso empenho interior para sermos uma centelha de vida para aqueles que têm menos luz.

Gabriel Maria Otalora, gabriel.otalora@outlook.com, em Eclesalia
Licenciado em Direito e pós-graduação em Antropologia Social.
Publicou sete livros e dá conferências sobre temas éticos e espirituais

Comentários