«Há uma modalidade de solidariedade e fraternidade humana típica do crente que está a enfraquecer: a oração de intercessão»

O trecho do Evangelho segundo São Marcos Mc 5, 21-24.35b-43 oferece-nos vários pontos de reflexão. Concentremo-nos num, na intercessão de Jairo a favor da vida da sua filha. Ele suplica a Jesus insistentemente: «A minha filhinha está a morrer: vem impor-lhe as mãos, para que seja salva e viva.»

Comove-nos a súplica deste pai, ajoelhado diante de Jesus. E o Senhor, partilhando a sua dor, “foi com ele”. 

A vida é-nos CONFIADA
Todos somos chamados a ser sensíveis à dor alheia, a ir ao encontro de quem sofre e a aliviar a sua pena, tanto quanto possível. A vida dos outros é-nos confiada. Há uma miríade de maneiras práticas de viver a “compaixão”, a solidariedade e a fraternidade humana. Graças a Deus, esta sensibilidade está a crescer, unindo crentes e não crentes.

Mas há uma modalidade de solidariedade e fraternidade humana típica do crente que está a enfraquecer: a oração de intercessão.

A secularização ajudou-nos a tomar consciência da autonomia do mundo e do dever intransferível de cuidar de toda a criação, através do exercício responsável da técnica e da ciência. Deus não é um “tapa-buracos”, como se costuma dizer. Sem dúvida, esta nova consciência e sensibilidade é uma graça porque purifica a fé, tornando-a mais genuína. Mas se é assim, para que “serve” a oração? É a pergunta de muitos e talvez também a nossa. Alguns teólogos chegam a afirmar que a única verdadeira oração é a de louvor ou, até mesmo, a simples atitude de abandono filial à “vontade” de Deus.

A oração de intercessão é uma modalidade privilegiada de ação da fé
Toda a tradição bíblica, a revelação de Deus na sua encarnação em Jesus de Nazaré, a tradição eclesial e litúrgica choca com esse reducionismo que arriscaria conceber a prática cristã como simples ação e, no limite, ativismo. 

A oração autêntica, que não é subterfúgio ou alienação, é uma modalidade privilegiada de ação da fé. Nós e o mundo precisamos de oração, seja ela de súplica, de intercessão, de ação de graças, de louvor ou de abandono. A oração é um “património mundial”, um depósito ao qual todos recorrem, crentes e não crentes, mesmo sem o sabermos, de uma forma que nos é misteriosa. A ação e a luta por uma sociedade mais justa e fraterna são eficazes porque são fecundadas pela graça. Deus confia-nos a vida e o cuidado dos irmãos. A oração de intercessão é um cuidar dos irmãos, é “carregar os pesos uns dos outros” (Ler Carta aos Gálatas 6, 2).

Padre Manuel João, missionário comboniano do Coração de Jesus, em 

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