O conceito de «Família» para Jesus Cristo nos Evangelhos

Lemos no Evangelho de Marcos 6, 1-6: «Naquele tempo, Jesus dirigiu-Se à sua terra e os discípulos acompanharam-n’O. Quando chegou o sábado, começou a ensinar na sinagoga. Os numerosos ouvintes estavam admirados e diziam: “De onde Lhe vem tudo isto? Que sabedoria é esta que Lhe foi dada e os prodigiosos milagres feitos por suas mãos? Não é Ele o carpinteiro, filho de Maria, e irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão? E não estão as suas irmãs aqui entre nós?” E ficavam perplexos a seu respeito. Jesus disse-lhes: “Um profeta só é desprezado na sua terra, entre os seus parentes e em sua casa.” E não podia ali fazer qualquer milagre; apenas curou alguns doentes, impondo-lhes as mãos. Estava admirado com a falta de fé daquela gente. E percorria as aldeias dos arredores, ensinando.»

Quem é «família» segundo Jesus? 
Jesus regressa à sua terra, com o grupo dos seus discípulos. Ele está a criar com eles e com outros marginalizados e excluídos pela sociedade, uma nova família, não fundada nos laços de sangue, mas na escuta comum da Palavra de Deus: «Aquele que fizer a vontade de Deus, esse é que é meu irmão, minha irmã e minha mãe» (Marcos 3, 35); uma família aberta a todas as pessoas, sem discriminação de raça ou cultura, que acolhe a Palavra para renascer para uma vida nova. A família que Jesus propõe não depende da geração biológica, de um direito que vem do nascimento. É uma família que se faz, caminhando com Jesus e encarnando a sua mensagem.
 
Jesus quer também oferecer este caminho às pessoas da sua cidade, pessoas que Ele conhece bem e que gostariam de se integrar nesta nova família. Não é uma coisa fácil, porque são os Guardiões da Lei, que se reúnem ao sábado na sinagoga.
 
De facto, Jesus tem de esperar até sábado para se encontrar com os seus compatriotas, que não saem ao seu encontro quando chega, e eles têm uma reação de forte rejeição em relação a Ele, o que O surpreende.
 
Os conterrâneos de Jesus percebem que Ele tem uma sabedoria extraordinária e que «se operam tão grandes milagres por suas mãos». Mas perguntam: «De onde é que isto lhe vem e que sabedoria é esta que lhe foi dada?» No fundo, no fundo, eles não podem aceitar que Jesus questione, com o seu ensinamento e as suas obras, o mundo de certezas que eles têm alicerçado numa organização familiar, social e religiosa bem definida. Eles são filhos de Abraão. São descendentes de patriarcas e profetas. Pertencer ao rio das gerações é fundamental, pois dos descendentes vem todo o património de promessas e bênçãos. O próprio Jesus teria de ser fiel à identidade da sua família, o que, por outro lado, não é nada de extraordinário: todos a conhecem. Eles conhecem a sua mãe, os seus parentes – pessoas muito simples do lugar. Eles são como todos os outros. Ele próprio não é mais do que o carpinteiro. Conhecem-no desde criança. Jesus teria de estar ancorado naquela família. Daí vêm todos os elementos para ser um homem digno e respeitado, um homem cumpridor da lei, um verdadeiro filho de Israel. Carpinteiro tem de continuar a ser. Não deve quebrar os esquemas familiares. Ele não pode ignorar a certeza que vem da fidelidade às tradições.
 
É por isso que os compatriotas de Jesus pensam que a sua proposta de constituir uma nova família fundada na Palavra de Deus não pode partir de Deus. A sua sabedoria e os seus milagres, que ninguém pode negar, devem ter outra origem: e atrevem-se a dizer que provêm, sem dúvida, do maligno, como os escribas tinham claramente explicado e habilmente propagado: ninguém pode falar de Deus sem ser na terceira pessoa, nem pode dirigir-se por tu aos espíritos; a primeira falta é blasfémia; a segunda demonstra familiaridade com o demónio. Ora Jesus dirigia-se a Deus por «tu», dizia que Ele era Deus, e ordenava diretamente aos espíritos a expulsão, tratando-os por tu. Por isso é que os judeus diziam: «É pelo chefe dos demónios que expulsa os demónios» (Marcos 3, 22).
 
As palavras de Jesus exprimem a sua infinita tristeza: «Um profeta só é desprezado no seu povo, na sua família e na sua casa.» Por outras palavras, o Evangelho de João recorda a mesma resistência dos compatriotas de Jesus: «Ele veio aos seus, e os seus não o acolheram.» É a resistência que os Evangelhos enfatizam, não só para recordar o passado, mas para alertar a comunidade de discípulos de que é sempre possível ter a mesma atitude, rejeitando os aspetos mais adequados, novos e originais do plano de Jesus.
 
«Não pôde ali fazer milagre» é o desamparo e o espanto de Jesus perante a «falta de fé». Sem fé não há milagres. Não são os milagres que produzem fé, é o contrário!
 
Bernardino Zanella, em Eclesalia

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