«Uma pessoa, um animal, uma planta, um ecossistema que corre risco de vida é o problema da sociedade, em geral, e de cada pessoa em particular»

Partilhar a comida com os outros sempre foi considerado um gesto humano muito significativo, expressando fraternidade, amizade, generosidade e sensibilidade diante da situação de fome do próximo. Dar de comer a quem tem fome é um dos gestos mais belos de humanidade. E seria desumano não se importar com a fome do irmão, ainda que seja um desconhecido, um que não pensa como nós ou alguém que não simpatiza conosco. A partilha do alimento abre os corações, aproxima as pessoas e cria comunhão.

Para os cristãos, a partilha do alimento com quem tem fome é parte da bondade aprendida de Jesus, que, numa atitude de amor à multidão faminta, fez o milagre da partilha do pão e do peixe (cf. Mateus 14, 16-21). Jesus também mostrou o outro lado: o que aconteceu com o banqueteador, que não se compadeceu do pobre Lázaro e se negou a partilhar a comida com ele (cf. Lucas 16, 20-31). E preveniu a todos nós o que pode acontecer quando recusamos saciar a fome de quem não tem alimento: “Tive fome, e não me destes de comer… Agora, ide para longe de mim, malditos, para o fogo eterno preparado para o diabo e seus anjos. Pois tive fome, e não me destes de comer…”. E o supremo Juiz dirá o motivo de tão grave sentença: “O que não fizestes a um desses pequeninos, foi a mim que não fizestes” (cf. Mateus 25, 41-46).

Mesmo antes de Jesus Cristo, o povo de Deus já conhecia essa recomendação: “Se o teu inimigo tiver fome, dá-lhe de comer; se tiver sede, dá-lhe de beber” (Provérbios 25, 21). O profeta Isaías usa palavras duras contra o governante da época, que não se importava com a fome do povo: “Pois o insensato só fala tolices e seu coração trama a maldade, dizendo disparates contra o Senhor. Ele deixa o faminto sem comer e o sedento sem beber” (Isaías 32, 6). A recomendação para dar de comer a quem tem fome faz parte de todas as religiões e culturas humanizadas, que tenham superado a “lei da selva”, da prepotência e insensibilidade do mais forte sobre o mais fraco.

Para nós, cristãos, partilhar o alimento com quem tem fome é uma decorrência necessária da nossa fé em Deus e do primeiro mandamento da Lei de Deus. Quem reconhece a Deus e o adora “em espírito e verdade”, também reconhece o próximo como um irmão. Amor a Deus e amor ao próximo vão sempre juntos e não se pode separar esses dois amores: “Se alguém tem bens neste mundo e vê o seu irmão em necessidade, mas diante dele fecha o coração, como pode o amor de Deus permanecer nele?” (1.ª Carta de João 3,17). São João denuncia a falsidade de um pretenso amor a Deus, sem amor ao próximo: “Se alguém disser, ‘amo a Deus’, mas odeia seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê. Quem ama a Deus, ame também o seu irmão” (1.ª Carta de João 4, 20-21).

A situação da multidão de famintos em todo o mundo, das extensas periferias, onde vivem milhões de pessoas em condições extremas de sobrevivências, dos numerosos sem-abrigo deve preocupar a todos. Não é aceitável que a sociedade em geral, as cidades, vilas e aldeias, em particular, as faílias e as pessoas, em concreto, não encontrem uma solução humana, justa e digna para esse problema gritante. Uma pessoa, um animal, uma planta, um ecossistema que corre risco de vida é o problema da sociedade, em geral, e de cada pessoa em particular.

Cardeal Odilo Pedro Scherer, arcebispo de São Paulo, e Fernando Félix, jornalista

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