Voltando aos textos fundadores, esse livro é uma lufada de
ar fresco! Se o clericalismo é um mal para a Igreja, qual a melhor maneira de
combatê-lo do que com as armas do Evangelho? O teólogo da Diocese de Poitiers propõe-se
fazê-lo, num livro simples e profundo.
A linguagem dos Evangelhos e das cartas de Paulo é a
linguagem da fraternidade. “A ninguém na terra chameis vosso pai" (Mt 23, 9),
porque o próprio Jesus rejeitava o título de "rabino" e o poder
farisaico que poderia vir com ele. As palavras de Paulo, nas suas treze
epístolas, confirmam essa relação horizontal entre irmãos.
Os Doze são apóstolos, é claro, mas os apóstolos são muito
mais do que doze! Essa confusão "favorece uma forma de clericalização dos
ministros ordenados... considerados sucessores dos Doze". Jesus faz
distinção entre os Doze, os apóstolos e os discípulos (Mc 3, 13-19).
Atendo-se ao texto grego, o autor rastreia palavras que
refletem os costumes ou as ideologias dos tradutores. Assim, Febe (Rm 16,7),
presidente e ministra (diakonos) da Igreja de Cencreia, foi muitas vezes
reduzida a tesoureira e protetora! Além disso, ao afirmar que "não há
macho e fêmea" (Gl 3, 28), Paulo inscreve "esses dois polos da
humanidade" na única filiação de Cristo, sem qualquer competição ou
superioridade. Todo apóstolo, mesmo o maior, deve se fazer pequeno (Lc 9, 48) e
se desprender das preocupações por si mesmo.
O autor escreve um capítulo muito bonito sobre o que Jesus
diz sobre si mesmo: é o pastor, depois a porta. As ovelhas são de facto de
Jesus; elas só são confiadas ao pastor! O papel de pastor certamente pode ser
transmitido na Igreja, pois foi confiado a Pedro. Mas somente Jesus é a porta.
E o pastor será o primeiro a passar pela porta. O pastor também pode servir de
modelo para o padre, nunca para um papel de autoridade, mas para um empenho de
serviço em uma forte relação com cada uma das ovelhas.
Para concluir, o autor fala de sinodalidade: identifica os
traços que constituirão uma Igreja de aspeto evangélico. Isso começa com uma
dinâmica de conversão de cima para baixo. Se o movimento de reforma for
implementado em todos os níveis, "os males do clericalismo" serão
superados.
Um bom exemplo de sinodalidade é a Assembleia convocada em
Jerusalém (Atos 15). Cada um apresentava seu ponto de vista em uma atmosfera
que se mantinha cordial. A solução final é elaborada de forma colegiada e é
objeto de uma declaração clara e precisa, mas que não cristaliza nem encerra. A
unidade resultará do amor e da misericórdia dos membros e também de sua
capacidade de julgamento e inteligência. "Não", conclui o teólogo,
"o clericalismo não terá a última palavra. A Igreja é de natureza
diferente. As Escrituras atestam isso em todas as páginas".
Monique Hébrard, jornalista e escritora francesa,
junho de 2023
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