Uma ordem de viúvas e virgens na Igreja Primitiva

Quando estudamos sobre as viúvas na Igreja é frequente que tenhamos uma ideia preconcebida de que estas eram mulheres necessitadas de apoio económico e-social. Isto é uma herança do pensamento judaico sobre as viúvas no Antigo Israel, pois o Antigo Testamento, em especial o livro do Deuteronómio, por diversas vezes enfatiza os direitos das viúvas perante o povo de Deus (Deuteronómio 10, 18; 24, 17; 27, 19). O cuidado para com as viúvas é apresentado no Antigo Testamento como uma ordenança divina (Salmo 82.3) sendo que o próprio Deus se coloca como o maior protetor das viúvas (Salmo 68, 5; Êxodo 22, 22-23). Mas nas parábolas de Jesus registadas pelo evangelista Lucas já começamos a perceber uma diferença no olhar do Mestre sobre as viúvas. A parábola do juiz iníquo (Lucas 18, 1-8) não se detém sobre a situação económica da viúva, mas sim sobre a sua persistência em solicitar que o juiz julgasse a sua causa. Da mesma forma, na oferta da viúva pobre (Lucas 21.2-3) não é sua pobreza que é destacada, mas o valor de sua atitude de confiança e gratidão.
 
O domínio romano sobre a Judeia trouxe muitas mudanças sociais devido à sua legislação. A mulher conquistou mais liberdades sociais e económicas. A lei romana permitia que uma mulher viúva administrasse seus bens sem a forçar a contrair um novo casamento. O próprio apóstolo Paulo também enfatizava que as viúvas poderiam permanecer sem um novo casamento, se assim desejassem, o que ele até estimulava (1 Coríntios 7, 8, 39-40). As viúvas cristãs que possuíam bens próprios aplicavam-no no sustento de missionários e na prática da caridade. Dorcas ou Tabita (Atos 9, 36-41) era uma destas viúvas. Logo nos seus primórdios, a Igreja começou a organizar grupos formais de viúvas como parte de seus ministérios: a ordem das viúvas. É conhecida também a história de Grapte, que no século II dirigia a comunidade de viúvas que se dedicava ao cuidado para com órfãos em Roma. O seu trabalho social impediu que muitos órfãos morressem de forne ou fossem destinados à prostituição.
 
Muitas outras mulheres citadas no Novo Testamento como sustentadoras e colaboradoras do ministério do apóstolo Paulo, sem que os nomes dos seus maridos as acompanhassem, como Cloé, Trifena, Trifosa, Sínique, Evódia e Febe, podem também ter sido parte da ordem das viúvas. Sabemos pelos escritos dos Pais da Igreja que a ordem das viúvas abrigava não só viúvas, mas também mulheres solteiras ou virgens. Inácio de Antioquia (c.30-98) na sua Carta à Igreja de Esmirha (13.1), refere-se às "virgens que são chamadas de viúvas". E Tertuliano (160-240) reclamou de uma virgem de 19 anos admitida na ordem das viúvas que não usava o véu, o que ele considerava necessário como símbolo de submissão ao bispo (Sobre o Véu das Virgens 9.4).
 
As mulheres pertencentes à ordem das viúvas dedicavam-se ao ensino, à oração, às obras de caridade, visitação de doentes e ainda colaboravam suprindo a necessidade dos apóstolos e missionários constituindo, segundo alguns, a contraparte feminina do presbiterado masculino. Pode-se dizer também que a ordem das viúvas foi a primeira ordem celibatária na Igreja. Os textos eclesiásticos dos dois primeiros séculos relatam que estas mulheres exerciam funções sacramentais e litúrgicas, participando ativamente na celebração da santa ceia/comunhão.
 
Com o advento da rejudaização iniciada no final do século I, estas mulheres, antes vistas como cooperadoras, passaram a ser consideradas uma ameaça à autoridade masculina na Igreja. É assim que podemos compreenderas instruções nas Cartas Pastorais, escritas provavelmente no início do segundo século, que eontradizem as instruções de Paulo na Primeira Carta aos Coríntios. A Primeira Carta de Timóteo (5, 9-14) recomenda que as viúvas jovens se casem e restringe a participação na ordem das viúvas apenas às mulheres acima dos 60 anos que tivessem sido casadas (excluindo as viúvas jovens e as solteiras). Também diminuta atuação das viúvas, impedindo-as de ensinar de casa em casa, restringindo-as à própria casa, onde deveriam dedicasse à oração. É neste contexto também que podemos entender a referência feita por Policarpo de Esmirna (69-155) na sua Carta aos Filipenses (9, 3) em que diz serem as viúvas o "altar de Deus" devido ao seu ministério de intercessão. Os Reconhecimentos e Homilias Clementinas (século III) relatam que o apóstolo Pedro, ao se preparar para deixar Trípoli, teria nomeado presbíteros e diáconos e organizado uma ordem das viúvas.
 
O documento da igreja, Didascálià Apostolorum (Ensino dos Apóstolos), escrito no século III modificou a idade das participantes na Ordem das Viúvas passando o limite para acima dos 50 anos e ressaltou não ser mais permitido a inclusão de jovens. O documento também revela que as viúvas eram consultadas sobre assuntos teológicos, que ensinavam de casa em casa, realizavam visitas, oravam, abençoavam pela imposição de mãos e realizavam batismos. A partir de então foi-lhes recomendado restringir-se à oração em suas próprias casas. A autonomia social e financeira das mulheres pertencentes à Ordem da Viúvas passou a ser vista como uma ameaça à autoridade do Bispo a quem são instadas no Didáscália a obedecer. Aos poucos, as viúvas vão sendo silenciadas, proibidas de pregar e de falar aos outros membros da comunidade cristã, e sendo confinadas às suas casas no ministério da oração. Apesar disto, o Didascália ainda as mantém entre a liderança eclesial, pois segundo o texto, «nem o bispo, nem o presbítero, nem o diácono, nem a viúva deveriam proferir uma maldição», porque as viúvas «foram designadas para abençoar».
 
No século IV, o documento Estatuto dos Apóstolos relata que as viúvas ainda atuavam, além da oração, no atendimento às mulheres doentes, servindo-lhes a comunhão (Santa Ceia). O documento estipula que as viúvas não seriam mais ordenadas por imposição de mãos, sendo apenas nomeadas com a justificativa de que não mais participariam ativamente da liturgia do culto público. Apesar disto, podemos perceber que a Igreja não atendeu completamente este documento, pois no Testamento de Nosso Senhor, documento do século V, encontramos uma oração de ordenação das viúvas e instruções sobre suas atividades junto ao altar na celebração da comunhão (Santa Ceia), além de serem estas designadas para ensinar novos convertidos, exortar os rebeldes e visitar enfermas, a quem podiam dar a comunhão e ainda atuar na oração. O processo de seleção e a ordenação das viúvas neste documento são paralelos aos dos diáconos, bispos e presbíteros. O documento ainda aplica o título de “presbíteras” a essas mulheres, referindo-se a elas seis vezes como «as viúvas que sentam na frente», enfatizando a sua posição de liderança junto da congregação. Isto mostra que durante a celebração da comunhão as viúvas permaneciam junto ao altar, perto dos bispos, presbíteros e diáconos, tendo equidade de valores.
 
A partir do terceiro século, com o crescimento do episcopado de Roma, Alexandria e Antioquia, o monopólio da Palavra foi-se concentrando cada vez mais nos Bispos e Presbíteros, homens, e as viúvas foram sendo paulatinamente subordinadas a esta liderança masculina, passando a exercer funções próximas às das diaconisas (serviços litúrgicos menores, batismo de mulheres, levar a comunhão aos doentes e realizar visitas pastorais). Do século IV em diante, com o sistema hierárquico do episcopado plenamente desenvolvido após a união da Igreja com o Estado Romano, a ordenação das viúvas declinou na Igreja Ocidental, mas permaneceu ativa na Igreja Oriental por vários séculos subsequentes. À medida que a Igreja se foi hierarquizando, a ordem das viúvas foi desaparecendo enquanto o papel das diaconisas, algumas das quais também viúvas, se foi solidificando em funções específicas junto das mulheres cristãs. Aos poucos, as diaconisas também foram substituídas pelas virgens consagradas (atuais freiras). As viúvas que já não participavam de uma ordem específica, mas queriam dedicar-se ao serviço divino, eram direcionadas para a vida ascética entrando para os mosteiros.
 
Recentemente, em 1997, a ordem das viúvas foi reinstituída na Igreja Católica Romana pelo Papa João Paulo II com a exortação apostólica Vita Consecrata: «Hoje voltou a ser praticada também a consagração tanto das viúvas, conhecida desde os tempos apostólicos (cfr.1 Tm 5,5.9-10; 1 Cor 7,8), como dos viúvos. Estas pessoas, mediante o voto de castidade perpétua como sinal do Reino de Deus, consagram a sua condição para se dedicarem à oração ç ao serviço da Igreja.»
 
Hoje, existem já várias ordens de viúvas em diversas dioceses pelo mundo. A principal missão de uma viúva consagrada é a oração, mas também pode atuar visitando doentes, no ministério da consolação visitando outras viúvas e atuando junto das comunidades carentes. A restauração da ordem das viúvas no catolicismo representou uma possibilidade em aberto para que mulheres venham a dar sentido à sua vida mesmo após a dolorosa perda de um esposo, dedicando-se ao serviço de Deus e da comunidade.
 
Lidice Mayer Ribeiro, 
Doutora em Antropologia,
Docente na Universidade Lusófona de Humanidade e Tecnologias,
em jornal Raio de Luz (de Sesimbra)
Outros textos no seu blogue (https://www.lidicemeyer.pro/blog)

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