Texto de Frederico Lourenço a propósito da sua tradução da Bíblia: Actos dos Apóstolos, Epístolas e Apocalipse
A re-edição no Brasil há poucas semanas do Volume 2 da minha tradução da Bíblia tem-me levado a pensar na figura extraordinária que domina os textos incluídos nesse tomo: São Paulo. Paulo é senhor de um estilo grego único, expressivo – eu diria mesmo arrebatador. Podemos lê-lo sem concordar com uma única palavra que ele escreveu, mas temos de reconhecer que a escrita em si é supremamente convincente.
Além de o volume agora re-editado incluir todas as epístolas atribuídas a Paulo, contém igualmente aquele texto fascinante de que Paulo é o herói: Actos dos Apóstolos.
Isto mergulha-nos num problema já célebre: a discrepância entre aquilo que é dito sobre Paulo nos Actos dos Apóstolos e aquilo que Paulo diz sobre si próprio nas suas cartas autênticas.
Para o autor de Actos, Paulo é uma figura heróica: autor de curas milagrosas (16:16-18), de espantosos exorcismos (19:11-12) e dono de poderes que lhe permitem falar ininterruptamente uma noite inteira ou até ressuscitar um morto (20:7-12). Estes dons extraordinários nunca são referidos (decerto por modéstia) nos textos assinados pelo próprio Paulo.
Além destas informações sobre Paulo, estamos também dependentes do livro de Actos para outras que não encontramos nos textos de Paulo. Assim, é somente o livro de Actos a dizer-nos que Paulo era cidadão romano (22:22-29) e que era natural da cidade de Tarso (22:3); só o livro de Actos nos diz que ele se chamou Saulo antes de passar a ser conhecido como Paulo; só o livro de Actos nos diz que ele estudou em Jerusalém com Gamaliel (22:3) e que tinha a profissão de «skēnopoiós» («fazedor de tendas», 18:3); só o livro de Actos nos fala da famosa Estrada de Damasco.
Outra questão curiosa que se nos depara quando fazemos a leitura comparativa do livro de Actos e das cartas de Paulo é que o autor dos Actos dos Apóstolos, escrevendo já depois da morte de Paulo, não dá a mínima mostra de conhecer a epistolografia paulina e nunca nos mostra Paulo a escrever (ou a ditar) uma única carta. Este facto causa perplexidade já desde o século XIX. Como explicar que o autor de Actos, alegado companheiro de Paulo nas suas viagens, parece nunca ter lido a produção escrita do seu herói?
No século XIX iniciou-se na Alemanha o estudo crítico da epistolografia de Paulo; e uma das primeiras conclusões a que se chegou foi que o cânone do Novo Testamento contém uma série de cartas que, apesar de proclamarem a sua autoria paulina, talvez não tenham sido escritas por Paulo, porque pressupõem realidades históricas na evolução do cristianismo e na hierarquia da igreja que só ocorreram depois da morte de Paulo.
Os problemas complexos, levantados pelo corpus paulino, suscitaram respostas diferentes da parte dos melhores especialistas no século XIX. Num livro publicado em 1852, o alemão Bruno Bauer argumentou que todas as cartas de Paulo que se encontram no Novo Testamento são falsificações escritas no século II, razão pela qual não temos maneira de aceder ao pensamento verdadeiro do apóstolo. Assim, para Bauer era inevitável que o autor de Actos mostrasse desconhecer as cartas de Paulo, uma vez que estas ainda não tinham sido escritas em nome do apóstolo quando o livro de Actos foi composto.
Na década seguinte à publicação do livro de Bruno Bauer, saiu a 2ª edição do livro de um seu quase-homónimo, chamado Ferdinand Christian Baur. Nesta obra («Paulus, der Apostel Jesu Christi»), Baur argumentou que as epístolas paulinas que integram o Novo Testamento são falsificações à excepção da Carta aos Romanos, da Carta aos Gálatas e das duas Cartas aos Coríntios.
Mas há aqui um grande problema. O método de análise que permite fazer a triagem entre Paulo e Pseudo-Paulo assenta na premissa de que existe um grupo de cartas paulinas do Novo Testamento ao qual é possível reconhecer o selo da autenticidade. Basta alguém não aceitar essa premissa para o corpus estar de novo vulnerável a quem queira argumentar, como fizera Bruno Bauer no século XIX, que todas as cartas de Paulo no Novo Testamento são falsificações. Em 1995, o biblista alemão Hermann Detering recuperou a abordagem de Bauer, voltando a construir um edifício argumentativo para propor novamente a tese de que todas as cartas de Paulo no Novo Testamento são falsificações (trata-se do livro «Der gefälschte Paulus»).
Acima referi o poder da escrita de Paulo: na verdade, são textos a que ninguém consegue ficar indiferente. As cartas de Paulo são suscetíveis de despertar tanto a maior adesão como o maior repúdio.
Há um facto de que não podemos fugir: lidas, hoje, no contexto social e político dos nossos dias, estas cartas levantam problemas que não se colocavam a Lutero e a outros reformadores apaixonados por São Paulo. A aceitação da escravatura, que perpassa de modo implícito e explícito na epistolografia de Paulo, justificou, durante os duros debates oitocentistas sobre a abolição da escravatura, a posição dos que queriam manter a escravidão. Paulo permitiu-lhes argumentar que o sentimento abolicionista era anti-cristão.
No século XXI, somos também obrigados a refletir sobre o facto de as cartas paulinas exprimirem pontos de vista que legitimaram durante séculos a subalternização da mulher em relação ao homem, ao mesmo tempo que continuam a dar justificação às hierarquias cristãs que pretendem impedir as mulheres de aceder à carreira sacerdotal. Também o facto de Paulo ter escrito que os homossexuais «não herdarão o reino de Deus» (1 Coríntios 6:9) e que são «merecedores de morte» (Romanos 1:32) coloca, ainda hoje, o cristianismo numa situação de desfasamento retrógrado relativamente a direitos consignados constitucionalmente em todos os países governados segundo o modelo da democracia ocidental.
Assim, não há como negar que o confronto com as cartas de Paulo tem de ocupar uma posição fulcral na compreensão daquilo que foi a história do cristianismo. Paulo marcou indelevelmente a religião cristã (até porque as suas epístolas, cronologicamente anteriores aos quatro evangelhos, são os primeiros documentos que nos chegaram do cristianismo). Por isso, estamos obrigados a dialogar com este apóstolo – por vezes inspirador, por vezes intratável – cujos escritos continuam a interpelar-nos e a lançar-nos grandes, dificílimas perguntas.
Muitos de nós sentiremos, talvez, que não temos resposta para Paulo. Ou sentiremos, então, que a melhor resposta que podemos dar-lhe é empenharmo-nos a sério na leitura dos seus escritos. Com admiração (porque, enquanto homem extraordinário e escritor fascinante, ele a merece); mas também com exigência e imparcialidade.
Frederico Lourenço, em Facebook
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