Texto para um ofertório solene (apresentação dos dons) na Eucaristia, com a dinâmica do bolo para explicar o que é ser padre

Hoje, no final da Eucaristia, vamos partilhar um bolo com que celebramos juntos o dom da vocação presbiteral do nosso pároco. A maneira como fazemos um bolo com diferentes ingredientes, incorporando-os na mesma massa, é semelhante à maneira como Deus forma a Igreja, chamando diferentes pessoas para fazerem parte dela.

Ofertório Solene
Nesta apresentação ao Senhor, estabeleceremos comparação entre os ingredientes de um bolo e algumas das várias dimensões da vocação de um sacerdote.

Açúcar: É o ingrediente que dá carácter ao bolo. Sem ele, o bolo não seria bolo, seria pão.
O ingrediente que caracteriza o cristão é o Baptismo; é este sacramento que começa a identificar o padre com Jesus Cristo.

Ovos: Este componente entra no bolo já sem casca e partido. Porquê? Porque, ao parti-lo, é possível separar a clara da gema e, com cada uma delas, fazer o bolo adquirir propriedades únicas de textura, cor…
É o correspondente à Bíblia. Com a leitura, escuta e oração da Palavra de Deus, o sacerdote enceta o processo de desenvolvimento dos dons recebidos no Baptismo.

Manteiga: É uma matéria gorda, escorregadia, essencial para ligar a massa do bolo.
Por mais que determinadas situações, vicissitudes ou até pessoas possam favorecer o desligamento, há uma virtude que permite ao presbítero não desanimar: a autodeterminação. Esta dádiva do Espírito Santo é a “gordura” que “oleia” a alma do escolhido de Deus, para que se sinta sempre ligado a Ele e a todos os que lhe estão confiados.

Sal: Nem todos os bolos levam sal. Contudo, alguns requerem uma pitada. Este constituinte ajuda a apurar o sabor.
Da mesma forma, a direcção espiritual, os cursos de formação, o silêncio, as leituras de espiritualidade, entre outras dinâmicas, constituem toques que vão apurando a personalidade cristã e sacerdotal.

Farinha: A farinha resulta da moagem de trigo, milho, cevada, centeio ou outro qualquer cereal, isto é, possui um antepassado. Nos bolos, costuma ser o elemento presente em maior quantidade. 
Analogamente, também o padre tem – ou teve – pais, avós, catequistas e outras pessoas que acompanharam o seu crescimento humano e espiritual, e lhe imprimiram marcas decisivas – mais vincadas ou mais indeléveis –, que continuam a reflectir-se enquanto pessoa e presbítero.

Leite: Para confeccionar um bolo, é fundamental medir cada ingrediente, sobretudo os líquidos. Qualquer excesso pode arruinar todo o procedimento.
Na Igreja, existem mandamentos, preceitos, que não são proibições mas sim prescrições para orientar as convicções. Não foram a altura do nascimento do sacerdote nem o momento do seu Baptismo que lhe determinaram a vida, mas sim o esclarecimento e a força do entendimento. A fé requer o uso da inteligência. Esta faculdade concedeu ao padre, no dia da sua ordenação, a mesma certeza de S. Paulo: «Eu sei que o Senhor age em meu favor e dos outros».

Fermento: Um bolo não cresce sem fermento.
À semelhança deste factor, que se integra em módicas porções, são as pequenas coisas – como um gesto simples, uma palavra de conforto, um sorriso, uma conversa, um abraço, uma piada, a mera presença – que mais testemunham a proximidade de Cristo. A entrega desinteressada e coerente do presbítero é o fermento mais excelente, que faz crescer, multiplicar e frutificar tudo o que aos olhos de Deus é grande e valioso.

Chantilly: Ingrediente opcional para conferir sabor, ou fazer a cobertura, ou o recheio… Este componente poderia ser substituído por chocolate, doce de ovos, compotas, geleias ou o que se pretendesse. Serve para diversificar o formato, a decoração ou o paladar de inúmeros tipos de bolos.
Do mesmo modo, o padre vem para todos, sem distinção de género, grau académico, posição social, idade, etc. Ele está ao serviço de «todos, todos, todos», como lembrava o Papa Francisco na Jornada Mundial da Juventude do ano passado.

Bolo: Para preparar o bolo, misturam-se os diferentes ingredientes e, curiosamente, à medida que que mexem, deixa de se conseguir distinguir cada um deles, de saber onde estão. Já é impossível separá-los.
Quando a massa está pronta, deita-se na forma e vai ao forno (que, no caso do sacerdote, equivale ao seminário). O bolo coze e é desenformado.
Para servir, convém que não tenha ficado agarrado à forma. Seria igualmente desastroso o padre ficar agarrado às quatro paredes da igreja, mais como “guardião de aquário” do que como o «pescador de almas» que foi chamado a ser.
Da mesma maneira que o bolo se destina a ser repartido e consumido, o alimento da Palavra de Deus, que o seu ministro ordenado detém, é para partilhar, a fim de que todo o mundo seja por ela alimentado.

Pão e vinho: O sacramento da Eucaristia não se realiza sem o presbítero. No altar, ele renova continuamente a oferenda de si próprio e a nossa. Ali, toda a nossa vida é colocada, juntamente com o pão e o vinho, ao dispor do Amor e da Vontade de Deus. E, de cada vez, o milagre da ressurreição acontece.

Maria José Mendonça

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