Desde o primeiro instante, assim que entrei naquela igreja
foi a surpresa. Tinha sido educado ao silêncio no lugar sagrado. Era uma
questão de respeito. Não se fala em voz alta, há que ajoelhar antes de se
sentar, e é de se manter o recolhimento que convida à oração. Há uma
ritualidade nas igrejas, um alinhamento nos gestos e nas posturas, uma
moderação no tom quase mecanizado da voz.
Mas ao entrar na igreja de Blocry,
naquela minha primeira celebração na paróquia, tive de verificar que estava de
facto numa igreja. As pessoas riam e cumprimentavam-se com abraços apertados e
gargalhadas sentidas. Havia crianças a correr. O coral ensaiva uns últimos
refrões. O padre passeava-se por entre aqueles convivas, distribuindo sorrisos
e recolhendo novidades. Fez-me lembrar a casa dos meus pais, quando a família
se junta para uma festa e os vizinhos, simpáticos, têm de tolerar alegremente o
barulho que fazemos.
Era o que ali se passava: a família a juntar-se para uma
festa. Depois do cântico de entrada, como uma família, como um corpo (somos o
corpo de Cristo, professamos nós na fé), e antes de tudo o mais, puseram-se a
partilhar a vida: alguém falou de um doente da comunidade que não pudera vir à
missa, um outro falou da situação grave que se vive na fronteira entre o Congo
e o Ruanda e o quanto ele se inquieta pela sua família que ali vive, alguém
pediu orações por um amigo em estado terminal. Creio que havia um aniversário
também. A palavra e o pão hão de servir-se sobre esta toalha que é a vida da
comunidade, corriqueira, acidentada ou monótona, mas concreta, viva, real. É
esta vida que há de acolher as migalhas e as manchas do vinho, como uma marca
que nem a lixívia da corrida dos dias pode lavar.
A liturgia foi acidentada. O evangelho bastou como leitura.
A homilia foi a várias vozes. A oração eucarística improvisada. O rito ganhava
vida própria na sua apropriação.
Na comunhão, perguntaram-me o nome antes de me
colocarem na mão a hóstia: «Pedro, o corpo de Cristo». O corpo a convidar-se
pessoalmente ao meu corpo. A convidar-me a ser corpo com cada um daqueles que
participavam nominalmente da mesma festa eucarística. Confirmava-se que estava
como que em casa dos meus pais, a celebrar a vida em família. Afinal, eu não
era mais um indivíduo impessoal sem nome a entrar nas secas estatísticas
paroquiais a que reduzimos frequentemente a nossa pastoral do excel: «Neste
domingo comungaram 83 pessoas; a percentagem de praticantes é de 3, 24 %, a média
de idade é de 71 anos». Ali, nada disso importava. Os números dizem quase nada
da vida. Ali, estava o Pedro, o Jean, a Joanna, a Marie-Paule, a Isabelle... e
o resto da família. Cada um com a sua história de vida. Era a minha primeira
vez ali, mas eu estava em casa.
No aperitivo partilhado no fim da missa, a família
aproximou-se para vencer a minha timidez. A partilha de um copo de champagne
faz milagres pela comunidade. A celebração vivida prolonga-se num brinde com os
amigos da festa, como que encorajando a uma vida eucarística de testemunho da
fé e da alegria ali partilhada. A balbúrdia na igreja de Blocry tornou-se para
mim metáfora da comunidade que somos chamados a ser. A balbúrdia pode ser
sacramental e ensopar a igreja e a sua liturgia da dinâmica concreta da vida e
da alegria da comunidade.
Pedro Valinho Gomes,
licenciado em Teologia, com especialização em Estudos Bíblicos
doutor em Filosofia da Religião,
diretor do Centro de Formação e Cultura da Diocese de Leiria-Fátima
diretor do Centro de Formação e Cultura da Diocese de Leiria-Fátima
em Voz da Fátima, 2024.06.13
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