A ambição é definida como «desejo veemente de riqueza, honras ou glórias». Ser ambicioso, no sentido mundano, é estar determinado a ter mais do que o próximo.
As ambições de poder dos discípulos
A leitura dos Evangelhos, quando meditada e rezada, passa de
"histórica" a simbólica e representa para nós, cada cristão e Igreja,
o que Jesus quer dizer a nós hoje.
O relato de Marcos 10, 35-45 e seus paralelos em Mateus 20, 20-28;
Lucas 22, 24-27; e João 13, 1-17, revelam-nos um dos lados sombrios da nossa
religiosidade. Jesus desmascara um pecado escondido nas profundezas
do nosso sentido religioso: o desejo de poder.
O aspeto histórico do evangelho é claramente mostrado aqui:
os evangelistas não escondem a mediocridade das intenções dos Doze.
O que vemos e o que aprendemos? São pessoas necessitadas de
conversão. Seguir Jesus não significou automaticamente a transformação dos seus
valores, das suas expectativas. O seguimento físico, "ir com Ele",
será apenas o início do seguimento espiritual. Este processo aparece claramente
nas narrativas evangélicas e nos Atos dos Apóstolos.
Se nos Evangelhos os discípulos aparecem com ânsia de poder
mundano, nos Atos aparecem já «convertidos» - assumiram a sua função: servir,
como o Mestre serviu. Isto significa que eles acreditaram em Jesus, aceitaram
Jesus acima de todos os messianismos patrióticos e de todas as tradições
anteriores. Converteram-se a Jesus e fizeram-no o seu único padrão.
Com tudo isto é-nos oferecida a interpretação definitiva e
única do Reino de Deus: nenhum reino com poderes humanos, nenhum domínio,
nenhum triunfo espetacular, nenhuma riqueza, nenhum esplendor exterior.
Dedicação plena ao serviço, para resgatar muitos, para que se libertem
precisamente daqueles messianismos, que são «do mundo», isto é, frutos do
pecado.
Nós, Igreja, comunidade de crentes, estamos sujeitos ao
mesmo processo de pecado e conversão. É inegável que a Igreja quer seguir Jesus,
mas também está presente nela a tentação de exibir o poder do seu Senhor pelo
esplendor exterior e pelas honras que seriam devidas ao Senhor.
É evidente que a Igreja é lida como embaixadora de Deus e,
portanto, merecedora de respeito e honras. Esta condição manifesta-se também
logicamente no esplendor exterior, no exercício de uma autoridade, dogmática e
disciplinar, derivada da autoridade divina, e na autoconvicção da sua
superioridade sobre todas as outras, baseada no facto de Jesus, o Filho único,
lhe ter confiado, e não aos outros, a Missão de O anunciar ao mundo.
Toda esta lógica humana desmorona-se, no entanto, por duas
considerações. A primeira é que esta não é a lógica de Jesus, que Jesus não era
assim: «O Filho do Homem não veio para ser servido.» A Igreja anuncia e
prolonga Jesus; e Jesus não é um Rei, não é um Messias davídico, não é um
poder. Portanto, a Igreja também não.
E a segunda consideração é que a Igreja é embaixadora de
Jesus apenas por causa do seu grau de conversão, não por causa de doações
jurídicas ou considerações metafísicas. Se a Igreja se dedica ao serviço da
libertação do ser humano, é a Igreja de Jesus.
Se não o faz e na medida em que não o faz, não passa de uma
sociedade humana distantemente inspirada por Jesus. A condição da Igreja como
Missão, como sacramento de Cristo, como presença no mundo do Ressuscitado não é
uma questão de fundamento, de estatuto jurídico, de transmissão de poderes, de
popularidade. Trata-se de realidades objetivas, isto é, de tornar presente no
mundo o Espírito de Jesus: servir para libertar, fugindo explicitamente de ser
servido.
José Enrique Galarreta, em Fé Adulta
Comentários
Enviar um comentário