«Para que haja um sacramento, não basta ser crente e ir à igreja. É imprescindível o mútuo e autêntico amor»

Hoje não faz sentido falar sobre o casamento sem deixar claro o que é o amor. Se um relacionamento de casal não é baseado no amor verdadeiro, não há nada de humano nisso. Mas o complicado é avaliar o que queremos dizer com amor. É uma palavra tão adulterada que é impossível adivinhar o que queremos dizer com ela em cada caso. O mais refinado do egoísmo, que é aproveitar o mais íntimo do outro, também chamamos de amor.

O desejo de buscar ganhos pessoais arruína qualquer possibilidade de relações humanas. Essa busca por outro, para satisfazer minhas necessidades, anula todas as possibilidades de um relacionamento de casal. Do ponto de vista hedonista, o casal será baseado no que o outro me traz, nunca no que eu posso dar a eles. A consequência é terrível: os casais só ficam enquanto um equilíbrio de interesses mútuos for alcançado.

Esta é a razão pela qual mais da metade dos casamentos são quebrados, sem contar aqueles que hoje nem sequer consideram uma união estável, mas se contentam em tirar o máximo proveito de qualquer relacionamento pessoal a cada momento. A partir dessas perspectivas, não importa o quanto uma pessoa está me dando, a qualquer momento eu posso descobrir outro que pode me dar mais. Não terei razão para continuar com o primeiro. Também pode ser o caso de encontrar outra pessoa que, dando-me o mesmo, exige menos de mim.

O amor consiste em desdobrar a capacidade de se doar sem esperar nada em troca. Não tem limites além daqueles estabelecidos por aquele que ama. Quem ama não pode estabelecer limites. Mas superar o falso eu e descobrir o meu verdadeiro eu é limitado e devemos reconhecê-lo. Devemos nos tornar claramente conscientes da diferença entre serviço e servilismo. Jesus disse que é tão letal subjugar o outro quanto permitir-se ser subjugado. Se o casal excedeu a minha capacidade de resistência, devo evitar submeter-me e aniquilar-me.

Do nosso ponto de vista cristão, temos uma supervisão monumental do que é o sacramento. Para que haja um sacramento, não basta ser crente e ir à igreja. É imprescindível o mútuo e autêntico amor. Com essas três palavras, que sublinhei, estamos limitando a extremos incríveis a possibilidade real do sacramento. O verdadeiro amor é algo que não devemos dar como certo. O amor não é puro instinto, não é paixão, não é interesse, não é apenas amizade, não é o desejo que alguém me ame. Todas essas realidades são positivas, mas não são suficientes para alcançar uma humanidade maior.

Quando dizemos que o casamento é indissolúvel, estamos a referir-nos a uma união baseada no amor autêntico, que pode ocorrer entre crentes ou não crentes. Pode haver verdadeiro amor humano-divino, mesmo que não se creia explicitamente em Deus, ou não se pertença a uma religião. É impensável o amor autêntico se for condicionado a um espaço de tempo limitado. Um amor verdadeiro é indestrutível. Se eu escolhi uma pessoa para me despejar com tudo o que sou e assim desdobrar minha humanidade, nada pode me parar.

Divórcio, entendido como uma ruptura do sacramento, é uma palavra desprovida de conteúdo para o crente. A Igreja faz muito bem em não a acomodar no seu vocabulário. Não é assim tão difícil de entender. Só se existe amor verdadeiro é que existe um sacramento. A melhor prova de que não havia amor verdadeiro é que em um determinado momento ele termina. É comum ouvir falar de um amor que acabou. Esse amor, que terminou, sempre foi um falso amor, isto é, egoísmo que só buscava ganho pessoal interessado e egoísta.

Os seres humanos podem estar errados, mesmo em assuntos tão importantes quanto isso. O que acontece quando duas pessoas acreditavam que havia amor verdadeiro e no fundo não havia nada além de interesse mútuo? Deve ser inequivocamente reconhecido que não havia sacramento. É por isso que a Igreja só reconhece a nulidade, isto é, uma declaração de que não havia verdadeiro sacramento. E não é preciso um processo judicial para demonstrá-lo. É muito simples se em certo momento não há amor, nunca houve amor verdadeiro e não houve sacramento.
 
Frei Marcos, Fé Adulta

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