Pode Jesus pedir-te: «Vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres. Depois, vem e segue-Me»? Uma seleção de reflexões
Jesus diz no Evangelho àquele jovem rico, e diz-nos a nós: «Vai
vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois,
vem e segue-Me.»
Isto parece-nos incomportável: vou vender a minha casa, o
meu carro, os meus móveis e dá-los aos pobres? O evangelho não nos pode pedir o
que, realisticamente falando, não podemos fazer. Devemos, então, deixar de lado
esta página do Evangelho? Não.
Pode ser útil se entendermos "vender e dar" como
um deslocamento. Trata-se de caminhar para as pobrezas: que estejamos mais
interessados nas situações dos pobres, que estejamos mais informados, que
colaboremos mais, que nos descubramos a fazer coisas que não são comuns a favor
dos outros, que nos preocupemos com as dores dos outros. Geralmente movemo-nos na
nossa vidas em direção à fama, ao poder e ao dinheiro. Deslocar-nos para o
lugar, a situação do outro, seria "vender e dar".
Como fazê-lo de forma realista e possível?
· Um novo olhar: começa por olhar para a pobreza de forma
diferente; pôr-se no lugar dos pobres: como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos
numa situação como a deles? Olhar para eles como família, irmãos. Se olharmos maliciosamente,
nunca vamos entendê-los.
· Novas palavras: cuidar da forma como falamos dos pobres e
das situações de pobreza; não falar com desprezo, não tratar como coitadinhos, falar
deles como estando na nossa presença e, até, dar-lhes a voz. Recordar o que
dizia São Francisco de Assis: «Falar mal dos pobres é falar mal de Jesus Cristo.»
· Nova identidade: temos muito orgulho da nossa identidade,
da nossa pertença a uma região, a uma cidade, a um povo, a uma pátria. Fazemos
disso uma reserva privada. Essa porta deve abrir-se para deixar entrar os
irmãos e irmãs inesperados, que são os humildes, os pobres, os imigrantes, os
deslocados.
De que serve o nosso cristianismo se não nos movemos para o
mundo dos frágeis?
Precisamos de dar à nossa fé cristã um realismo que a concretize
na vida. Porque uma fé que não toca nas situações da vida é uma fé da sala de
estar, fraca, inexistente. Um salmo diz: «Se ouvirdes a voz do Senhor, não
endureçais o vosso coração». Se lemos o evangelho e não nos endurecemos, é
porque estamos a ser discípulos de Jesus.
Fidel
Aizpurúa Donazar, em Fé Adulta
Diz o Evangelho que o jovem retirou-se triste da presença de Jesus, porque era muito rico.
É a tristeza como companheira no caminho de quem insiste em não seguir a voz de Deus que clama no coração da nossa consciência,
aquela que vai contra a corrente do estabelecido.
A tristeza como companheira
inseparável das sociedades que se constituem em torno do ter, do poder, da
aparência, da mentira, da ambição, da violência de qualquer tipo.
É a tristeza como companheira no caminho de quem insiste em passar por cima ou ao largo dos outros.
A verdadeira riqueza está no seguimento de Jesus,
na vivência jubilosa da fraternidade-irmandade. E isso só pode ser entendido do
ponto de vista da gratuidade para caminharmos juntos.
Maria Luisa Paret, em Fé Adulta
Jesus não acrescenta mais preceitos; faz uma proposta original: em vez
de garantias, Ele pede confiança sem limites.
Para o jovem, a Lei de Deus e a riqueza garantiam a vida aqui na Terra. Jesus diz que a verdadeira vida manifesta-se na relação com os outros.
O jovem pergunta-lhe sobre uma vida após a morte; Jesus responde com um convite a segui-Lo já aqui e agora.
É absurdo pensar que Deus prefira que passemos necessidades. As riquezas em si não são boas nem más. O apego aos bens sem consideração pelos pobres, ou pior ainda à custa dos pobres, é que impede a humanidade de alcançar o objetivo de Deus para a família humana.
Pensar que os ricos estão condenados e os pobres estão salvos é demagogia. O facto de ter, ou não ter, bens materiais não é o significativo. Aquele que não tem nada pode estar mais apegado aos bens que cobiça, do que o rico ao que possui. O que sugere Jesus é manter o equilíbrio que nos permite viver humanamente e não nos impeça de nos entregarmos aos outros. Tanto os pobres como os ricos terão de dar um passo para entrar na dinâmica do Evangelho.
Pensar que os ricos estão condenados e os pobres estão salvos é demagogia. O facto de ter, ou não ter, bens materiais não é o significativo. Aquele que não tem nada pode estar mais apegado aos bens que cobiça, do que o rico ao que possui. O que sugere Jesus é manter o equilíbrio que nos permite viver humanamente e não nos impeça de nos entregarmos aos outros. Tanto os pobres como os ricos terão de dar um passo para entrar na dinâmica do Evangelho.
Outra armadilha é acreditar que o Evangelho propõe apenas pobreza de espírito. A proposta de Jesus é escolher o caminho que me conduz à plenitude da humanidade: ao ser mais, em vez do ter mais.
Frei Marcos, em Fé Adulta
A resposta de Jesus enumera sete objetos de renúncia, como
símbolo da renúncia total: casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos. Tudo
isso terá sua recompensa nesta vida (cem vezes mais em todas as anteriores,
exceto nos pais) e, na próxima, na vida eterna. E Marcos não esquece as perseguições.
Para os discípulos, a abundância de bens é fornecida
pelo seguimento de Jesus.
José
Luis Sicre, em Fé Adulta
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