Pode Jesus pedir-te: «Vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres. Depois, vem e segue-Me»? Uma seleção de reflexões

Há páginas do Evangelho que incomodam. Um exemplo é o de Marcos 10, 17-30.
 
Jesus diz no Evangelho àquele jovem rico, e diz-nos a nós: «Vai vender o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no Céu. Depois, vem e segue-Me.»
 
Isto parece-nos incomportável: vou vender a minha casa, o meu carro, os meus móveis e dá-los aos pobres? O evangelho não nos pode pedir o que, realisticamente falando, não podemos fazer. Devemos, então, deixar de lado esta página do Evangelho? Não.
 
Pode ser útil se entendermos "vender e dar" como um deslocamento. Trata-se de caminhar para as pobrezas: que estejamos mais interessados nas situações dos pobres, que estejamos mais informados, que colaboremos mais, que nos descubramos a fazer coisas que não são comuns a favor dos outros, que nos preocupemos com as dores dos outros. Geralmente movemo-nos na nossa vidas em direção à fama, ao poder e ao dinheiro. Deslocar-nos para o lugar, a situação do outro, seria "vender e dar".
 
Como fazê-lo de forma realista e possível?
· Um novo olhar: começa por olhar para a pobreza de forma diferente; pôr-se no lugar dos pobres: como gostaríamos de ser tratados se estivéssemos numa situação como a deles? Olhar para eles como família, irmãos. Se olharmos maliciosamente, nunca vamos entendê-los.
 
· Novas palavras: cuidar da forma como falamos dos pobres e das situações de pobreza; não falar com desprezo, não tratar como coitadinhos, falar deles como estando na nossa presença e, até, dar-lhes a voz. Recordar o que dizia São Francisco de Assis: «Falar mal dos pobres é falar mal de Jesus Cristo.»
 
· Nova identidade: temos muito orgulho da nossa identidade, da nossa pertença a uma região, a uma cidade, a um povo, a uma pátria. Fazemos disso uma reserva privada. Essa porta deve abrir-se para deixar entrar os irmãos e irmãs inesperados, que são os humildes, os pobres, os imigrantes, os deslocados.
 
De que serve o nosso cristianismo se não nos movemos para o mundo dos frágeis?
 
Precisamos de dar à nossa fé cristã um realismo que a concretize na vida. Porque uma fé que não toca nas situações da vida é uma fé da sala de estar, fraca, inexistente. Um salmo diz: «Se ouvirdes a voz do Senhor, não endureçais o vosso coração». Se lemos o evangelho e não nos endurecemos, é porque estamos a ser discípulos de Jesus.

Fidel Aizpurúa Donazar, em Fé Adulta

Diz o Evangelho que o jovem retirou-se triste da presença de Jesus, porque era muito rico.

É a tristeza como companheira no caminho de quem insiste em não seguir a voz de Deus que clama no coração da nossa consciência, aquela que vai contra a corrente do estabelecido. 
A tristeza como companheira inseparável das sociedades que se constituem em torno do ter, do poder, da aparência, da mentira, da ambição, da violência de qualquer tipo.
É a tristeza como companheira no caminho de quem insiste em passar por cima ou ao largo dos outros.

A verdadeira riqueza está no seguimento de Jesus, na vivência jubilosa da fraternidade-irmandade. E isso só pode ser entendido do ponto de vista da gratuidade para caminharmos juntos.

Maria Luisa Paret, em Fé Adulta

Jesus não acrescenta mais preceitos; faz uma proposta original: em vez de garantias, Ele pede confiança sem limites.

Para o jovem, a Lei de Deus e a riqueza garantiam a vida aqui na Terra. Jesus diz que a verdadeira vida manifesta-se na relação com os outros.

O jovem pergunta-lhe sobre uma vida após a morte; Jesus responde com um convite a segui-Lo já aqui e agora.

É absurdo pensar que Deus prefira que passemos necessidadesAs riquezas em si não são boas nem más. O apego aos bens sem consideração pelos pobres, ou pior ainda à custa dos pobres, é que impede a humanidade de alcançar o objetivo de Deus para a família humana.

Pensar que os ricos estão condenados e os pobres estão salvos é demagogia. O facto de ter, ou não ter, bens materiais não é o significativo. Aquele que não tem nada pode estar mais apegado aos bens que cobiça, do que o rico ao que possui. O que sugere Jesus é manter o equilíbrio que nos permite viver humanamente e não nos impeça de nos entregarmos aos outros. Tanto os pobres como os ricos terão de dar um passo para entrar na dinâmica do Evangelho.

Outra armadilha é acreditar que o Evangelho propõe apenas pobreza de espírito. A proposta de Jesus é escolher o caminho que me conduz à plenitude da humanidade: ao ser mais, em vez do ter mais.

Frei Marcos, em Fé Adulta

A resposta de Jesus enumera sete objetos de renúncia, como símbolo da renúncia total: casa, irmãos, irmãs, mãe, pai, filhos, campos. Tudo isso terá sua recompensa nesta vida (cem vezes mais em todas as anteriores, exceto nos pais) e, na próxima, na vida eterna. E Marcos não esquece as perseguições.
Para os discípulos, a abundância de bens é fornecida pelo seguimento de Jesus.
José Luis Sicre, em Fé Adulta

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