«Se se peocurasse o meio mais eficaz de desviar a atenção do essencial do Evangelho, creio que não se teria encontrado nada melhor do que a “grande teologia” das nossas Igrejas», escreve o padre Eloy Roy, da Sociedade para as Missões Estrangeiras, em Fé Adulta.
O missionário, de 88 anos, diz de si mesmo: «Nos meus trinta anos de andanças missionárias por Honduras,
Argentina e China, descobri que Deus fala pela boca dos “ninguém”. A sua
linguagem é a dos direitos humanos, das culturas indígenas a resgatar, das
terras ancestrais a recuperar, do amor à Mãe Terra, da libertação das mulheres,
do horrendo escândalo da pobreza e do crime contra a humanidade dos
desaparecimentos de pessoas, etc. É a
linguagem do Evangelho, a de um Deus feito povo.»
No texto, prossegue assim a sua reflexão: «Teria sido tão simples ficar com o Jesus do Evangelho, com as suas parábolas, as suas audácias, os seus testemunhos.
Não, foi preciso comparar-se com os filósofos mais prestigiados da Antiguidade, competir com eles, mostrar-lhes que se sabia mais do que eles. Foram-lhes roubadas as suas obras e tomaram de empréstimo a maior parte das suas prioridades e sua visão das coisas, contentando-se em batizar tudo com fragmentos retirados da Bíblia.
Perdemo-nos em especulações sobre as faculdades da alma, sobre a Trindade, sobre a transubstanciação, sobre a virgindade de Maria, as “notas” da Igreja e mil e uma coisas deste género, passando realmente ao lado do que está no coração do Evangelho: o Reino que Jesus anunciou como Boa Nova para os pobres (Mt 4, 23, Lc 4, 14-21).
Encerrámos a vida cristã numa série de silogismos, dogmas e regras morais e criámos uma lista interminável de condições para nos podermos de salvar, quando teria sido suficiente atermo-nos ao Bom Samaritano de Lucas (Lc 10,29-37), ao Juízo Final de Mateus (Mt 25,31-46) e ao Mandamento Novo de João (Jo 15,12).
Entre o que Deus revela aos pequeninos e oculta aos sábios, foram escolhidas as dissertações dos sábios. Ao helenizá-la, a Bíblia foi morta. A loucura dos gregos tornou-se a nossa própria loucura (Lc 10, 21; 1 Cor 1, 22).
Esta teologia, que é praticamente exclusiva dos círculos de especialistas, é um instrumento de dominação: é uma parte interessada desse poder obscuro que tornou a Igreja uma instituição tão estranha e, em certa medida, tão oposta ao Evangelho.
É a causa primeira das inúmeras querelas que dilaceram a Igreja e corroem as suas melhores energias; é o que, pelos seus raciocínios capciosos e ações subtis, torna a Igreja, por assim dizer, impermeável ao Espírito.
Se devesse existir uma teologia no mundo cristão, esta teria de partir apenas dos pobres. Porque os pobres são os únicos e verdadeiros doutores da Igreja, não tanto pelos seus discursos quanto pelos seus pesados silêncios, seus gritos de angústia ou seus cânticos de esperança.
Juntamente com eles e o Jesus do Evangelho, busquemos com sinceridade uma resposta audaz para as suas expectativas, e então faremos uma teologia que não envergonhará mais aqueles que, nos primórdios da Igreja, se deixaram devorar pelos tigres em vez de trair a imensa esperança que o Evangelho representava para os deserdados da terra.
Que toda a outra teologia vá parar ao Index e todos os pobres da terra sentir-se-ão muito melhor. E o Evangelho também.»
Tradução de Paulo Costa
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