Queixa fundamentada dos presbíteros casados ao Sínodo


À Secretaria Geral do Sínodo
Cardeal Mario Grech
Da nossa melhor consideração:
 
Lendo as conclusões do Sínodo sobre a Sinodalidade, os membros da Federação Latino-Americana de Presbíteros Casados desejam dar a nossa opinião com todo o respeito, recordando o que está expresso no número 3 do Documento: «Pusemo-nos à escuta, atentos para colher em tantas vozes aquilo que “o Espírito diz às Igrejas” (Ap 2, 7).). O caminho começou com uma ampla consulta ao Povo de Deus..."
 
Em primeiro lugar, felicitamos este acontecimento eclesial, que nos apresenta temas muito interessantes que esperamos sejam vividos e praticados para o bem da evangelização, com base em escritos teológicos, bíblicos e doutrinais, que dão coerência ao que foi dito pelo Concílio Vaticano II e outros documentos eclesiais.
 
Mas pesa-nos que, como você sabe, apesar de termos falado e exposto as nossas preocupações à Hierarquia por muitos e diversos meios, ao CELAM, a outros meios de comunicação e a vários outros organismos, incluindo a vossa pessoa, não tenhamos, contudo, sido escutados, nem tenhamos ouvido dizer que a possibilidade de o celibato ser facultativo e não obrigatório tenha sido refletida e levantada no Sínodo, uma expectativa que consideramos boa e saudável para a Igreja e para a Evangelização. Nem sequer ouvimos falar dele como um tema que possa ser tratado mais tarde.
 
Dado que os presbíteros casados somos mais de 100 000 e, como se pode estimar, mais de 90 % do povo cristão aceita a nossa postura, a atitude que percebemos é negativamente significativa: consideramos que se repete uma situação frequente; talvez ainda pior, uma vez que não se atuou à altura dos tempos e das necessidades, nem de acordo com a disposição para a escuta expressa pelo próprio Sínodo. Dá a impressão de que um certo clericalismo continua a impor-se de forma absoluta e distante da realidade.
 
Na nossa opinião, faltou valentia e coragem para superar uma posição de clericalismo ancorado e obsoleto. Há, por um lado, uma clara contradição entre o propósito de escutar e a procura de soluções práticas que respondam às necessidades reais do tempo em que vivemos; e, por outro, a realidade da não escuta. Dá a impressão de que o que se queria ouvir foi ouvido, e não o que levanta questões conflituosas e difíceis devido a tanto tempo que passou sem querer enfrentá-las, como é o nosso caso.
 
Tudo isto nos levou a uma enorme deceção e a sentirmo-nos ignorados. É lógico que experimentemos frustração por termos acreditado na postura de escuta e que a questão do celibato facultativo seria levada em conta para análise. É difícil assumir que uma Assembleia que se definiu como "à escuta" não quis ouvir-nos; e isto não tanto para o nosso interesse, mas para o das futuras gerações de presbíteros, e um bem salutar para a nossa Igreja.
 
Que a Virgem Maria nos dê a todos luzes de esperança.
 
Sebastián Cozar Gavira, 
Presidente da Federação Latino-Americana de Presbíteros Casados
San Carlos, Chile, 17 de novembro de 2024,

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