Reflexão sobre a afirmação de Jesus «Nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz».


A verdade é Deus. Nós conhecemos a Verdade por meio de Jesus Cristo, que é o início, a essência, a razão e a plenitude da vida (ver  Apocalipse 22, 13:  «Eu sou o Alfa e o Ómega, o Primeiro e o Último, o Princípio e o Fim»; e também Romanos 8, 28-30: «Sabemos que tudo contribui para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados, de acordo com o seu desígnio. Porque àqueles que Ele de antemão conheceu, também os predestinou para serem uma imagem idêntica à do seu Filho, de tal modo que Ele é o primogénito de muitos irmãos. E àqueles que predestinou, também os chamou; e àqueles que chamou, também os justificou; e àqueles que justificou, também os glorificou»).

Quando, na nossa ignorância, identificamos a verdade com um conceito ou uma crença, chegamos ao absurdo de pensar que ser "testemunhas da verdade" significa defender a nossa própria posição de forma categórica, na crença de que estamos a defender a verdade. É neste erro inicial que encontram lugar todas as atitudes fundamentalistas e fanáticas típicas de quem se crê na posse da verdade. Daí o conhecido ditado: "Admirai aqueles que procuram a verdade e desconfiai daqueles que afirmam tê-la".
 
A verdade nunca pode ser possuída. O que possuímos são apenas construções mentais, muitas vezes – mesmo que inconscientemente – feitas à nossa própria medida. Temos ideias, crenças, convicções..., criações e projeções da nossa própria mente, de acordo com o que temos recebido dos outros; em suma, conhecimento em segunda mão.
 
A verdade não só não se deixa encurralar, como nos despoja de todas as nossas pretensões. É por isso que ela conduz sempre à humildade, segundo o conhecido e preciso ditado de Teresa de Jesus: «Humildade é andar na verdade».
 
A verdade desnuda-nos porque questiona radicalmente todas as nossas construções mentais, põe em causa as nossas aparentes seguranças, provoca o silêncio da mente e introduz-nos na sabedoria do "não-saber", como expressou João da Cruz, de forma bela e poética na poesia Glosas sobre um êxtase de alta contemplação: "Entra em mim onde eu não conhecia / e fico sem saber / toda a ciência transcendendo". Ou como expressou outro grande místico, Miguel de Molinos, de Teruel, no século XVII: "O vazio, o não-conhecimento, o silêncio interior constituem as bases e os fundamentos desta sabedoria de proporções íntimas."
 
A verdade não é algo que a nossa mente possa elaborar – tudo o que sai da mente, sem exceção, são apenas "mapas". E a verdade, desde o início, nada tem a ver com mapas ou conceitos, que levam ao confronto e, se necessário, à aniquilação daqueles que não partilham as suas próprias crenças. A verdade é una com a realidade. Nada fica de fora. Escapa à mente que, incapaz de apreender a realidade total, está condenada a permanecer no lúcido "não-saber"; A verdade não pode ser pensada, mas vivida. Quem pensa a verdade corre o risco de se tornar um fanático. Quem a vive é humilde.
 
Enrique Martínez Lozano, em Fé Adulta

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