Reflexão sobre a afirmação de Jesus «Nasci e vim ao mundo, a fim de dar testemunho da verdade. Todo aquele que é da verdade escuta a minha voz».
Quando, na nossa ignorância, identificamos a verdade com um
conceito ou uma crença, chegamos ao absurdo de pensar que ser "testemunhas
da verdade" significa defender a nossa própria posição de forma
categórica, na crença de que estamos a defender a verdade. É neste erro inicial
que encontram lugar todas as atitudes fundamentalistas e fanáticas típicas de
quem se crê na posse da verdade. Daí o conhecido ditado: "Admirai aqueles
que procuram a verdade e desconfiai daqueles que afirmam tê-la".
A verdade nunca pode ser possuída. O que possuímos são
apenas construções mentais, muitas vezes – mesmo que inconscientemente – feitas
à nossa própria medida. Temos ideias, crenças, convicções..., criações e
projeções da nossa própria mente, de acordo com o que temos recebido dos
outros; em suma, conhecimento em segunda mão.
A verdade não só não se deixa encurralar, como nos despoja
de todas as nossas pretensões. É por isso que ela conduz sempre à humildade,
segundo o conhecido e preciso ditado de Teresa de Jesus: «Humildade é andar na
verdade».
A verdade desnuda-nos porque questiona radicalmente todas as
nossas construções mentais, põe em causa as nossas aparentes seguranças,
provoca o silêncio da mente e introduz-nos na sabedoria do
"não-saber", como expressou João da Cruz, de forma bela e poética na poesia Glosas sobre um êxtase de alta contemplação:
"Entra em mim onde eu não conhecia / e fico sem saber / toda a ciência
transcendendo". Ou como expressou outro grande místico, Miguel de Molinos,
de Teruel, no século XVII: "O vazio, o não-conhecimento, o silêncio
interior constituem as bases e os fundamentos desta sabedoria de proporções
íntimas."
A verdade não é algo que a nossa mente possa elaborar – tudo
o que sai da mente, sem exceção, são apenas "mapas". E a verdade,
desde o início, nada tem a ver com mapas ou conceitos, que levam ao confronto
e, se necessário, à aniquilação daqueles que não partilham as suas próprias
crenças. A verdade é una com a realidade. Nada fica de fora. Escapa à mente
que, incapaz de apreender a realidade total, está condenada a permanecer no
lúcido "não-saber"; A verdade não pode ser pensada, mas vivida. Quem
pensa a verdade corre o risco de se tornar um fanático. Quem a vive é humilde.
Enrique Martínez Lozano, em Fé Adulta
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