E prossegue: «Talvez por isso o sentimento da presença dessas vidas
no meu quotidiano seja constante e se revele para mim como força, como sopro de
vida e gratidão permanente. Os meus mortos não me abandonam. Fazem parte do meu
quotidiano.
Estão presentes quando passo creme no meu rosto e, nesse
gesto de cuidado, a presença da minha mãe se torna mais nítida com um sorriso
de aprovação.
Ou quando ouço atentamente jovens mulheres que procuram ser
elas próprias, enfrentando o preço que têm de pagar por o serem; tento
apoiá-las com todas as minhas forças, como fez comigo outra das minhas mortas
mais queridas, a minha companheira incondicional e amiga de sempre Teresa.
Ou quando me junto às mobilizações contra o genocídio em
Gaza cantando “Livre, livre Palestina”, como aprendi com Conchita, uma das
minhas mortas mais insubmissas.
Talvez por isso, pela naturalidade com que convivo com os
meus mortos mais queridos, para que vivam em mim e comigo em cada momento, me
pareça tão evocativo um poema de Begoña Abad, de que me apropriei, recriando-o:
Todos os dias não falo de ti, guardo-te (...).
Cada vez que pronuncio palavras essenciais:
pão, água, carícia, mão, beijo (...)
silêncio, liberdade,
imaginação, mistério,
coragem,
presença infinita e eterna..
Vinciane Despret diz no seu livro «Au bonheur des morts.
Récits de ceux qui restent» (Para alegria dos mortos. Histórias dos que
ficaram) que as teorias ocidentais do luto nos incitam a cortar todos os
laços com o falecido, de modo que os mortos não têm outro papel senão o de se
fazerem esquecer.
Assim, os mortos só estão verdadeiramente mortos se não lhes
dermos conversa, ou seja, consideração. Por isso, somos instados a criar e
explorar criativa e simbolicamente a relação com eles, porque, como Anny
Duperey (atriz e escritora francesa) também salienta, os mortos só estão mortos
se os enterrarmos, se não trabalharem para nós e connosco. Portanto, temos de
os acompanhar e ajudá-los a acompanhar-nos, oferecer-lhes e reconhecer-lhes uma
existência extra (e dá exemplos: uma mulher calça os sapatos da avó para ela continuar
a caminhar pelo mundo; outra respeita o pedido do pai para não vender a sua
casa… (ler, em francês:
Quand les morts secouent nos habitudes)
No momento em que o indivíduo morre, a sua atividade está
inacabada, e pode dizer-se que permanece inacabada enquanto não houver seres
capazes de reatualizar essa ausência ativa, a semente da consciência. Creio
que, num certo sentido, a crença cristã na ressurreição tem a ver com isto e,
sobretudo, com a celebração dos mortos em tantas culturas, mas refiro-me
especialmente aos rituais mexicanos. Penso também que o medo da morte no Norte
global tem que ver com a ausência desta perspetiva.
No entanto, há também outros mortos, milhões de mortos, sem
nome, mortos que, como diz Judit Butler, filósofa dos Estados Unidos, não merecem ser chorados,
mortos sem memória que perdem – por isso – a sua capacidade de revelação, que
esperam ser resgatados da amnésia coletiva: os desaparecidos em tantas valas
comuns no México, na Colômbia, na Argentina, no Chile, em Espanha... e no
Mediterrâneo ou na rota das Canárias, os mais de 40 000 mortos massacrados em
Gaza, os esquecidos em África. Mortes que também são nossas, pelo nosso
silêncio ou cumplicidade. Mortos que pedem para não serem esquecidos e que as
histórias de abandono, de violência, de injustiça, de barbárie, cujas vidas representam,
nunca mais se repitam.
Temos para com eles uma dívida de lágrimas, de gritos, de
justiça e de reparação. Mortos que gritam perante o desamor e nesse grito está
o seu plus de existência, a sua presença incómoda, porque como me lembra
a minha morta mais querida, a minha irmã Susana, o amor é vida e
torna-nos eternos, porque quem ama e é amado nunca morrerá.»
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