Mulher (cena: família com crianças): Filhos, gostamos muito de vocês. Não duvidem nunca. As pessoas cá da aldeia somos pobres. Por isso, não vos podemos dar muitos presentes.
Homem: Neste Natal, vocês tiveram de inventar brinquedos com os quais brincar.
Narrador (entra o que ainda não é, mas vai ser Pai Natal mais à frente): Um homem de idade, com uma grande barba branca e barrigudo, estava de passagem por aquela aldeia. Cruzou-se com algumas crianças. Embora alegres e divertidas, não podiam disfarçar a sua pobreza.
Pai Natal (para a mulher e as suas crianças. E, brincando, juntam-se todas as outras): Gosto muito de crianças e estou muito emocionado por causa dos meninos e meninas desta aldeia!
Mulher: Porquê, senhor?
Pai Natal: Porque não têm nenhum brinquedo para brincarem. Nem jogos com os quais se possam divertir. Mas são alegres e divertidas.
homem (abraçando um ou mais filhos): São um exemplo para nós, que já fomos assim e perdemos a criança que havia em nós.
Pai Natal: Temos de fazer alguma coisa!
Homem: Tem razão. Mas o quê?
Pai Natal: Fabricar brinquedos para os meninos e meninas da vossa aldeia.
Homem: Que boa ideia!
Mulher: Ou também sentar-nos com elas, contar-lhes histórias, ouvir os seus desejos...
Criança: Tenho uma ideia: os adultos também podiam brincar. Por exemplo, podiam disfarçar-se.
Outra criança: Como estamos na quadra de Natal, podiam vestir-se de… Pai… Pai… Pai Natal!
Narrador: Umas horas mais tarde…
Pai Natal: (volta à casa onde estão as crianças, vestindo o tradicional fato vermelho): Feliz Natal, oh, oh, oh! Alegrem-se, porque trago uma coisa muito especial para cada um de vocês!
(As crianças reagem com espanto, riem e batem palmas de contentamento)
Pai Natal: Encontrei seis veados à porta de seis humildes casas. E reuni muitos brinquedos, que os veados me ajudaram a transportar no trenó.
Uma criança: (aproxima-se e senta-se ao colo do Pai Natal, curiosa): Pai Natal, és de onde? Onde moras?
Pai Natal: Vivo numa casinha muito pequena que fica no meio da neve, longe, muito longe daqui, no Norte da Europa. A minha terra chama-se Lapónia.
Outra criança: O que fazes?
Pai Natal: A minha casinha está escondida entre os pinheiros, e ninguém consegue vê-la. Mas há outras pessoas que trabalham comigo na fábrica com muitas ferramentas. Fabricamos brinquedos para todas as crianças do mundo. Temos muito trabalho, todos os dias.
Outra criança: E sempre foste Pai Natal?
Pai Natal: No início era um jovem discípulo de Jesus Cristo, o Filho de Deus.
Criança: Aquele a quem conhecemos pela Bíblia?
Pai Natal: Sim. É esse mesmo. Eu nasci numa família nobre e rica. Depois, preparei-me para ser padre e vestia uma túnica. Andava a cavalo. Mais tarde, fizeram-me bispo, e passei a vestir também uma capa.
Criança: Também tinhas paróquias ao teu cuidado? Ou já entregavas presentes?
Pai Natal: Eu sempre gostei de ser amoroso com os pobres e com as crianças. Viajei muito, desde sempre, para visitar as famílias nas suas casas, para ajudar as aldeias a progredirem.
Criança: Conta-nos algumas histórias desses tempos, por favor.
Pai Natal: Eu tinha o costume de fazer doações anónimas, em segredo – como diz Jesus no Evangelho. Andava sempre com sacos com roupas e alimentos para as viúvas, os pobres e as crianças mais necessitadas.
Criança: E já descias pela chaminé?
Pai Natal: Ah, ah, ah! Essa história tornou-se viral, quase lenda, mas tem uma base história. Havia um homem que era muito pobre e que tinha três filhas. Eu receava que elas, por causa da necessidade, se prostituíssem. Então, enchi três saquinhos com moedas de ouro, no valor dos dotes de cada uma das filhas, e atirei-os pela chaminé. Deste modo, salvei as jovens da prostituição e nasceu um mito, ah, ah, ah!
Criança: E como é que sendo rico, trabalhas muito na fábrica e passas a vida a dar presentes aos outros?
Pai Natal: Porque um dia encontrei-me com o Menino Jesus. Aconteceu num sonho…
Criança: A sério?!... E como foi?
Pai Natal: No sonho, eu estava em Israel para distribuir presentes. E cheguei a Nazaré. Vi um menino na rua e disse-lhe: «Meu filho, sou o Pai Natal. Tiveste sorte: já que te encontrei, estou disposto a satisfazer um desejo teu. Diz-me o que desejas.»
Criança: E o que é que ele respondeu?
Pai Natal: Não disse nada. Fitava-me em silêncio.
Criança: E depois?
Pai Natal: Perturbado, insisti: «Vá lá, diz-me o que desejas. Aos outros, faço restrições: tem de ser bem comportados. Mas a ti estou disposto a fazer concessões especiais. O que queres? Brinquedos? Mesa farta? Quem sabe uma casa nova para ti e para os teus pais?»
Criança: E, então, ele fez uma lista de desejos?
Pai Natal: Não. Respondeu-se assim: «Observa os lírios do campo, que não fiam nem tecem. E contudo, eu te digo: nem mesmo o rei Salomão, com toda sua pompa, se vestiu como um deles.»
Criança: Isso deixou-te perplexo?
Pai Natal: Sim, e reagi: «Rapaz, escuta, a tua atitude não leva a nada. Deste modo, nunca conseguirás nada. Serás pobre, passarás fome...»
Criança: E ele?
Pai Natal: Ele replicou: «Escuta, bem aventurados os pobres, porque deles é o reino de Deus. Bem-aventurados os que têm fome, porque serão saciados.»
Criança: E depois?
Pai Natal: Depois disto, pensava desistir e ir-me embora. Achava que não havia nada a fazer por aquele menino muito estranho.
Criança: E como é que soubeste que era Jesus de Nazaré?
Pai Natal: Porque Ele próprio me disse…
Criança (o Menino Jesus): «Eu sou Jesus, aquele a quem tu amas quando alegras os pobres, as viúvas, as crianças, com a tua doçura e generosidade.» Porque os pobres, os que choram, as crianças, querem amor e não objetos; querem conviver com um Deus jovial, que se fez criança, e não ser adeptos do consumo.
Narrador: Nisto, chegam o homem e a mulher do início...
Homem: Senhor, reconheço a sua voz. Foi o senhor que chegou esta manhã à nossa aldeia. Lá fora estão os nossos veados…
Mulher: O que aconteceu aqui foi um verdadeiro milagre de Natal. O senhor está a alegrar estas crianças e fez renascer a criança escondida em nós, nos pais deles e nas pessoas adultas desta aldeia.
Pai Natal: Oh! Eu não fiz mais do que suscitar em vocês um gesto concreto do amor, da ternura, do carinho, do cuidado que já tem habitualmente. Agradeço a cada família o presente que construíram e que eu pude recolher e agora distribuir por todas as crianças.
Homem: É fantástico! Temos de fazer isto nos próximos anos!
Criança: Obrigado, Pai Natal! Nós manteremos para sempre esta tradição.
Criança: Como nos pede o Menino Jesus.
FIM
Fernando Félix, jornalista na revista AUDÁCIA
Comentários
Enviar um comentário