Reflexão sobre a melhor forma de preparar o caminho para Jesus Cristo, na palavra de São João Batista

A pregação de João Batista abalou a consciência de muitos: dizia-lhes em voz alta que era necessário mudar, retornar a Deus, preparar-se para receber o Messias. Alguns aproximaram-se dele com esta pergunta: «O que devemos fazer?»
 
João Batista tem ideias muito claras:
1 - Ele não propõe que adicionem às suas vidas novas práticas religiosas.
2 - Ele não pede que fiquem no deserto a fazer penitência.
3 - Nem os encoraja a fazer uma peregrinação a Jerusalém para receber o Messias no templo.
4 - Ele não fala de novos preceitos.
5 - Ele diz simplesmente que o modo de acolher o Messias é olhar para os necessitados.
O mais decisivo e realista é abrir o coração a Deus, olhando atentamente para as necessidades de quem sofre.
A melhor forma de preparar o caminho para Deus é, simplesmente, tornar a sociedade mais solidária e fraterna, e menos injusta e violenta.
 
De forma direta, no mais puro estilo profético, João Batista resume tudo numa fórmula genial:
«Aquele que tem duas túnicas, que as distribua com quem não tem; e quem tem comida que faça o mesmo. Não exijais nada além do que vos foi prescrito. Não pratiqueis violência com ninguém nem denuncieis injustamente; e contentai-vos com o vosso salário.» (Lucas 3, 10-18)
 
Tão simples e claro, também para nós que vivemos num mundo onde mais de um terço da humanidade vive na miséria, lutando todos os dias para sobreviver, enquanto continuamos a encher os nossos armários com todos os tipos de roupas e a ter os nossos frigoríficos cheios de comida.
 
João não fala com as vítimas, mas com os responsáveis ​​por esse estado de coisas. Dirige-se a quem tem “duas túnicas” e pode comer; àqueles que enriquecem injustamente à custa dos outros; àqueles que abusam do seu poder e força.
 
E, nós, não percebemos que somos responsáveis por vivermos “cativos de uma religião burguesa”? O cristianismo, tal como o vivemos, não parece ter o poder de transformar a sociedade do bem-estar. Pelo contrário, é isso o que distorce o melhor da religião de Jesus, esvaziando o nosso seguimento de Cristo de valores tão genuínos como a solidariedade, a defesa dos pobres, a compaixão e a justiça.
 
Não é suficiente viver de ondas de generosidade. Devemos dar passos em direção a uma vida mais sóbria. Atrever-nos a fazer pouco a pouco a experiência de «nos empobrecermos», cortando o nosso atual nível de bem-estar, compartilhando com os necessitados tantas coisas que temos e não precisamos para viver.
 
Podemos estar especialmente atentos àqueles que caíram em situações graves de exclusão social: expulsos, privados de cuidados de saúde adequados, sem renda ou qualquer recurso social... Devemos sair instintivamente em defesa daqueles que estão a afundar-se na impotência e na falta de motivação para enfrentar o seu futuro.
 
A partir das comunidades cristãs podemos desenvolver diversas iniciativas para estar perto dos casos mais atrozes de desamparo social: conhecimento concreto de situações, mobilização de pessoas para não deixar ninguém sozinho, contribuição de recursos materiais, gestão de possíveis ajudas...
 
Para muitos, são tempos difíceis. A todos é oferecida a oportunidade de humanizar o nosso consumismo louco, de nos tornarmos mais sensíveis ao sofrimento das vítimas, crescer na solidariedade prática, contribuir para denunciar a falta de compaixão na gestão da crise... Será a nossa maneira de receber verdadeiramente Cristo na nossa vida.

José António Pagola, Terceiro Domingo do Advento, Ano C

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